Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Livros
Doutor sabe-tudo

Drauzio Varella, a celebridade médica
da hora, lança coletânea de casos
sobre a morte e pacientes terminais


Jerônimo Teixeira

 
Jorge Woll/Gazeta do Povo/AE
Drauzio Varella: "A televisão é uma armadilha que armei para mim mesmo"

Na internet, os sites cujos títulos começam com "eu odeio..." são um bom indicador da celebridade de alguém. Não será, portanto, nenhuma surpresa que a rede já abrigue um blog intitulado "eu odeio Drauzio Varella". Com inegável talento de comunicador, o paulistano de 61 anos conseguiu converter sua experiência médica na moeda fugidia da fama. Mesmo que contestada na surdina por alguns de seus pares, a imagem de Drauzio como autoridade em assuntos de saúde – quaisquer que sejam, da aids à gestação e ao cérebro – foi muito bem construída e fixada na internet, na televisão, nas livrarias. Seu primeiro livro, Estação Carandiru, vendeu 450.000 exemplares desde o lançamento, em 1999, e foi adaptado para o cinema com direção de Hector Babenco. Agora, Varella está fazendo uma nova investida na lista dos mais vendidos: Por um Fio (Companhia das Letras; 224 páginas; 32 reais) chega às livrarias com tiragem inicial de 100.000 exemplares. É uma espécie de anedotário da morte – uma recolha de casos terminais de câncer e aids com os quais Varella lidou em seus mais de trinta anos de experiência clínica.

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

O tema pode parecer soturno, mas o livro está longe de sê-lo. As mudanças de atitude diante do fim iminente vão mais no sentido da conciliação do que do desespero, e, se há casos tristes, também há surpreendentes momentos de humor diante da morte. Embora o livro evite habilmente o sentimentalismo, o ponto comum a todos os textos é a figura do médico compassivo (que por acaso é também o autor). O texto tangencia questões espinhosas como a eutanásia ("tenho mais dúvidas do que respostas sobre o assunto", admite o autor), mas evita posições polêmicas. Varella define-se como um materialista e não acredita em uma alma que sobreviva ao corpo. Apesar dessa visão cética, o livro argumenta que a serenidade é possível mesmo quando os médicos jogam a toalha – o objetivo da medicina, diz Varella, não é necessariamente curar, mas, sim, aliviar o sofrimento. O último capítulo, o mais pessoal de um livro marcadamente pessoal, fala da morte de Fernando, também médico e irmão de Drauzio, vítima de câncer.

O blog dedicado a odiar o doutor pop é mantido por fundamentalistas do parto normal, que criticam o número supostamente elevado de cesarianas nos quadros de aconselhamento a gestantes que Varella apresentou no Fantástico, da Rede Globo. Mas mesmo entre médicos há críticos acerbos – ainda que anônimos, como é próprio da corporação. Muitos colegas desconfiam da prontidão com que Varella escreve ou fala sobre áreas que não são sua especialidade. Alguns até suspeitam que a celebridade tenha se sobreposto ao médico e acusam o divulgador de não estar mais se dedicando devidamente à matéria que divulga. O próprio Varella reconhece que tem uma rotina muito absorvente, especialmente quando tem de gravar suas participações no Fantástico. "A televisão é uma armadilha que armei para mim mesmo", diz. No entanto, ele insiste na importância de levar conceitos básicos de medicina à população. "A repercussão desse trabalho, que recolho na rua, é muito gratificante", afirma ele, sensível aos dividendos que seu esforço traz para a saúde pública e a vaidade individual.

 

A solidão do médico

"Quando o médico detecta um indício de que a doença se agravou, antes que o doente suspeite, experimenta instantes de solidão extrema. Qual o melhor caminho para explicar o que está acontecendo? (...) Nessas ocasiões, como imagens de filmes já vistos, vem à memória uma sucessão de casos semelhantes que formam a massa crítica do que se convencionou chamar de experiência clínica. (...) Trata-se de uma das situações mais difíceis da prática da cancerologia, porque, apesar da insegurança e do medo que trazem tais visões, é preciso voltar os olhos para a pessoa alheia à realidade, explicar a natureza do achado e demonstrar que estamos tranqüilos, esperançosos e em condições de sugerir a melhor solução para o caso, a despeito de estarmos pessimistas, assustados ou inseguros."

Trecho de Por um Fio

 
 
 
 
topovoltar