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Livros
Doutor sabe-tudo
Drauzio Varella, a celebridade médica
da hora, lança coletânea de casos
sobre a morte e pacientes terminais

Jerônimo Teixeira
Jorge Woll/Gazeta do Povo/AE
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| Drauzio Varella: "A televisão é uma armadilha
que armei para mim mesmo" |
Na internet, os sites cujos títulos
começam com "eu odeio..." são um bom indicador da
celebridade de alguém. Não será, portanto,
nenhuma surpresa que a rede já abrigue um blog intitulado
"eu odeio Drauzio Varella". Com inegável talento de comunicador,
o paulistano de 61 anos conseguiu converter sua experiência
médica na moeda fugidia da fama. Mesmo que contestada na
surdina por alguns de seus pares, a imagem de Drauzio como autoridade
em assuntos de saúde quaisquer que sejam, da aids
à gestação e ao cérebro foi muito
bem construída e fixada na internet, na televisão,
nas livrarias. Seu primeiro livro, Estação Carandiru,
vendeu 450.000 exemplares desde o lançamento, em 1999, e
foi adaptado para o cinema com direção de Hector Babenco.
Agora, Varella está fazendo uma nova investida na lista dos
mais vendidos: Por um Fio (Companhia das Letras; 224
páginas; 32 reais) chega às livrarias com tiragem
inicial de 100.000 exemplares. É uma espécie de anedotário
da morte uma recolha de casos terminais de câncer e
aids com os quais Varella lidou em seus mais de trinta anos de experiência
clínica.
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O tema pode parecer soturno, mas o livro está
longe de sê-lo. As mudanças de atitude diante do fim
iminente vão mais no sentido da conciliação
do que do desespero, e, se há casos tristes, também
há surpreendentes momentos de humor diante da morte. Embora
o livro evite habilmente o sentimentalismo, o ponto comum a todos
os textos é a figura do médico compassivo (que por
acaso é também o autor). O texto tangencia questões
espinhosas como a eutanásia ("tenho mais dúvidas do
que respostas sobre o assunto", admite o autor), mas evita posições
polêmicas. Varella define-se como um materialista e não
acredita em uma alma que sobreviva ao corpo. Apesar dessa visão
cética, o livro argumenta que a serenidade é possível
mesmo quando os médicos jogam a toalha o objetivo
da medicina, diz Varella, não é necessariamente curar,
mas, sim, aliviar o sofrimento. O último capítulo,
o mais pessoal de um livro marcadamente pessoal, fala da morte de
Fernando, também médico e irmão de Drauzio,
vítima de câncer.
O blog dedicado a odiar o doutor pop é
mantido por fundamentalistas do parto normal, que criticam o número
supostamente elevado de cesarianas nos quadros de aconselhamento
a gestantes que Varella apresentou no Fantástico, da
Rede Globo. Mas mesmo entre médicos há críticos
acerbos ainda que anônimos, como é próprio
da corporação. Muitos colegas desconfiam da prontidão
com que Varella escreve ou fala sobre áreas que não
são sua especialidade. Alguns até suspeitam que a
celebridade tenha se sobreposto ao médico e acusam o divulgador
de não estar mais se dedicando devidamente à matéria
que divulga. O próprio Varella reconhece que tem uma rotina
muito absorvente, especialmente quando tem de gravar suas participações
no Fantástico. "A televisão é uma armadilha
que armei para mim mesmo", diz. No entanto, ele insiste na importância
de levar conceitos básicos de medicina à população.
"A repercussão desse trabalho, que recolho na rua, é
muito gratificante", afirma ele, sensível aos dividendos
que seu esforço traz para a saúde pública e
a vaidade individual.
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A solidão do médico
"Quando o médico detecta
um indício de que a doença se agravou,
antes que o doente suspeite, experimenta instantes de
solidão extrema. Qual o melhor caminho para explicar
o que está acontecendo? (...) Nessas ocasiões,
como imagens de filmes já vistos, vem à
memória uma sucessão de casos semelhantes
que formam a massa crítica do que se convencionou
chamar de experiência clínica. (...) Trata-se
de uma das situações mais difíceis
da prática da cancerologia, porque, apesar da
insegurança e do medo que trazem tais visões,
é preciso voltar os olhos para a pessoa alheia
à realidade, explicar a natureza do achado e
demonstrar que estamos tranqüilos, esperançosos
e em condições de sugerir a melhor solução
para o caso, a despeito de estarmos pessimistas, assustados
ou inseguros."
Trecho de Por
um Fio
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