Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Terapia de choque

João Gilberto Noll lança o romance
Lorde e revela que já passou por
uma internação psiquiátrica


Jerônimo Teixeira

Liane Neves
Noll: fobia social tratada com coma insulínico


Era meados de 1964, mas João Gilberto Noll pensava que João Goulart ainda era o presidente do Brasil. Foi preciso que seu pai lembrasse ao futuro escritor que um golpe de Estado havia deposto o político gaúcho. Noll estava saindo de uma internação psiquiátrica em uma clínica no arborizado bairro Glória, em Porto Alegre. Durante um mês, foi submetido a choques insulínicos, experiência que ele qualifica como "amnésica". Embora não tenha lembranças claras da época do tratamento, Noll, um dos ficcionistas mais originais da literatura brasileira dos últimos trinta anos, conservou o trauma: até hoje não se sente capaz de passar em frente à clínica. É compreensível, portanto, que tenha mantido um segredo de quarenta anos sobre o episódio, que decidiu relatar a VEJA. Antes disso, somente seus irmãos e uns poucos amigos próximos sabiam a respeito. Aos 58 anos, porém, Noll encontra-se em uma boa fase: está comprando seu primeiro apartamento em Porto Alegre e acaba de lançar o nono romance, Lorde (Francis; 114 páginas; 32 reais). "Estou me harmonizando, buscando minha saúde", diz. E isso inclui trazer o passado às claras: "Quem tem aids ou diabetes fala disso sem problemas. Por que só as doenças psicológicas precisam ser estigmatizadas?"

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Trechos do livro

O choque insulínico foi introduzido como procedimento psiquiátrico por um médico austríaco, na década de 30, para tratar principalmente casos de esquizofrenia. O tratamento consiste em administrar doses controladas de insulina ao paciente, induzindo-o ao coma. O método já não é mais usado, pois a pesquisa médica demonstrou que seus resultados são nulos. Noll foi submetido ao tratamento depois de um ataque grave de fobia social. O adolescente parara de freqüentar as aulas e passava os dias isolado no quarto, escrevendo. Aliás, foi nessa época de crise que surgiu o desejo de ser escritor. "Para mim, a literatura está umbilicalmente ligada àquilo que se convencionou chamar de estado patológico", diz Noll. Ele até identifica em sua obra características que pelo menos em parte seriam ditadas por sua experiência psiquiátrica: "Não posso fingir abstratamente que essas coisas venham só do meu gosto por Beckett". A fobia social estaria traduzida nos personagens errantes que não conseguem consolidar nenhuma relação significativa, típicos de tantos romances de Noll. Lorde não é exceção. O livro foi composto durante uma temporada que o autor gaúcho passou em Londres, de fevereiro a abril deste ano, como escritor residente do King's College. O protagonista também é um brasileiro que vai à Inglaterra a convite de uma instituição britânica – mas, a partir daí, tudo é incerto: ele não sabe exatamente que instituição é essa, ou o que é esperado que ele faça em Londres. A certa altura, é internado em um hospital, onde perde a consciência e a noção de tempo. Noll pretende retomar o mesmo personagem no próximo livro.

A crise que abalou o autor na adolescência foi precipitada pela homossexualidade, com a qual Noll ainda não sabia lidar ("e isso na idade em que o sexo desabrocha com toda a força"). Passada essa fase difícil, Noll nunca mais teve um distúrbio tão grave. No entanto, ele ainda se sente desconfortável em situações sociais. Tem feito terapia com um psiquiatra e reputa as caminhadas diárias como essenciais para o bem-estar psicológico. Para completar o que ele chama de "harmonização", só sente falta de uma relação afetiva: "Acredito que isso valeria até a dispensa de qualquer terapia. Acho o corpo do outro uma coisa fora de série".

 
 
 
 
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