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Livros
Terapia de choque
João Gilberto Noll lança o romance
Lorde e revela que já passou por
uma internação psiquiátrica

Jerônimo Teixeira
Liane Neves
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| Noll: fobia social tratada com coma insulínico
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Era meados de 1964, mas João Gilberto Noll pensava que João
Goulart ainda era o presidente do Brasil. Foi preciso que seu pai
lembrasse ao futuro escritor que um golpe de Estado havia deposto
o político gaúcho. Noll estava saindo de uma internação
psiquiátrica em uma clínica no arborizado bairro Glória,
em Porto Alegre. Durante um mês, foi submetido a choques insulínicos,
experiência que ele qualifica como "amnésica". Embora
não tenha lembranças claras da época do tratamento,
Noll, um dos ficcionistas mais originais da literatura brasileira
dos últimos trinta anos, conservou o trauma: até hoje
não se sente capaz de passar em frente à clínica.
É compreensível, portanto, que tenha mantido um segredo
de quarenta anos sobre o episódio, que decidiu relatar a
VEJA. Antes disso, somente seus irmãos e uns poucos amigos
próximos sabiam a respeito. Aos 58 anos, porém, Noll
encontra-se em uma boa fase: está comprando seu primeiro
apartamento em Porto Alegre e acaba de lançar o nono romance,
Lorde (Francis; 114 páginas; 32 reais). "Estou
me harmonizando, buscando minha saúde", diz. E isso inclui
trazer o passado às claras: "Quem tem aids ou diabetes fala
disso sem problemas. Por que só as doenças psicológicas
precisam ser estigmatizadas?"
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O choque insulínico foi introduzido
como procedimento psiquiátrico por um médico austríaco,
na década de 30, para tratar principalmente casos de esquizofrenia.
O tratamento consiste em administrar doses controladas de insulina
ao paciente, induzindo-o ao coma. O método já não
é mais usado, pois a pesquisa médica demonstrou que
seus resultados são nulos. Noll foi submetido ao tratamento
depois de um ataque grave de fobia social. O adolescente parara
de freqüentar as aulas e passava os dias isolado no quarto,
escrevendo. Aliás, foi nessa época de crise que surgiu
o desejo de ser escritor. "Para mim, a literatura está umbilicalmente
ligada àquilo que se convencionou chamar de estado patológico",
diz Noll. Ele até identifica em sua obra características
que pelo menos em parte seriam ditadas por sua experiência
psiquiátrica: "Não posso fingir abstratamente que
essas coisas venham só do meu gosto por Beckett". A fobia
social estaria traduzida nos personagens errantes que não
conseguem consolidar nenhuma relação significativa,
típicos de tantos romances de Noll. Lorde não
é exceção. O livro foi composto durante uma
temporada que o autor gaúcho passou em Londres, de fevereiro
a abril deste ano, como escritor residente do King's College. O
protagonista também é um brasileiro que vai à
Inglaterra a convite de uma instituição britânica
mas, a partir daí, tudo é incerto: ele não
sabe exatamente que instituição é essa, ou
o que é esperado que ele faça em Londres. A certa
altura, é internado em um hospital, onde perde a consciência
e a noção de tempo. Noll pretende retomar o mesmo
personagem no próximo livro.
A crise que abalou o autor na adolescência
foi precipitada pela homossexualidade, com a qual Noll ainda não
sabia lidar ("e isso na idade em que o sexo desabrocha com toda
a força"). Passada essa fase difícil, Noll nunca mais
teve um distúrbio tão grave. No entanto, ele ainda
se sente desconfortável em situações sociais.
Tem feito terapia com um psiquiatra e reputa as caminhadas diárias
como essenciais para o bem-estar psicológico. Para completar
o que ele chama de "harmonização", só sente
falta de uma relação afetiva: "Acredito que isso valeria
até a dispensa de qualquer terapia. Acho o corpo do outro
uma coisa fora de série".
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