|
|
Comportamento
Corpo mole
Francesa torna-se celebridade fazendo
apologia da preguiça no local de trabalho

Flavia Varella, de Paris
 |
Em maio, uma escritora francesa desconhecida
lançou um livro sem importância que passou absolutamente
despercebido. Assim permaneceria, provavelmente, não fosse
uma empresa se sentir injuriada, chamar a autora às falas
e criar as condições para um escândalo. Bonjour
Paresse (Bom Dia, Preguiça) foi parar nos principais
jornais franceses. Diante da repercussão, a autora, Corinne
Maier, 40 anos, está tendo de esticar a agenda para atender
jornalistas de vários países e a editora Michalon
decidiu fazer uma reimpressão para dobrar os 4.000
exemplares iniciais. Bom Dia, Preguiça, que leva o
sugestivo subtítulo "A arte e a necessidade de fazer o mínimo
possível no local de trabalho", é uma sátira
ao mundo empresarial, esclarece Corinne em cada entrevista. Seus
chefes na EDF, a estatal de energia da França, onde Corinne
trabalha há doze anos como pesquisadora (aliás, uma
das funções que o livro considera ideais), encararam
a obra como uma tentativa de ridicularização da empresa.
A EDF ameaça puni-la. Corinne só não pode ser
acusada de originalidade. O tema é clássico na França.
Seu antecessor mais célebre é Paul Lafargue (1842-1911),
genro de Karl Marx, formulador do socialismo científico.
Lafargue escreveu O Direito à Preguiça, em
que defendia uma jornada diária de trabalho de apenas três
horas.
A EDF acusa Corinne de ter sido "indiscreta"
ao publicar na contracapa que é funcionária da empresa.
Também a acusa de desrespeitar "a obrigação
de lealdade" para com a companhia e aponta atitudes suas, como "ler
um jornal durante encontro de trabalho e sair da sala com uma reunião
em andamento", como sendo "reveladoras da estratégia apregoada
pelo livro". A autora se confessa pouquíssimo satisfeita
com a notoriedade. "Eu preciso desse trabalho para viver", disse
a VEJA. "Nunca li jornal em reunião e não ponho em
prática os conselhos que dou no livro."
O texto da discórdia, no mínimo,
rende boas risadas ao criticar os inúmeros manuais sobre
como se dar bem profissionalmente. Corinne ironiza a linguagem do
"neomanagement" tanto os termos em inglês como os sinônimos
dispensáveis: por que, indaga, trocar "começar" por
"inicializar", "colocar" por "posicionar", "melhorar" por "otimizar"?
Diplomas, afirma, valorizam o candidato à vaga, sim, porque
"só um aluno que teve a capacidade de suportar um número
enorme de anos de estudo, a estupidez dos professores, o instinto
gregário e a capacidade de imitação dos colegas
será capaz de suportar trinta anos de vida empresarial".
"Como o trabalho não acrescenta nada", conclui, "você
não tem nada a perder não fazendo nada no trabalho".
Ah, como ela bem sabe, pode-se perder uma coisa, sim: o emprego.
|
Operação-padrão
Com suas considerações,
o livro Bom Dia, Preguiça aponta várias
maneiras seguras de pôr fim a uma carreira. Algumas
delas:
O que você faz não serve para nada.
Você pode ser substituído do dia para a
noite pelo primeiro cretino que aparecer. Portanto,
trabalhe o mínimo possível e passe boa
parte do tempo (mas também não muito)
"se vendendo" e "criando uma rede de contatos". Assim,
em caso de reestruturação, você
será intocável.
Você não será julgado pela
maneira como faz seu trabalho, mas pela capacidade de
se enquadrar no modelo. Quanto mais falar no jargão
empresarial moderno, melhor.
Não aceite jamais, sob nenhum pretexto,
um cargo de responsabilidade. Você será
obrigado a trabalhar mais e a única compensação
será alguns trocados extras.
Nas grandes companhias, escolha os cargos mais
imprecisos: consultor, pesquisador, especialista. Quanto
mais impreciso, mais difícil quantificar sua
"contribuição à empresa". Fuja
do trabalho de campo como quem foge da peste.
|
|
|