Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Comportamento
Corpo mole

Francesa torna-se celebridade fazendo
apologia da preguiça no local de trabalho


Flavia Varella, de Paris


Em maio, uma escritora francesa desconhecida lançou um livro sem importância que passou absolutamente despercebido. Assim permaneceria, provavelmente, não fosse uma empresa se sentir injuriada, chamar a autora às falas e criar as condições para um escândalo. Bonjour Paresse (Bom Dia, Preguiça) foi parar nos principais jornais franceses. Diante da repercussão, a autora, Corinne Maier, 40 anos, está tendo de esticar a agenda para atender jornalistas de vários países e a editora Michalon decidiu fazer uma reimpressão para dobrar os 4.000 exemplares iniciais. Bom Dia, Preguiça, que leva o sugestivo subtítulo "A arte e a necessidade de fazer o mínimo possível no local de trabalho", é uma sátira ao mundo empresarial, esclarece Corinne em cada entrevista. Seus chefes na EDF, a estatal de energia da França, onde Corinne trabalha há doze anos como pesquisadora (aliás, uma das funções que o livro considera ideais), encararam a obra como uma tentativa de ridicularização da empresa. A EDF ameaça puni-la. Corinne só não pode ser acusada de originalidade. O tema é clássico na França. Seu antecessor mais célebre é Paul Lafargue (1842-1911), genro de Karl Marx, formulador do socialismo científico. Lafargue escreveu O Direito à Preguiça, em que defendia uma jornada diária de trabalho de apenas três horas.

A EDF acusa Corinne de ter sido "indiscreta" ao publicar na contracapa que é funcionária da empresa. Também a acusa de desrespeitar "a obrigação de lealdade" para com a companhia e aponta atitudes suas, como "ler um jornal durante encontro de trabalho e sair da sala com uma reunião em andamento", como sendo "reveladoras da estratégia apregoada pelo livro". A autora se confessa pouquíssimo satisfeita com a notoriedade. "Eu preciso desse trabalho para viver", disse a VEJA. "Nunca li jornal em reunião e não ponho em prática os conselhos que dou no livro."

O texto da discórdia, no mínimo, rende boas risadas ao criticar os inúmeros manuais sobre como se dar bem profissionalmente. Corinne ironiza a linguagem do "neomanagement" – tanto os termos em inglês como os sinônimos dispensáveis: por que, indaga, trocar "começar" por "inicializar", "colocar" por "posicionar", "melhorar" por "otimizar"? Diplomas, afirma, valorizam o candidato à vaga, sim, porque "só um aluno que teve a capacidade de suportar um número enorme de anos de estudo, a estupidez dos professores, o instinto gregário e a capacidade de imitação dos colegas será capaz de suportar trinta anos de vida empresarial". "Como o trabalho não acrescenta nada", conclui, "você não tem nada a perder não fazendo nada no trabalho". Ah, como ela bem sabe, pode-se perder uma coisa, sim: o emprego.

 

Operação-padrão

Com suas considerações, o livro Bom Dia, Preguiça aponta várias maneiras seguras de pôr fim a uma carreira. Algumas delas:

O que você faz não serve para nada. Você pode ser substituído do dia para a noite pelo primeiro cretino que aparecer. Portanto, trabalhe o mínimo possível e passe boa parte do tempo (mas também não muito) "se vendendo" e "criando uma rede de contatos". Assim, em caso de reestruturação, você será intocável.

Você não será julgado pela maneira como faz seu trabalho, mas pela capacidade de se enquadrar no modelo. Quanto mais falar no jargão empresarial moderno, melhor.

Não aceite jamais, sob nenhum pretexto, um cargo de responsabilidade. Você será obrigado a trabalhar mais e a única compensação será alguns trocados extras.

Nas grandes companhias, escolha os cargos mais imprecisos: consultor, pesquisador, especialista. Quanto mais impreciso, mais difícil quantificar sua "contribuição à empresa". Fuja do trabalho de campo como quem foge da peste.

 
 
 
 
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