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Comércio
Duas vitórias em quatro dias
Decisões históricas da OMC colocam
a agricultura no centro do debate
que prevê a redução das barreiras
ao comércio mundial

Carina Nucci
Claudio Rossi
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| Colheita de cana em São Paulo: revisão
dos subsídios europeus pode aumentar as vendas brasileiras
de açúcar em 400 milhões de dólares
por ano |
A agricultura finalmente ganhou um lugar de
destaque nas negociações sobre a redução
das barreiras ao comércio. Nos primeiros quatro dias deste
mês, a Organização Mundial do Comércio
(OMC) foi o palco de duas decisões históricas. A primeira
e mais importante foi tomada no domingo 1º de agosto, quando
147 países concordaram sobre como deve prosseguir a rodada
de negociações iniciada em Doha, no Catar, em 2001.
Entre outras coisas, ficou definido que os países ricos devem
acabar com os subsídios às exportações
agrícolas. Além de promover rodadas com o objetivo
de reduzir subsídios e impostos de importação,
a OMC funciona como uma espécie de tribunal internacional
para resolver disputas comerciais. Na quarta-feira 4, foi a vez
da segunda decisão marcante. Os juízes da OMC deram
razão a Brasil, Tailândia e Austrália, que exigem
a revisão imediata dos subsídios para exportação
concedidos pela União Européia (UE) aos produtores
de açúcar. A resolução ainda tem caráter
preliminar, mas ganha relevância por se tratar da segunda
na história na OMC envolvendo a questão agrícola.
A primeira ocorreu em abril, quando a organização
afirmou que o Brasil estava certo em pedir mudanças nos bilionários
subsídios que os EUA concedem aos produtores de algodão.
Para entender o significado dessas vitórias
em toda a sua extensão, é preciso não se esquecer
de quanto o subsídio agrícola está entranhado
na vida da sociedade européia. Essa é, portanto, uma
batalha econômica e cultural. Na França, o país
que mais se beneficia das proteções européias,
o apoio ao produtor rural ganhou enorme impulso depois da II Guerra
Mundial. A agricultura tinha duas funções importantes
para a população, traumatizada pela fome e pela destruição.
Uma era garantir o abastecimento e a outra, equilibrar a balança
comercial, já que se importava muito material para a reconstrução
das cidades. Em meados da década de 50, a França começou
a registrar excessos de produção, e, com isso, surgiu
a necessidade de exportar. Como não era competitiva em relação
a países em desenvolvimento, concentrou as vendas na Europa
e buscou nos vizinhos os parceiros para dividir a conta dos subsídios.
Em 1962, a primeira política comum do recém-criado
bloco europeu foi justamente a agrícola. Naquele período,
cerca de 25% dos trabalhadores estavam no campo. Esse porcentual
caiu para menos de 5%, mas a idéia de que os agricultores
são os últimos guardiões da identidade de cada
país se manteve intacta.
Roberto Stuckert Filho/Ag. Globo
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| Ministro Celso Amorim: avanço na OMC
e, na Alca, imobilidade |
Nos EUA, o protecionismo se fortaleceu depois da quebra da Bolsa
de Valores de Nova York, em 1929. Para tirar a economia da depressão,
o governo implementou o New Deal, um pacote de medidas para estimular
o crescimento que elevou os impostos de importação.
Hoje, o volume dos subsídios nos EUA é bastante inferior
aos concedidos na Europa. São 94 bilhões de dólares,
contra os cerca de 145 bilhões de dólares dos europeus.
A diferença entre os valores é grande, mas não
a suscetibilidade dos políticos ao lobby agrícola.
Na região conhecida como Meio-Oeste, o celeiro americano,
ele ganha força em ano eleitoral. É suicídio
político, por exemplo, George W. Bush cortar algumas dessas
subvenções. Ou que John Kerry defenda uma posição
diferente da de Bush em nome de um eventual aumento da competitividade
da agricultura americana. A pressão dos produtores de laranja
de lá é tanta que algumas empresas brasileiras
seguindo a máxima "se não pode vencê-los, melhor
se unir a eles" expandiram fortemente a presença na
Flórida nos anos 90. Por isso, a sensação de
que não havia maneira de vencer o protecionismo agrícola,
agora, está perdendo força.
A presença do Brasil no grupo de países
que centralizaram as negociações em Genebra, na última
semana de julho, foi uma novidade. Nas rodadas anteriores, o rascunho
era acertado entre europeus e americanos. "Esse acordo só
foi possível por causa da criação do G-20,
o grupo de países liderados pelo Brasil. Em Cancún,
os EUA e a UE ficaram perplexos, mas depois assimilaram a nova correlação
de forças", diz Pedro de Camargo Neto, conselheiro da Sociedade
Rural Brasileira. As duas vitórias na OMC não deveriam
diminuir a urgência de um acordo que tire a negociação
da Área de Livre Comércio das Américas (Alca)
do estado de torpor em que se encontra. "Em Genebra, comentei com
Robert Zoellick, o representante americano, que, se tivéssemos
tido na Alca o engajamento que tivemos na OMC, tudo teria sido mais
fácil", disse Celso Amorim, ministro das Relações
Exteriores do Brasil. O governo brasileiro, que como quase
todos os governos critica o protecionismo alheio e defende
o seu próprio, resiste em aceitar a proposta americana nas
áreas de licitação governamental, abertura
do setor de serviços e propriedade intelectual. Os americanos,
por sua vez, fizeram uma proposta agrícola inaceitável.
Pior: criou-se um clima de confronto.
A condenação dos subsídios
ao açúcar europeu e o entendimento sobre as diretrizes
da Rodada Doha não garantem um final feliz. É bem
provável que a UE recorra da decisão do açúcar
a partir de setembro. E na Rodada Doha o que se tem é uma
base sobre a qual negociar, não um acordo fechado com prazos
e definições. Os detalhes sobre o apoio interno aos
agricultores e, principalmente, as listas de produtos sensíveis
ainda precisam ser negociados, o que não será nada
simples. Tampouco será uma surpresa se produtos estratégicos
para o Brasil, como a carne e o suco de laranja, ficarem de fora
da liberalização. Ainda assim, as duas decisões
tomadas neste mês são duas vitórias na longa
história do protecionismo agrícola.
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Sucesso nos ares

Marcelo Carneiro
Enquanto o Itamaraty expunha o
presidente Lula às feras no Gabão, uma
iniciativa externa realmente significativa para os interesses
nacionais estava em curso. Ela veio à luz na
semana passada. A Embraer, a quarta maior fabricante
mundial de aviões, divulgou sua entrada em mercado
disputado e lucrativo. Associada à americana
Lockheed Martin, a empresa de São José
dos Campos anunciou sua vitória em uma concorrência
que prevê o fornecimento de até 58 aviões
de reconhecimento para as Forças Armadas dos
Estados Unidos (veja
quadro). O acordo com a maior potência
militar do mundo, que se estenderá pelos próximos
vinte anos, deve render 8 bilhões de dólares.
Analistas estimam que a Embraer pode levar até
1,5 bilhão de dólares desse bolo. Hoje,
o país vende cerca de 25 milhões de dólares
em equipamentos de defesa a outras nações
por ano, uma porção ínfima de um
mercado dominado pelos EUA e pela Inglaterra. Com esse
contrato da Embraer, que fornecerá aviões
do tipo EMB 145 versão militar do jato
comercial ERJ 145 , a média nacional poderá
passar para 100 milhões de dólares.
Essa conquista encerra algumas
lições. A primeira delas é que,
para obter sucesso desse porte, as empresas devem aprender
com os próprios insucessos. Em 1995, a recém-privatizada
Embraer perdeu uma concorrência para fornecimento
de aviões de treinamento para a Marinha e a Força
Aérea americanas. Na época, os executivos
da companhia perceberam que, se pretendiam entrar no
concorrido mercado de defesa dos Estados Unidos, precisavam
aliar-se aos mais fortes parceiros nesse setor. A Lockheed,
que lidera o consórcio do qual faz parte a Embraer,
é hoje a maior fornecedora do mercado bélico
dos EUA, cujo orçamento anual para defesa chega
a 400 bilhões de dólares. A empresa brasileira
ainda fez outra lição de casa. Após
o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, o governo
Bush editou uma lei determinando que todas as companhias
estrangeiras que fornecem equipamentos de defesa aos
Estados Unidos devem montá-los em fábricas
situadas em solo americano. Antes mesmo do resultado
da concorrência, a Embraer iniciou negociações
com o Estado da Flórida para a instalação
de uma unidade na cidade de Jacksonville, demonstrando
que teria condições de atender às
encomendas do governo americano.
O contrato firmado pela companhia
não é importante apenas do ponto de vista
financeiro. Significa a entrada da empresa brasileira
em um mercado que hoje, com o agravamento das tensões
no Oriente Médio, se tornou uma importante fatia
no negócio da aviação. Fábricas
como a Embraer podem ganhar dinheiro vendendo três
tipos de avião: os comerciais, os jatos de luxo
e as aeronaves militares. A aviação comercial
é o setor com a maior participação,
mas a Embraer pretende, nos próximos anos, ter
pelo menos 30% de seu faturamento gerado com a venda
de jatinhos ou aviões de defesa. "Em um mercado
com tantas oscilações como o da aviação,
é fundamental não apostar apenas em um
setor", explica Paulo Sampaio, consultor especializado
em aviação. Há ainda outro aspecto.
A parceria com a Lockheed, que dispõe do que
existe de mais moderno em sistemas de vigilância,
como o que está sendo implementado pelo Pentágono,
possibilitará à empresa a abertura de
novos mercados. "Nós temos 300 parceiros comerciais
em vários países, e a Embraer também
é conhecida em todo o mundo. Certamente, estaremos
juntos em outras concorrências", disse a VEJA
Ron Covais, presidente da Lockheed Martin para as Américas.
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Com
reportagem de Carlos Rydlewski
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