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Olimpíadas
Glória ou vergonha
O exame antidoping será
a prova
mais temida destes Jogos Olímpicos

André Fontenelle, de Atenas
AFP
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Há muitos candidatos
a herói nesta edição dos Jogos Olímpicos,
cuja cerimônia de abertura acontece na próxima sexta-feira.
O mais evidente deles é o nadador americano Michael Phelps,
de 19 anos, que pode superar o recorde de sete medalhas de ouro
estabelecido por Mark Spitz em 1972. Na perspectiva brasileira,
a ginasta Daiane dos Santos, o saltador Jadel Gregório, os
atletas do vôlei e alguns judocas também criam uma
expectativa favorável. Mas a sombra do doping paira sobre
Atenas junto com o dirigível branco que diariamente recolhe
amostras do ar para prevenir um hipotético ataque químico
terrorista. A descoberta de um número recorde de casos de
doping pode ser tão destrutiva para o esporte quanto um atentado.
Assim como nunca se viu um aparato olímpico de segurança
com as dimensões do que se montou na Grécia, jamais
se preparou um esquema
tão rígido de perseguição aos trapaceiros
como o instalado no bairro Maroussi, dentro do complexo principal
de estádios e ginásios. O Mundial de Atletismo do
ano passado, no qual atletas pegos pelos exames tiveram as medalhas
repassadas a outros concorrentes, que por sua vez também
foram apanhados no antidoping meses depois, dá uma idéia
do que pode ocorrer nas próximas semanas.
O belga Jacques Rogge, presidente do Comitê
Olímpico Internacional (COI), aposta que os Jogos deverão
ser "limpos" porque os atletas sabem que os exames serão
eficazes. Antes mesmo das Olimpíadas, já se providenciou
o aumento do número de testes-surpresa, para dissuadir competidores
quimicamente turbinados de embarcar para a Grécia. O COI
e a Agência Mundial Antidoping fizeram 385 exames pré-competição
em todo o planeta em atletas de ponta ou considerados insuficientemente
testados em seu país. Durante a competição,
outros 3 000 serão examinados: os quatro primeiros colocados
de todas as provas e outros, escolhidos por sorteio. É um
aumento de 25% em relação ao número de testes
realizados em Sydney, quando oito atletas foram pegos. "Somos capazes
de detectar até transfusões de sangue e adulteração
de amostras de urina", diz o diretor médico do COI, o francês
Patrick Schamasch. Para assustar trapaceiros, Schamasch guarda alguns
segredos. Não confirma, por exemplo, se em Atenas será
adotado um novo exame para detectar HGH, o hormônio de crescimento
humano.
É cedo para saber se as providências
evitarão a repetição de casos como o do revezamento
4 por 400 metros em Sydney, cujo resultado até hoje está
em questão. Jerome Young, integrante do time americano vencedor
da prova, teve um teste positivo um ano antes. A Federação
Internacional de Atletismo recomendou que sua medalha fosse cassada,
mas ainda não há decisão sobre os outros atletas
da equipe. Por enquanto, conservam o ouro embora um deles,
Calvin Harrison, tenha tido um antidoping positivo no ano passado.
Com o cerco antidoping, viram-se diversos favoritos renunciar aos
Jogos recentemente, muitos anunciando lesões. Na semana passada,
por exemplo, a federação grega de natação
cortou uma nadadora da delegação por razões
médicas. Quatro dias antes, essa atleta havia passado por
um exame antidoping. Tim Montgomery, o recordista mundial dos 100
metros rasos, um dos nomes arrolados pela comissão do Senado
americano que investiga um programa de doping científico
conduzido pelo laboratório californiano Balco, foi surpreendentemente
eliminado na seletiva olímpica de seu país. O corredor
Larry Wade, estrela dos Estados Unidos nos 110 metros com barreiras,
também está fora dos Jogos. Justificou-se alegando
uma lesão no braço. Horas mais tarde foi revelado
o resultado positivo em um exame antidoping a que ele fora submetido.
Essas ausências podem ser os primeiros
frutos da abordagem agressiva do problema. Durante décadas
o doping foi encarado como uma questão individual, deslize
de ovelhas negras. Parte dos especialistas ainda pensa assim. "Se
1% dos atletas testados é pego, isso significa que em torno
de 1% de todos os concorrentes estava dopado", diz o brasileiro
Eduardo de Rose, membro da comissão médica do COI.
Mas a visão segundo a qual todo atleta é inocente
até um teste antidoping em contrário está longe
da unanimidade. Entre os próprios esportistas, poucos acreditam
que o doping seja um problema marginal. "Acho que quem diz que 90%
da natação se dopa fala a verdade", diz a nadadora
brasileira Laura Azevedo, suspensa no ano passado depois que se
detectaram três esteróides em sua urina. "Mas só
pegaram a mim, que sou inocente", ela acrescenta, alegando que a
amostra de seu exame foi adulterada.
Alguns países decidiram que colher
sangue e urina de quem compete não é o bastante. Estados
Unidos e França criaram suas próprias agências
antidoping e transformaram a questão em caso de polícia.
Hoje são comuns batidas policiais em laboratórios
e até na casa de médicos ou atletas suspeitos de fornecer
ou receber drogas que melhoram o desempenho. Arrancar confissões
tem permitido puxar o fio que leva aos fornecedores. Austrália,
Estados Unidos e Inglaterra excluíram de suas delegações
atletas que confessaram doping, independentemente de testes positivos.
No caso do laboratório Balco, procuram-se provas de que esportistas
receberam substâncias proibidas, mesmo sem comprovação
clínica de que as utilizaram.
Essa revolução começou
pelo ciclismo, depois de um escândalo que abalou o principal
alicerce desse esporte a centenária Volta da França,
uma das competições mais tradicionais do mundo. Em
1998, guardas de fronteira encontraram um carregamento de eritropoetina,
ou EPO, a substância proibida em moda na época, no
porta-malas da viatura médica de uma das equipes participantes.
A investigação posterior levou vários ciclistas
a confessar que se dopavam e a entregar outros colegas. No ano seguinte,
prometeu-se uma Volta da França limpa. A vitória ficou
com um americano de 27 anos, Lance Armstrong, que cativou o público
com sua história comovente: três anos antes, quase
havia morrido de um câncer que começou nos testículos
e se espalhou rapidamente por seu corpo. No mês passado Armstrong
se tornou um dos maiores heróis da história do esporte
ao vencer a prova pela sexta vez consecutiva, um feito inédito.
Mas essa glória não livrou o
ciclismo do espectro do doping. Sempre se suspeitou das relações
de Armstrong com o médico italiano Michele Ferrari, envolvido
em casos anteriores de fornecimento de substâncias proibidas
a esportistas. O livro L.A. Confidencial: Os Segredos de Lance
Armstrong, lançado alguns dias antes da última
Volta da França, traz indícios circunstanciais contra
o hexacampeão. Uma ex-massagista afirma que foi enviada por
Armstrong à fronteira da Espanha para buscar frascos de uma
substância não identificada. Diz ainda que o viu maquiar
marcas de injeções no braço antes de um exame
médico. Outro americano, Greg LeMond, que venceu três
vezes a Volta da França e ajudou Armstrong no início
da carreira, afirma ter recebido, há dois anos, um telefonema
perturbador de seu ex-amigo. "Vai me dizer que você nunca
tomou EPO?", teria perguntado Armstrong durante um bate-boca entre
os dois. "Ou ele é o maior caso de superação
ou a maior fraude da história do esporte", diz LeMond. Armstrong
atribui tudo à inveja. "O vento só sopra nas árvores
altas", filosofa. De fato, ninguém suspeita de perdedores.
Mas desse dissabor, pelo menos, o ciclista está livre nas
próximas semanas. Armstrong foi um dos que preferiram ficar
longe de Atenas. Anunciou que quer passar mais tempo com a família.
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