Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Olimpíadas
Glória ou vergonha

O exame antidoping será a prova
mais temida destes Jogos Olímpicos


André Fontenelle, de Atenas


AFP


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Uma prova exemplar

Há muitos candidatos a herói nesta edição dos Jogos Olímpicos, cuja cerimônia de abertura acontece na próxima sexta-feira. O mais evidente deles é o nadador americano Michael Phelps, de 19 anos, que pode superar o recorde de sete medalhas de ouro estabelecido por Mark Spitz em 1972. Na perspectiva brasileira, a ginasta Daiane dos Santos, o saltador Jadel Gregório, os atletas do vôlei e alguns judocas também criam uma expectativa favorável. Mas a sombra do doping paira sobre Atenas junto com o dirigível branco que diariamente recolhe amostras do ar para prevenir um hipotético ataque químico terrorista. A descoberta de um número recorde de casos de doping pode ser tão destrutiva para o esporte quanto um atentado. Assim como nunca se viu um aparato olímpico de segurança com as dimensões do que se montou na Grécia, jamais se preparou um esquema tão rígido de perseguição aos trapaceiros como o instalado no bairro Maroussi, dentro do complexo principal de estádios e ginásios. O Mundial de Atletismo do ano passado, no qual atletas pegos pelos exames tiveram as medalhas repassadas a outros concorrentes, que por sua vez também foram apanhados no antidoping meses depois, dá uma idéia do que pode ocorrer nas próximas semanas.

O belga Jacques Rogge, presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), aposta que os Jogos deverão ser "limpos" porque os atletas sabem que os exames serão eficazes. Antes mesmo das Olimpíadas, já se providenciou o aumento do número de testes-surpresa, para dissuadir competidores quimicamente turbinados de embarcar para a Grécia. O COI e a Agência Mundial Antidoping fizeram 385 exames pré-competição em todo o planeta em atletas de ponta ou considerados insuficientemente testados em seu país. Durante a competição, outros 3 000 serão examinados: os quatro primeiros colocados de todas as provas e outros, escolhidos por sorteio. É um aumento de 25% em relação ao número de testes realizados em Sydney, quando oito atletas foram pegos. "Somos capazes de detectar até transfusões de sangue e adulteração de amostras de urina", diz o diretor médico do COI, o francês Patrick Schamasch. Para assustar trapaceiros, Schamasch guarda alguns segredos. Não confirma, por exemplo, se em Atenas será adotado um novo exame para detectar HGH, o hormônio de crescimento humano.

É cedo para saber se as providências evitarão a repetição de casos como o do revezamento 4 por 400 metros em Sydney, cujo resultado até hoje está em questão. Jerome Young, integrante do time americano vencedor da prova, teve um teste positivo um ano antes. A Federação Internacional de Atletismo recomendou que sua medalha fosse cassada, mas ainda não há decisão sobre os outros atletas da equipe. Por enquanto, conservam o ouro – embora um deles, Calvin Harrison, tenha tido um antidoping positivo no ano passado. Com o cerco antidoping, viram-se diversos favoritos renunciar aos Jogos recentemente, muitos anunciando lesões. Na semana passada, por exemplo, a federação grega de natação cortou uma nadadora da delegação por razões médicas. Quatro dias antes, essa atleta havia passado por um exame antidoping. Tim Montgomery, o recordista mundial dos 100 metros rasos, um dos nomes arrolados pela comissão do Senado americano que investiga um programa de doping científico conduzido pelo laboratório californiano Balco, foi surpreendentemente eliminado na seletiva olímpica de seu país. O corredor Larry Wade, estrela dos Estados Unidos nos 110 metros com barreiras, também está fora dos Jogos. Justificou-se alegando uma lesão no braço. Horas mais tarde foi revelado o resultado positivo em um exame antidoping a que ele fora submetido.

Essas ausências podem ser os primeiros frutos da abordagem agressiva do problema. Durante décadas o doping foi encarado como uma questão individual, deslize de ovelhas negras. Parte dos especialistas ainda pensa assim. "Se 1% dos atletas testados é pego, isso significa que em torno de 1% de todos os concorrentes estava dopado", diz o brasileiro Eduardo de Rose, membro da comissão médica do COI. Mas a visão segundo a qual todo atleta é inocente até um teste antidoping em contrário está longe da unanimidade. Entre os próprios esportistas, poucos acreditam que o doping seja um problema marginal. "Acho que quem diz que 90% da natação se dopa fala a verdade", diz a nadadora brasileira Laura Azevedo, suspensa no ano passado depois que se detectaram três esteróides em sua urina. "Mas só pegaram a mim, que sou inocente", ela acrescenta, alegando que a amostra de seu exame foi adulterada.

Alguns países decidiram que colher sangue e urina de quem compete não é o bastante. Estados Unidos e França criaram suas próprias agências antidoping e transformaram a questão em caso de polícia. Hoje são comuns batidas policiais em laboratórios e até na casa de médicos ou atletas suspeitos de fornecer ou receber drogas que melhoram o desempenho. Arrancar confissões tem permitido puxar o fio que leva aos fornecedores. Austrália, Estados Unidos e Inglaterra excluíram de suas delegações atletas que confessaram doping, independentemente de testes positivos. No caso do laboratório Balco, procuram-se provas de que esportistas receberam substâncias proibidas, mesmo sem comprovação clínica de que as utilizaram.

Essa revolução começou pelo ciclismo, depois de um escândalo que abalou o principal alicerce desse esporte – a centenária Volta da França, uma das competições mais tradicionais do mundo. Em 1998, guardas de fronteira encontraram um carregamento de eritropoetina, ou EPO, a substância proibida em moda na época, no porta-malas da viatura médica de uma das equipes participantes. A investigação posterior levou vários ciclistas a confessar que se dopavam e a entregar outros colegas. No ano seguinte, prometeu-se uma Volta da França limpa. A vitória ficou com um americano de 27 anos, Lance Armstrong, que cativou o público com sua história comovente: três anos antes, quase havia morrido de um câncer que começou nos testículos e se espalhou rapidamente por seu corpo. No mês passado Armstrong se tornou um dos maiores heróis da história do esporte ao vencer a prova pela sexta vez consecutiva, um feito inédito.

Mas essa glória não livrou o ciclismo do espectro do doping. Sempre se suspeitou das relações de Armstrong com o médico italiano Michele Ferrari, envolvido em casos anteriores de fornecimento de substâncias proibidas a esportistas. O livro L.A. Confidencial: Os Segredos de Lance Armstrong, lançado alguns dias antes da última Volta da França, traz indícios circunstanciais contra o hexacampeão. Uma ex-massagista afirma que foi enviada por Armstrong à fronteira da Espanha para buscar frascos de uma substância não identificada. Diz ainda que o viu maquiar marcas de injeções no braço antes de um exame médico. Outro americano, Greg LeMond, que venceu três vezes a Volta da França e ajudou Armstrong no início da carreira, afirma ter recebido, há dois anos, um telefonema perturbador de seu ex-amigo. "Vai me dizer que você nunca tomou EPO?", teria perguntado Armstrong durante um bate-boca entre os dois. "Ou ele é o maior caso de superação ou a maior fraude da história do esporte", diz LeMond. Armstrong atribui tudo à inveja. "O vento só sopra nas árvores altas", filosofa. De fato, ninguém suspeita de perdedores. Mas desse dissabor, pelo menos, o ciclista está livre nas próximas semanas. Armstrong foi um dos que preferiram ficar longe de Atenas. Anunciou que quer passar mais tempo com a família.

 
 
 
 
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