Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Religião
A mulher dos padres


Mario Sabino

 
Reuters
João Paulo II e suas freiras: no princípio, a Igreja representou a liberdade para as mulheres

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João Paulo II

Se há algo a aprender com a Igreja Católica, é que uma instituição com 2.000 anos de existência jamais surpreende no que realmente interessa. E porque não surpreende é que resiste às intempéries da história. Mudanças, quando as há, demoram séculos para ser levadas a cabo. Pegue-se o caso do Concílio Vaticano II, um marco na modernização doutrinal e litúrgica da Igreja, concebido para varrer a poeira do Trono de Pedro, nas palavras de seu idealizador, o papa João XXIII: oficialmente, ele foi encerrado em meados da década de 60. Mas, passados quarenta anos, o Concílio é um processo que mal ultrapassou sua primeira fase de implantação. Há muitas marchas e contramarchas impostas pelo jogo de poder na cúpula da Igreja – o que, unicamente do ponto de vista da instituição, é benéfico, porque evita precipitações que resultariam em danos irreversíveis.

Uma das melhores maneiras de avaliar a quantas anda o jogo de poder na Cúria Romana, o aparato burocrático que serve ao papa no Vaticano, são os documentos divulgados ao público. Na hierarquia católica, quem pode mais manda mais e também escreve mais. Quem está por baixo deve seguir religiosamente, com o perdão do trocadilho, o principal mandamento da Cúria: "Não pense. Se pensar, não fale. Se falar, não escreva. Se escrever, não assine. Se assinar, não se arrependa". O último documento da Cúria – "Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a Colaboração do Homem e da Mulher na Igreja e no Mundo" – trata sobre o que seriam os exageros do feminismo e o perigo que eles representam para a família. Critica "a tendência que sublinha fortemente a condição de subordinação da mulher, procurando criar uma atitude de contestação". E diz que a tentativa do feminismo de abolir a diferença entre os sexos "acabou de fato por inspirar ideologias que promovem, por exemplo, o questionamento da família, por sua índole natural biparental, ou seja, composta de pai e de mãe, a equiparação da homossexualidade à heterossexualidade, um novo modelo de sexualidade polimórfica". Um ataque nem tão indireto à legalização do casamento gay.

O autor do documento é Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Seu poder, que sempre foi grande, vem crescendo à medida que a saúde do papa João Paulo II se deteriora. Uma das funções de Ratzinger é calar a boca de clérigos liberais, que gostariam que a Igreja atenuasse a ortodoxia em relação a alguns comportamentos. Atenuasse, bem entendido. Os que propunham mudanças mais radicais já foram expulsos por ele há muito tempo. Talvez Ratzinger fosse menos odiado se o seu estilo denotasse alguma suavidade. Mas não. Ele é duro, incisivo. Como nesse documento sobre o feminismo, em que aproveita para reafirmar que a Igreja não aceita discutir o sacerdócio feminino.

A carta aos bispos é reacionária, retrógrada, anacrônica? Sem dúvida. Não devemos subestimar Ratzinger, contudo. É o caso de perguntar se ele, no fundo, não tem uma boa percepção – a de que o rebanho católico quer uma Igreja ancorada na tradição, mas da qual possa discordar sem cortar todos os laços. Como os filhos que se rebelam contra os pais, mas não deixam de comparecer ao almoço dominical da família e esperam dos velhos que estes não lhes façam surpresas. Há um ponto aí a ser estudado por quem se interessa por psicologia de massas. O outro aspecto a ser enfatizado é que, da perspectiva exclusiva da história da Igreja, têm sentido o papel que a instituição reserva às mulheres no âmbito familiar e as condenações ao aborto, divórcio e infidelidade. Nos primórdios do cristianismo, eles significaram – espante-se, caro progressista – libertação feminina. Como escreve o sociólogo americano Rodney Stark, no livro The Rise of Christianity (A Ascensão da Cristandade), todas essas proibições conferiram um novo status às mulheres, que, nas sociedades pagãs, eram vítimas da dissolução masculina. Poligamia, matança de meninas recém-nascidas, maridos que abandonavam suas mulheres sem nenhuma sanção penal ou moral – tais eram os costumes contra os quais o cristianismo se voltou com a rigidez de seus dogmas e códigos. Por tudo isso, elas foram as maiores divulgadoras da fé cristã. A mulher dos padres era melhor do que a mulher dos pagãos. Demorará muito para que o Vaticano rompa com essa tradição. Inclusive porque as horas da Igreja não se medem em minutos, mas em séculos.

 
 
 
 
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