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Religião
A mulher dos padres

Mario Sabino
Reuters
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| João Paulo II e suas freiras:
no princípio, a Igreja representou a liberdade para as mulheres
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Se há
algo a aprender com a Igreja Católica, é que uma instituição
com 2.000 anos de existência jamais surpreende no que realmente
interessa. E porque não surpreende é que resiste às
intempéries da história. Mudanças, quando as
há, demoram séculos para ser levadas a cabo. Pegue-se
o caso do Concílio Vaticano II, um marco na modernização
doutrinal e litúrgica da Igreja, concebido para varrer a
poeira do Trono de Pedro, nas palavras de seu idealizador, o papa
João XXIII: oficialmente, ele foi encerrado em meados da
década de 60. Mas, passados quarenta anos, o Concílio
é um processo que mal ultrapassou sua primeira fase de implantação.
Há muitas marchas e contramarchas impostas pelo jogo de poder
na cúpula da Igreja o que, unicamente do ponto de
vista da instituição, é benéfico, porque
evita precipitações que resultariam em danos irreversíveis.
Uma das
melhores maneiras de avaliar a quantas anda o jogo de poder na Cúria
Romana, o aparato burocrático que serve ao papa no Vaticano,
são os documentos divulgados ao público. Na hierarquia
católica, quem pode mais manda mais e também escreve
mais. Quem está por baixo deve seguir religiosamente, com
o perdão do trocadilho, o principal mandamento da Cúria:
"Não pense. Se pensar, não fale. Se falar, não
escreva. Se escrever, não assine. Se assinar, não
se arrependa". O último documento da Cúria
"Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a Colaboração
do Homem e da Mulher na Igreja e no Mundo" trata sobre o
que seriam os exageros do feminismo e o perigo que eles representam
para a família. Critica "a tendência que sublinha fortemente
a condição de subordinação da mulher,
procurando criar uma atitude de contestação". E diz
que a tentativa do feminismo de abolir a diferença entre
os sexos "acabou de fato por inspirar ideologias que promovem, por
exemplo, o questionamento da família, por sua índole
natural biparental, ou seja, composta de pai e de mãe, a
equiparação da homossexualidade à heterossexualidade,
um novo modelo de sexualidade polimórfica". Um ataque nem
tão indireto à legalização do casamento
gay.
O autor
do documento é Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação
para a Doutrina da Fé. Seu poder, que sempre foi grande,
vem crescendo à medida que a saúde do papa João
Paulo II se deteriora. Uma das funções de Ratzinger
é calar a boca de clérigos liberais, que gostariam
que a Igreja atenuasse a ortodoxia em relação a alguns
comportamentos. Atenuasse, bem entendido. Os que propunham mudanças
mais radicais já foram expulsos por ele há muito tempo.
Talvez Ratzinger fosse menos odiado se o seu estilo denotasse alguma
suavidade. Mas não. Ele é duro, incisivo. Como nesse
documento sobre o feminismo, em que aproveita para reafirmar que
a Igreja não aceita discutir o sacerdócio feminino.
A carta
aos bispos é reacionária, retrógrada, anacrônica?
Sem dúvida. Não devemos subestimar Ratzinger, contudo.
É o caso de perguntar se ele, no fundo, não tem uma
boa percepção a de que o rebanho católico
quer uma Igreja ancorada na tradição, mas da qual
possa discordar sem cortar todos os laços. Como os filhos
que se rebelam contra os pais, mas não deixam de comparecer
ao almoço dominical da família e esperam dos velhos
que estes não lhes façam surpresas. Há um ponto
aí a ser estudado por quem se interessa por psicologia de
massas. O outro aspecto a ser enfatizado é que, da perspectiva
exclusiva da história da Igreja, têm sentido o papel
que a instituição reserva às mulheres no âmbito
familiar e as condenações ao aborto, divórcio
e infidelidade. Nos primórdios do cristianismo, eles significaram
espante-se, caro progressista libertação
feminina. Como escreve o sociólogo americano Rodney Stark,
no livro The Rise of Christianity (A Ascensão da Cristandade),
todas essas proibições conferiram um novo status às
mulheres, que, nas sociedades pagãs, eram vítimas
da dissolução masculina. Poligamia, matança
de meninas recém-nascidas, maridos que abandonavam suas mulheres
sem nenhuma sanção penal ou moral tais eram
os costumes contra os quais o cristianismo se voltou com a rigidez
de seus dogmas e códigos. Por tudo isso, elas foram as maiores
divulgadoras da fé cristã. A mulher dos padres era
melhor do que a mulher dos pagãos. Demorará muito
para que o Vaticano rompa com essa tradição. Inclusive
porque as horas da Igreja não se medem em minutos, mas em
séculos.
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