Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Irlanda
O milagre irlandês

A história do país que já foi pobre e
hoje é o que mais cresce na Europa


Diogo Schelp

A pequena Irlanda sempre foi conhecida por uma contradição: pobre em recursos, riquíssima em escritores. As obras de autores geniais como Oscar Wilde, James Joyce, Samuel Beckett, W. B. Yeats, Jonathan Swift costumavam refletir isso, com diferentes tratamentos literários, mostrando o conflito entre ideais elevados e a sórdida realidade de um país miserável, convulsionado pelo choque de religiões, dominado pelos ingleses e obrigado a buscar na emigração a única saída para suas agruras. Na década passada, os irlandeses eliminaram o que sobrava da realidade degradante e ficaram apenas com os ideais elevados. No último relatório da ONU sobre o índice de desenvolvimento humano (IDH), a Irlanda fica entre os dez países com a melhor qualidade de vida do planeta. É um resultado espantoso para um país que apenas quinze anos atrás se classificava entre os três mais pobres da Europa. O salto foi dado graças a um crescimento econômico fenomenal – média de 8% ao ano ao longo de uma década –, que conferiu à ilha o apelido de "Tigre Celta". Ironia das ironias: pelo critério do PIB per capita anual da população, os irlandeses já são mais ricos que os ingleses, aos quais só deixaram de prestar vassalagem em 1949 (o pedaço que não conseguiu a independência e continuou criando problemas é a Irlanda do Norte, ainda atrelada ao Reino Unido).

A virada celta começou com a entrada do país na União Européia em 1973 (então Comunidade Européia). Na condição de primo pobre, tal como aconteceu com Espanha e Portugal, outros filhos do milagre europeu, a Irlanda recebeu um grande volume de subsídios. Foram 37 bilhões de dólares injetados ao longo de três décadas na economia irlandesa pelos parceiros europeus. Mesmo com esse choque de dinheiro, a Irlanda precisou de outro empurrão para superar o atraso de uma economia praticamente agrária. O instrumento foi uma política industrial ambiciosa, que reduziu os impostos para as empresas e transformou o sistema de ensino. Em poucos anos, as escolas irlandesas começaram a formar um grande número de jovens qualificados para trabalhar na indústria de alta tecnologia, especialmente de computação. O nível de endividamento do Estado foi reduzido para menos da metade. Atraídas pelos impostos baixos, pelo mercado europeu próximo e aberto, pelas regras claras da política de investimento e pela mão-de-obra de língua inglesa, instruída e barata, multinacionais americanas correram para instalar fábricas na Irlanda. Hoje, um terço dos investimentos americanos na Europa concentra-se na ilha.

Irlanda e Estados Unidos têm fortes laços culturais há 150 anos. Mais de 30 milhões de americanos são descendentes de irlandeses, incluindo os presidentes John Kennedy e Ronald Reagan. A maior onda migratória aconteceu na metade do século XIX, quando uma praga nas plantações de batata deu início aos anos da Grande Fome, que matou 1 milhão de pessoas e expeliu o dobro disso. Agora, pela primeira vez na história recente da Irlanda, há mais pessoas se mudando para lá do que saindo. O índice de natalidade bate recorde atrás de recorde. Ao contrário de países europeus como a Alemanha ou a Itália, a população irlandesa está aumentando. São sinais do otimismo que costuma acompanhar períodos de grande crescimento econômico. Percebe-se também uma mudança na mentalidade da população. Os irlandeses costumavam se retratar como vítimas da história e, principalmente, dos ingleses, que impuseram à força populações protestantes para dominar o irredentismo católico.

O bálsamo europeu, integrando os irlandeses a uma união entre iguais, amenizou séculos de ressentimento. "Agora que somos um país rico, as pessoas estão mais autoconfiantes e se sentem preparadas para sentir orgulho de seu passado e de sua herança cultural", disse a VEJA o economista Frank Barry, professor da Universidade de Dublin. Até a famosa ética protestante é vista, comparativamente, como desvantajosa por um povo que enaltece a vocação natural para passar horas nos pubs tomando cerveja escura e jogando conversa fora. Detalhe: só bebendo, pois a lei que proíbe fumar nos bares, surpreendentemente, está sendo cumprida, num sinal adicional de modernização do país. E, felizmente, a tradição literária se mantém. A última sensação do ramo é a jovem Cecelia Ahern. Filha do primeiro-ministro Bertie Ahern, ela estourou já no livro de estréia, PS, I Love You, sobre uma mulher que encontra cartas do marido morto. Não é assim nenhum Joyce, mas, diferentemente do grande gênio, que passou a vida apertado, contando tostões, Cecelia assinou um contrato de 1 milhão de dólares com uma editora, para ser lançada em 23 países. E ainda vendeu os direitos de filmagem por 100 000 dólares. Nada mau para uma garota de 22 anos.

 
 
 
 
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