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Irlanda
O milagre irlandês
A história do país que já
foi pobre e
hoje é o que mais cresce na Europa

Diogo Schelp
A pequena Irlanda sempre foi conhecida por
uma contradição: pobre em recursos, riquíssima
em escritores. As obras de autores geniais como Oscar Wilde, James
Joyce, Samuel Beckett, W. B. Yeats, Jonathan Swift costumavam refletir
isso, com diferentes tratamentos literários, mostrando o
conflito entre ideais elevados e a sórdida realidade de um
país miserável, convulsionado pelo choque de religiões,
dominado pelos ingleses e obrigado a buscar na emigração
a única saída para suas agruras. Na década
passada, os irlandeses eliminaram o que sobrava da realidade degradante
e ficaram apenas com os ideais elevados. No último relatório
da ONU sobre o índice de desenvolvimento humano (IDH), a
Irlanda fica entre os dez países com a melhor qualidade de
vida do planeta. É um resultado espantoso para um país
que apenas quinze anos atrás se classificava entre os três
mais pobres da Europa. O salto foi dado graças a um crescimento
econômico fenomenal média de 8% ao ano ao longo
de uma década , que conferiu à ilha o apelido
de "Tigre Celta". Ironia das ironias: pelo critério do PIB
per capita anual da população, os irlandeses já
são mais ricos que os ingleses, aos quais só deixaram
de prestar vassalagem em 1949 (o pedaço que não conseguiu
a independência e continuou criando problemas é a Irlanda
do Norte, ainda atrelada ao Reino Unido).
A virada celta começou com a entrada
do país na União Européia em 1973 (então
Comunidade Européia). Na condição de primo
pobre, tal como aconteceu com Espanha e Portugal, outros filhos
do milagre europeu, a Irlanda recebeu um grande volume de subsídios.
Foram 37 bilhões de dólares injetados ao longo de
três décadas na economia irlandesa pelos parceiros
europeus. Mesmo com esse choque de dinheiro, a Irlanda precisou
de outro empurrão para superar o atraso de uma economia praticamente
agrária. O instrumento foi uma política industrial
ambiciosa, que reduziu os impostos para as empresas e transformou
o sistema de ensino. Em poucos anos, as escolas irlandesas começaram
a formar um grande número de jovens qualificados para trabalhar
na indústria de alta tecnologia, especialmente de computação.
O nível de endividamento do Estado foi reduzido para menos
da metade. Atraídas pelos impostos baixos, pelo mercado europeu
próximo e aberto, pelas regras claras da política
de investimento e pela mão-de-obra de língua inglesa,
instruída e barata, multinacionais americanas correram para
instalar fábricas na Irlanda. Hoje, um terço dos investimentos
americanos na Europa concentra-se na ilha.
Irlanda e Estados Unidos têm fortes
laços culturais há 150 anos. Mais de 30 milhões
de americanos são descendentes de irlandeses, incluindo os
presidentes John Kennedy e Ronald Reagan. A maior onda migratória
aconteceu na metade do século XIX, quando uma praga nas plantações
de batata deu início aos anos da Grande Fome, que matou 1
milhão de pessoas e expeliu o dobro disso. Agora, pela primeira
vez na história recente da Irlanda, há mais pessoas
se mudando para lá do que saindo. O índice de natalidade
bate recorde atrás de recorde. Ao contrário de países
europeus como a Alemanha ou a Itália, a população
irlandesa está aumentando. São sinais do otimismo
que costuma acompanhar períodos de grande crescimento econômico.
Percebe-se também uma mudança na mentalidade da população.
Os irlandeses costumavam se retratar como vítimas da história
e, principalmente, dos ingleses, que impuseram à força
populações protestantes para dominar o irredentismo
católico.
O bálsamo europeu, integrando os irlandeses
a uma união entre iguais, amenizou séculos de ressentimento.
"Agora que somos um país rico, as pessoas estão mais
autoconfiantes e se sentem preparadas para sentir orgulho de seu
passado e de sua herança cultural", disse a VEJA o economista
Frank Barry, professor da Universidade de Dublin. Até a famosa
ética protestante é vista, comparativamente, como
desvantajosa por um povo que enaltece a vocação natural
para passar horas nos pubs tomando cerveja escura e jogando conversa
fora. Detalhe: só bebendo, pois a lei que proíbe fumar
nos bares, surpreendentemente, está sendo cumprida, num sinal
adicional de modernização do país. E, felizmente,
a tradição literária se mantém. A última
sensação do ramo é a jovem Cecelia Ahern. Filha
do primeiro-ministro Bertie Ahern, ela estourou já no livro
de estréia, PS, I Love You, sobre uma mulher que encontra
cartas do marido morto. Não é assim nenhum Joyce,
mas, diferentemente do grande gênio, que passou a vida apertado,
contando tostões, Cecelia assinou um contrato de 1 milhão
de dólares com uma editora, para ser lançada em 23
países. E ainda vendeu os direitos de filmagem por 100 000
dólares. Nada mau para uma garota de 22 anos.
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