Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Internacional
Todos lamentam o muro

A barreira que Sharon está construindo
para proteger o país do terror é inútil
para conter outro medo: uma maioria
árabe em Israel. Por isso ele quer atrair
imigrantes judeus de todo o mundo


Antonio Ribeiro, de Paris

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Em Profundidade: A Questão Palestina

A França e Israel se consideram países amigos, mas vivem às turras. A ocupação colonial e militar israelense nos territórios palestinos não desperta simpatia alguma do governo francês, cuja posição minimiza as circunstâncias atenuantes evocadas por Israel e provoca suspeita manifesta de ser pró-árabe. A recrudescência das agressões anti-semitas na França preocupa Israel. Só no primeiro semestre deste ano, o Ministério do Interior francês registrou 510 casos, contra 593 ocorridos durante todo o ano passado. Os esforços do governo francês para conter a onda de violência contra membros da comunidade judaica recebem das autoridades israelenses adjetivos que variam de "apáticos" a "insuficientes". Os franceses reprovam os israelenses pelo uso indiscriminado do termo "anti-semita", aplicado segundo o governo para desacreditar a diplomacia francesa.

 
AFP
Judeus franceses são saudados em Israel: esperança na imigração

O embaixador de Israel na ONU, Dan Gillerman, acusou recentemente a França de ser o pivô da resolução da Assembléia-Geral que condenou o muro erguido por Israel para separar o país da Cisjordânia. Salvo os Estados Unidos, aliados incondicionais de Israel, o voto foi unânime. Em visita à clausura imposta pelos israelenses ao presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, em Ramallah, o ministro francês das Relações Exteriores, Michel Barnier, manifestou de lá solidariedade aos palestinos e exortou Israel a romper o confinamento "indigno". Só conseguiu enfurecer os israelenses. O comando corrupto e nepotista do septuagenário líder palestino é contestado nas ruas até por militantes armados do seu partido. A França ainda considera Arafat um interlocutor válido.

O líder israelense Ariel Sharon piorou ainda mais as coisas quando exortou os judeus franceses a se mudar para Israel. Para o senador Robert Badinter, filho de judeus deportados, Sharon feriu os judeus franceses, ligados por uma "extraordinária aliança" com a república, que, por sua vez, fora "ultrajada". O ex-ministro da Justiça do governo Mitterrand, célebre por ter abolido a pena de morte no país da guilhotina e figura de reserva moral da nação nas erupções das polêmicas, também tomou as dores dos "5 milhões de muçulmanos franceses, estigmatizados como anti-semitas". No entanto, os 600.000 judeus franceses permanecem preocupados. Se antigamente eles eram vítimas dos skinheads simpatizantes da extrema direita xenófoba e racista, agora os autores das agressões são jovens de origem magrebina mal integrados à sociedade francesa que buscam no conflito israelo-palestino o carburante para mover seus atos violentos. As estatísticas mostram uma correlação entre o início da segunda intifada nos territórios palestinos com a retomada, na França, das injúrias, agressões físicas, explosões de bombas em sinagogas e escolas judaicas e da profanação de túmulos nos cemitérios judeus.

 
AFP
Ataque contra cemitérios judeus na França: cresce o anti-semitismo

A despeito do formidável poderio militar israelense, os judeus serão sempre minoritários no Oriente Médio. Às margens do Mar Mediterrâneo, cercado por vizinhos árabes, Israel assiste a sua população muçulmana crescer duas vezes mais rápido que os cidadãos de confissão judaica. A taxa de natalidade de 3,4% entre os árabes-israelenses em 2003 foi uma das maiores do mundo. Caso a tendência não se reverta, as projeções demográficas apontam para um Estado judaico de Israel habitado por uma maioria muçulmana. O governo israelense vê a perspectiva como uma bomba de efeito retardado a ser desativada. A doutora Milica Bookman demonstra em The Demographic Struggle for Power que o crescimento populacional de um grupo nas sociedades multiculturais aumenta seu poder político e legitima suas reivindicações. As grandes ondas migratórias dos judeus da ex-União Soviética e de países do Leste Europeu para Israel, que amorteciam o efeito, não existem mais. A Agência Judaica contabiliza um número decrescente de judeus imigrando e, embora seja um assunto tabu em Israel, muitos estão tomando o caminho de volta. Hoje, quando um vôo de imigrantes aterrissa em Tel-Aviv, o aeroporto se transforma em salão de festas e, no espaço de minutos, os recém-chegados em israelenses. Ariel Sharon, que muitas vezes vai pessoalmente recepcioná-los, quer levar para Israel 1 milhão de membros da diáspora judaica nos próximos dez anos. O segundo maior contingente de judeus do planeta fora de Israel vive num país amigo, a França.

 
 
 
 
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