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Venezuela
A tacada de Chávez
O presidente venezuelano modera
discurso e torra dinheiro do petróleo
para vencer plebiscito

José Eduardo Barella
AFP
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AP
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| Oposição em campanha
pelo "sim" (à esq.) e a loteria chavista
que premia quem raspar o "não": polarização
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O presidente da Venezuela, Hugo Chávez,
mudou de estratégia para vencer o plebiscito do próximo
domingo, 15, que vai decidir sobre sua permanência no Palácio
de Miraflores. Desde que assumiu o poder, em 1998, Chávez
deu ao populismo latino-americano sua versão mais ruinosa.
Nestes seis anos, ele sobreviveu a um golpe militar e a quatro greves
gerais, afastou-se dos empresários, rompeu com os sindicatos,
perseguiu a oposição e ainda comprou briga com os
Estados Unidos, os maiores importadores do petróleo venezuelano.
Há dois meses, quando a oposição conseguiu
reunir um número suficiente de assinaturas exigindo a convocação
de um referendo para abreviar seu mandato, Chávez passou
a moderar o tom do discurso. As bravatas e outras demonstrações
explícitas de intolerância do presidente venezuelano
foram deixadas de lado em nome de objetivos bem definidos. Chávez
quer agora parecer um governante moderado. O objetivo é atrair
o apoio dos eleitores indecisos. Batizados pelos venezuelanos de
"nem-nem" (nem Chávez nem oposição), os indecisos
somam 30% dos votos em disputa e as pesquisas mostram que
eles estão cansados da polarização que tomou
conta da cena política venezuelana. A oposição,
uma frente de partidos que só têm em comum o ódio
ao presidente, também moderou seu discurso para se apresentar
como uma alternativa confiável ao chavismo. Como o voto não
é obrigatório na Venezuela, atrair os indecisos é
vital para os dois lados.
AFP
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| Chávez ensina tacada de beisebol em
comício: versão paz e amor |
No plebiscito, os eleitores têm de responder à seguinte
pergunta: o presidente deve deixar o poder? As regras favorecem
Chávez. Além de obter maioria de votos pelo "sim",
a oposição precisa ultrapassar o mínimo de
3,8 milhões de votos obtidos por Chávez na última
eleição presidencial. A guinada dos dois lados para
o centro explica o fato de a campanha ter transcorrido sem incidentes
violentos até a semana passada. Mas o clima de tensão
continua no ar. A oposição acusa Chávez de
uma série de manobras para intimidar os venezuelanos. Mais
de 1,5 milhão de novos eleitores foram registrados nos últimos
dois meses, a maioria em redutos do governo. Além disso,
centenas de pessoas que aderiram ao abaixo-assinado perderam o emprego
em estatais ou tiveram contratos com o governo cancelados.
Chávez tem outros trunfos para permanecer
no poder entre eles o uso da máquina do governo a
seu favor. Toda cerimônia oficial do presidente termina com
um apaixonado discurso pelo "não". Chávez criou ainda
uma loteria instantânea inspirada no plebiscito que oferece
casa, carro ou dinheiro. A premiação é determinada
pelo número de vezes em que o "não" aparece no bilhete
raspado. O presidente desviou 1,1 bilhão de dólares
da PDVSA, a estatal do petróleo responsável pela maioria
das exportações do país, para projetos sociais
em redutos chavistas das periferias. "Essa gastança não
vai assegurar a vitória de Chávez, pois ele fracassou
nas duas questões que mais preocupam as camadas populares:
o desemprego e a criminalidade", disse a VEJA o cientista político
José Vicente Carrasquero, da Universidade Simón Bolívar.
Na reta final da campanha, poucos arriscam um palpite. As pesquisas
apontam equilíbrio, e o temor maior é por uma reação
violenta do lado perdedor. Na semana passada, a Polícia Federal
brasileira descobriu que um carregamento de armas apreendido em
julho tinha a Venezuela como destino. Chávez, porém,
poderá ter uma segunda chance em caso de derrota no referendo
pois a Constituição não impede que ele
se candidate novamente na eleição presidencial que
seria convocada em trinta dias. Com a oposição dividida
e sem um nome de consenso, Chávez dificilmente perderia nas
urnas.
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