Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Venezuela
A tacada de Chávez

O presidente venezuelano modera
discurso e torra dinheiro do petróleo
para vencer plebiscito


José Eduardo Barella


AFP
AP
Oposição em campanha pelo "sim" (à esq.) e a loteria chavista que premia quem raspar o "não": polarização

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, mudou de estratégia para vencer o plebiscito do próximo domingo, 15, que vai decidir sobre sua permanência no Palácio de Miraflores. Desde que assumiu o poder, em 1998, Chávez deu ao populismo latino-americano sua versão mais ruinosa. Nestes seis anos, ele sobreviveu a um golpe militar e a quatro greves gerais, afastou-se dos empresários, rompeu com os sindicatos, perseguiu a oposição e ainda comprou briga com os Estados Unidos, os maiores importadores do petróleo venezuelano. Há dois meses, quando a oposição conseguiu reunir um número suficiente de assinaturas exigindo a convocação de um referendo para abreviar seu mandato, Chávez passou a moderar o tom do discurso. As bravatas e outras demonstrações explícitas de intolerância do presidente venezuelano foram deixadas de lado em nome de objetivos bem definidos. Chávez quer agora parecer um governante moderado. O objetivo é atrair o apoio dos eleitores indecisos. Batizados pelos venezuelanos de "nem-nem" (nem Chávez nem oposição), os indecisos somam 30% dos votos em disputa – e as pesquisas mostram que eles estão cansados da polarização que tomou conta da cena política venezuelana. A oposição, uma frente de partidos que só têm em comum o ódio ao presidente, também moderou seu discurso para se apresentar como uma alternativa confiável ao chavismo. Como o voto não é obrigatório na Venezuela, atrair os indecisos é vital para os dois lados.


AFP
Chávez ensina tacada de beisebol em comício: versão paz e amor


No plebiscito, os eleitores têm de responder à seguinte pergunta: o presidente deve deixar o poder? As regras favorecem Chávez. Além de obter maioria de votos pelo "sim", a oposição precisa ultrapassar o mínimo de 3,8 milhões de votos obtidos por Chávez na última eleição presidencial. A guinada dos dois lados para o centro explica o fato de a campanha ter transcorrido sem incidentes violentos até a semana passada. Mas o clima de tensão continua no ar. A oposição acusa Chávez de uma série de manobras para intimidar os venezuelanos. Mais de 1,5 milhão de novos eleitores foram registrados nos últimos dois meses, a maioria em redutos do governo. Além disso, centenas de pessoas que aderiram ao abaixo-assinado perderam o emprego em estatais ou tiveram contratos com o governo cancelados.

Chávez tem outros trunfos para permanecer no poder – entre eles o uso da máquina do governo a seu favor. Toda cerimônia oficial do presidente termina com um apaixonado discurso pelo "não". Chávez criou ainda uma loteria instantânea inspirada no plebiscito que oferece casa, carro ou dinheiro. A premiação é determinada pelo número de vezes em que o "não" aparece no bilhete raspado. O presidente desviou 1,1 bilhão de dólares da PDVSA, a estatal do petróleo responsável pela maioria das exportações do país, para projetos sociais em redutos chavistas das periferias. "Essa gastança não vai assegurar a vitória de Chávez, pois ele fracassou nas duas questões que mais preocupam as camadas populares: o desemprego e a criminalidade", disse a VEJA o cientista político José Vicente Carrasquero, da Universidade Simón Bolívar. Na reta final da campanha, poucos arriscam um palpite. As pesquisas apontam equilíbrio, e o temor maior é por uma reação violenta do lado perdedor. Na semana passada, a Polícia Federal brasileira descobriu que um carregamento de armas apreendido em julho tinha a Venezuela como destino. Chávez, porém, poderá ter uma segunda chance em caso de derrota no referendo – pois a Constituição não impede que ele se candidate novamente na eleição presidencial que seria convocada em trinta dias. Com a oposição dividida e sem um nome de consenso, Chávez dificilmente perderia nas urnas.

 
 
 
 
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