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Internacional
O terrorismo da pobreza
O incêndio
no supermercado do Paraguai foi
um acidente. A cifra de quase 500 mortos não

Okky de Souza
Reuters
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| Vítimas da estupidez: portas foram lacradas
com o prédio já em chamas |
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O incêndio ocorrido no supermercado Ycuá Bolaños,
em Assunção, capital do Paraguai, no último
dia 1º, foi uma tragédia de duas faces. Na primeira
delas, contabiliza-se um número de vítimas impressionante
até sexta-feira passada, eram 448 mortos e 200 feridos,
cinqüenta deles em estado grave. A segunda face da tragédia
é que muitas dessas vidas poderiam ter sido salvas não
fosse uma combinação perversa de inépcia, prepotência
e irresponsabilidade. Segundo testemunhas, na hora em que o pânico
tomou conta dos clientes os seguranças do supermercado receberam
ordens superiores se do proprietário ou do gerente,
ainda não se apurou para trancar todas as portas a
fim de evitar que as pessoas saíssem com mercadorias sem
pagar. Por incrível que pareça, os guardas seguiram
à risca essas recomendações e, no momento em
que o fogo se alastrou, criou-se a armadilha fatal. Quem tentava
sair era ameaçado com escopetas, e, quando a multidão
conseguiu derrubar um dos seguranças, que guardava uma porta,
ele sacou de uma pistola, deu tiros para o ar e ameaçou:
"Querem morrer?". No fim da semana passada, as equipes de resgate
ainda tiravam corpos carbonizados dos escombros e dos carros no
estacionamento que também teve as saídas bloqueadas.
Tragédias,
causadas pelas forças da natureza ou pelo homem, acontecem
em todo lugar. Na maioria das vezes, nem há como prevê-las.
O incêndio paraguaio, no entanto, reforça um postulado
amargo que vale para todo o planeta. As fatalidades que se abatem
sobre os países menos desenvolvidos costumam produzir mais
vítimas do que aquelas que ocorrem nas nações
do Primeiro Mundo, pela falta de recursos para evitá-las,
ou pela falta de infra-estrutura para minorar suas conseqüências
ou simplesmente por aspectos culturais ignorância da
população ou descaso das autoridades. Vários
desses fatores se combinaram na tragédia de Assunção.
O incêndio foi causado por um acúmulo de gás
nos dutos da praça de alimentação do supermercado,
obstruídos por falta de manutenção adequada
(por sinal, a mesma origem da explosão que matou 42 pessoas
no Osasco Plaza Shopping, em São Paulo, há oito anos).
A negligência foi tanto dos administradores do negócio
quanto do poder público: o prefeito de Assunção,
Enrique Riera, reconheceu que o local nunca havia sido vistoriado
por suas equipes. Finalmente, houve a atitude criminosa do responsável
por mandar lacrar as portas já com parte do prédio
em chamas. Ele viu em seus clientes saqueadores em potencial, e
não pessoas em risco. Nos países da América
do Norte e da Europa, os supermercados, assim como todos os locais
públicos de grandes dimensões, mantêm uma profusão
de avisos indicando as rotas de fuga em caso de sinistros. Numa
emergência, a prioridade é salvar vidas prédio
e mercadorias serão preocupações das seguradoras.
O terrorismo
da pobreza, ou seja, a tendência dos grandes desastres de
ceifar mais vidas humanas nos países atrasados que nos ricos,
é uma realidade estatística. Em dezembro passado,
um terremoto de 6,7 graus na escala Richter matou mais de 40.000
pessoas no Irã e praticamente riscou do mapa a cidade de
Bam, repleta de construções frágeis e vulneráveis.
Apenas quatro dias antes, um tremor com a mesma intensidade atingiu
a Califórnia, também uma região com alta instabilidade
geológica, mas onde prédios, vias públicas
e pontes são construídos com normas de segurança
específicas contra terremotos. Saldo de mortos: duas pessoas.
Em 1997,
uma enchente causada por dias de chuva ininterrupta matou mais de
200 pessoas nas Filipinas, a maioria delas vitimada por deslizamentos
em encostas de morros. A reação do governo foi lamentar
o hábito da população de construir casas em
áreas de risco. Na Alemanha, em agosto de 2002, a pior enchente
dos últimos 150 anos no país matou dezesseis pessoas
e submergiu a cidade histórica de Dresden. Em poucas semanas,
o governo anunciou um ambicioso pacote de obras destinadas a desobstruir
as margens do Rio Elba em toda a sua extensão, para que a
tragédia nunca mais se repita.
No caso
do supermercado Ycuá Bolaños, cerca de 100 cadáveres
continuam sem identificação porque o país não
tem os recursos e os equipamentos necessários para a tarefa,
muito menos para realizar exames de DNA. No fim da semana passada,
uma equipe de legistas brasileiros, chilenos e espanhóis
viajou para Assunção para ajudar na tarefa de reconhecimento
dos corpos. Diante do desastre, a reação do prefeito
Riera foi correr atrás do prejuízo e tentar mostrar
serviço. "Estabelecemos um plano de contingência, junto
com os bombeiros, para vistoriar virtualmente todos os estabelecimentos
públicos de Assunção", ele declarou, tomado
de brios. Por maior que seja a boa vontade do prefeito, sabe-se
que a qualquer momento o Paraguai, como todos os países subdesenvolvidos,
está sujeito a outras fatalidades semelhantes, com baixas
humanas muito acima do razoável.
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