Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Internacional
O terrorismo da pobreza

O incêndio no supermercado do Paraguai foi
um acidente. A cifra de quase 500 mortos não


Okky de Souza


Reuters
Vítimas da estupidez: portas foram lacradas com o prédio já em chamas
NESTA REPORTAGEM
Quadro: Tragédias semelhantes, resultados diferentes


O incêndio ocorrido no supermercado Ycuá Bolaños, em Assunção, capital do Paraguai, no último dia 1º, foi uma tragédia de duas faces. Na primeira delas, contabiliza-se um número de vítimas impressionante – até sexta-feira passada, eram 448 mortos e 200 feridos, cinqüenta deles em estado grave. A segunda face da tragédia é que muitas dessas vidas poderiam ter sido salvas não fosse uma combinação perversa de inépcia, prepotência e irresponsabilidade. Segundo testemunhas, na hora em que o pânico tomou conta dos clientes os seguranças do supermercado receberam ordens superiores – se do proprietário ou do gerente, ainda não se apurou – para trancar todas as portas a fim de evitar que as pessoas saíssem com mercadorias sem pagar. Por incrível que pareça, os guardas seguiram à risca essas recomendações e, no momento em que o fogo se alastrou, criou-se a armadilha fatal. Quem tentava sair era ameaçado com escopetas, e, quando a multidão conseguiu derrubar um dos seguranças, que guardava uma porta, ele sacou de uma pistola, deu tiros para o ar e ameaçou: "Querem morrer?". No fim da semana passada, as equipes de resgate ainda tiravam corpos carbonizados dos escombros e dos carros no estacionamento – que também teve as saídas bloqueadas.

Tragédias, causadas pelas forças da natureza ou pelo homem, acontecem em todo lugar. Na maioria das vezes, nem há como prevê-las. O incêndio paraguaio, no entanto, reforça um postulado amargo que vale para todo o planeta. As fatalidades que se abatem sobre os países menos desenvolvidos costumam produzir mais vítimas do que aquelas que ocorrem nas nações do Primeiro Mundo, pela falta de recursos para evitá-las, ou pela falta de infra-estrutura para minorar suas conseqüências ou simplesmente por aspectos culturais – ignorância da população ou descaso das autoridades. Vários desses fatores se combinaram na tragédia de Assunção. O incêndio foi causado por um acúmulo de gás nos dutos da praça de alimentação do supermercado, obstruídos por falta de manutenção adequada (por sinal, a mesma origem da explosão que matou 42 pessoas no Osasco Plaza Shopping, em São Paulo, há oito anos). A negligência foi tanto dos administradores do negócio quanto do poder público: o prefeito de Assunção, Enrique Riera, reconheceu que o local nunca havia sido vistoriado por suas equipes. Finalmente, houve a atitude criminosa do responsável por mandar lacrar as portas já com parte do prédio em chamas. Ele viu em seus clientes saqueadores em potencial, e não pessoas em risco. Nos países da América do Norte e da Europa, os supermercados, assim como todos os locais públicos de grandes dimensões, mantêm uma profusão de avisos indicando as rotas de fuga em caso de sinistros. Numa emergência, a prioridade é salvar vidas – prédio e mercadorias serão preocupações das seguradoras.

O terrorismo da pobreza, ou seja, a tendência dos grandes desastres de ceifar mais vidas humanas nos países atrasados que nos ricos, é uma realidade estatística. Em dezembro passado, um terremoto de 6,7 graus na escala Richter matou mais de 40.000 pessoas no Irã e praticamente riscou do mapa a cidade de Bam, repleta de construções frágeis e vulneráveis. Apenas quatro dias antes, um tremor com a mesma intensidade atingiu a Califórnia, também uma região com alta instabilidade geológica, mas onde prédios, vias públicas e pontes são construídos com normas de segurança específicas contra terremotos. Saldo de mortos: duas pessoas.

Em 1997, uma enchente causada por dias de chuva ininterrupta matou mais de 200 pessoas nas Filipinas, a maioria delas vitimada por deslizamentos em encostas de morros. A reação do governo foi lamentar o hábito da população de construir casas em áreas de risco. Na Alemanha, em agosto de 2002, a pior enchente dos últimos 150 anos no país matou dezesseis pessoas e submergiu a cidade histórica de Dresden. Em poucas semanas, o governo anunciou um ambicioso pacote de obras destinadas a desobstruir as margens do Rio Elba em toda a sua extensão, para que a tragédia nunca mais se repita.

No caso do supermercado Ycuá Bolaños, cerca de 100 cadáveres continuam sem identificação porque o país não tem os recursos e os equipamentos necessários para a tarefa, muito menos para realizar exames de DNA. No fim da semana passada, uma equipe de legistas brasileiros, chilenos e espanhóis viajou para Assunção para ajudar na tarefa de reconhecimento dos corpos. Diante do desastre, a reação do prefeito Riera foi correr atrás do prejuízo e tentar mostrar serviço. "Estabelecemos um plano de contingência, junto com os bombeiros, para vistoriar virtualmente todos os estabelecimentos públicos de Assunção", ele declarou, tomado de brios. Por maior que seja a boa vontade do prefeito, sabe-se que a qualquer momento o Paraguai, como todos os países subdesenvolvidos, está sujeito a outras fatalidades semelhantes, com baixas humanas muito acima do razoável.

 

 
 
 
 
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