Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Sociedade
Em cartaz: o homem-objeto

Anúncios com rosto bonito, corpo
mais ainda e pouca roupa, todo
mundo conhece. Mas com rapazes?


Lizia Bydlowski

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Curiosamente, entre todos os animais o macho é a espécie mais vistosa e exibicionista – menos na espécie humana, na qual esse papel, para o bem ou para o mal, sempre coube à mulher. Mas entre os homens cresce a tentação de assumir o papel ornamental da espécie. A publicidade, vilã-mor da cruzada das feministas contra a exploração da mulher como objeto sexual, vem se dedicando nos últimos tempos a cultivar um novo ícone, o homem-objeto, aplicando ao gênero masculino as costumeiras características: rosto bonito, corpo mais ainda e pouquíssima roupa. A tradução mais natural dessa nova vertente publicitária são os anúncios de cuecas – cartazes de rapagões seminus em poses audaciosas que, em alguns países, praticamente saltam aos olhos de quem passa na rua ou toma o metrô. Nos Estados Unidos, onde são cada vez mais abundantes, mereceram na semana passada reportagem no The New York Times: por ocasião do Dia Nacional da Roupa de Baixo (sim, isso existe), 11 de agosto, a Macy's, a mais comportada entre as grandes lojas de departamentos, preencheu uma vitrine inteira com fotos de modelos exibindo vanguardas e retaguardas despudoradamente vistosas.

 
Embalagens chamativas de cuecas: a propaganda descobre a força de atração do homem seminu

O precursor foi Calvin Klein, o primeiro a expor em enormes cartazes em Times Square, ainda na década de 80, rapagões vestindo cueca e nada mais. De lá para cá, "os homens se feminilizaram e se adaptaram muitíssimo bem à sua transformação em objetos de apreciação erótica", diz a reportagem do jornal. E como. Na estação ferroviária Gare du Nord, em Paris, uma série de painéis da marca HOM exibe rapazes de costas, mostrando posteriores pouco ou pouquíssimo cobertos – inclusive um fio-dental, antes exclusividade de gays, mas cujo mercado está se ampliando, como atesta Dominique Raffalli, diretora internacional da marca: "Atuamos com os mesmos canais de comunicação que a lingerie feminina, como a fantasia e a sedução". Na França, a nudez masculina está ajudando a vender carros (um anúncio da Alfa Romeo mostra um homem nu sentado na pose do Pensador, de Rodin) e até lingerie feminina (um modelo belo e sexy segurando uma calcinha aparece sobre a frase "Para lembrar de mim"). Essas campanhas foram reprovadas pela Associação de Publicitários por uma Publicidade Responsável, entidade criada neste ano justamente como resultado das críticas suscitadas por uma campanha de lingerie feminina. Foram consideradas ousadas demais.

Reações à parte, os cartazes mostrando rapazes só de cueca estão, de fato, aumentando as vendas e a variedade do produto. Nos Estados Unidos, onde o mercado de roupas íntimas movimenta 13 bilhões de dólares por ano, as cuecas convencionais ainda ganham disparado na preferência masculina, mas novas e poderosas modelagens conquistam terreno. A 2(x)ist, que começou como marca gay e hoje é uma das mais usadas por jovens heterossexuais, vende 30 milhões de dólares por ano de roupa de baixo. Um passo adiante, a C-IN2 oferece cuecas de cintura extrabaixa, pernas bem cavadas e um dispositivo que, assegura, promove nos genitais efeito igual ao dos sutiãs "push-up" nos seios femininos – tudo com o objetivo de "elevar, projetar e melhorar o perfil do usuário". A Adam + Eve, criada há dois anos, vai ainda além: estampa em suas embalagens modelos sem cueca (sentadinhos, de perfil, bem-compostos). Indo na contramão da sua natureza, o Brasil, onde qualquer pretexto é bom para mostrar corpos pouco vestidos em propaganda, privilegia anúncios mais conservadores de cueca. O máximo a que a Mash, a mais ousada das marcas brasileiras, chegou foi estampar janelões de ônibus com rapazes seminus. Como as concorrentes, a Mash anuncia principalmente em revistas femininas, já que homem brasileiro não compra as próprias cuecas: 70% das compradoras são mulheres.

 
 
 
 
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