Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Medicina
Feito sob medida

Laboratório americano testa um
remédio para tratar especialmente
o coração de negros

Um dos grandes desafios da ciência farmacêutica é a criação de medicamentos sob medida para cada pessoa. O sinal de que esse futuro pode estar mais próximo do que se imagina foi disparado recentemente pelo laboratório americano NitroMed. Seus executivos anunciaram que está em teste o primeiro remédio fabricado especificamente para uma etnia. Trata-se do BiDil, indicado para o tratamento de negros vítimas de insuficiência cardíaca. O medicamento começou a ser analisado em maio de 2001 em cerca de 1 000 pacientes. A expectativa é que ele chegue ao mercado em 2005. O BiDil combina duas substâncias – o denitrato de isosorbida e a hidralazina. Juntas, elas aumentam a produção de óxido nítrico, um potente vasodilatador. Ao relaxar a parede das artérias coronárias, o remédio facilita o aporte de sangue para o coração. A insuficiência cardíaca é mais comum entre negros do que entre brancos, na proporção de dois para um. Uma das hipóteses mais aceitas é a de que, entre os negros, a produção de óxido nítrico é bem mais baixa – o que explica por que, em estudos clínicos, eles sempre responderam melhor aos remédios que de alguma forma incrementam a produção dessa substância pelo organismo.

Há muito tempo os médicos sabem que a etnia é um fator importante para a maior ou menor suscetibilidade a determinadas doenças e também a certos medicamentos. Essa constatação foi feita com base em observações no dia-a-dia do tratamento dos doentes. Nos últimos anos, com a criação de máquinas capazes de flagrar o organismo em pleno funcionamento e com os avanços nos conhecimentos da biologia molecular e da genética, tornou-se possível encontrar explicações para o fato. Trata-se de um passo importante rumo ao desenvolvimento de remédios mais precisos e de terapias mais eficazes. Um dos temas do Congresso Brasileiro de Infectologia, a ser realizado na próxima semana, é a diferença na incidência e no tratamento da hepatite C entre negros e brancos, em especial a terapia à base de interferon e ribavirina. A combinação de remédios estimula o sistema imunológico a combater a infecção pelo vírus da hepatite C. Um estudo da Universidade de Miami mostrou que, entre os brancos, a redução na carga viral promovida por esse tipo de medicamento foi de 50%. Já entre os negros, essa baixa foi de apenas 30%.

 

 

 
 
 
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