Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Eleições
Todos contra Marta

Debate entre candidatos à prefeitura
de São Paulo revela a estratégia dos
partidos e marqueteiros para um
primeiro turno apertado


Monica Weinberg e Cynara Menezes

 
Roberto Setton
Os candidatos Serra, Maluf e Marta (da esq. para a dir.), no debate mediado por Carlos Nascimento: prefeita "boazinha" e ex-ministro "simpático"

O debate entre os candidatos à prefeitura de São Paulo exibido pela TV Bandeirantes na quinta-feira passada deu a largada à campanha na televisão e serviu a outros dois propósitos: deixar claras as posições que José Serra, Marta Suplicy e Paulo Maluf – os principais concorrentes – irão assumir na corrida do primeiro turno; e mostrar o resultado dos esforços empreendidos nos últimos dias pelos marqueteiros, na tentativa de tornar seus candidatos mais palatáveis ao gosto do eleitor. A estratégia dos adversários da prefeita Marta Suplicy será bater duro em sua administração. Esse foi o caminho escolhido também pelo ex-prefeito Paulo Maluf, de quem se esperava que fosse concentrar a artilharia sobre José Serra, seu provável rival para a chegada ao segundo turno. O embate, mostrou ainda o encontro, girará principalmente em torno de realizações: quem fez mais à frente da prefeitura ou, no caso de Serra, no Ministério da Saúde. Durante as duas horas e meia do programa, não se ouviu uma única referência às denúncias de corrupção contra Maluf, por exemplo. A vida pessoal de Marta, atacada recentemente pelos tucanos no site oficial do partido, dessa vez foi praticamente ignorada.

O empenho dos marqueteiros em conferir aos candidatos a imagem de empreendedores tem uma explicação simples. Pesquisas mostram que o brasileiro escolhe um político baseado em três motivações principais: porque se identifica com suas idéias; porque enxerga nele o melhor opositor ao nome que lhe desagrada; ou porque acredita que a vitória de seu escolhido lhe trará benefícios, diretos ou indiretos. Segundo estudo coordenado pelo cientista político José Augusto Guilhon, da Universidade de São Paulo, 60% dos eleitores votam em função da terceira motivação, enquanto apenas 15% votam por identificação e 25% por não gostar do candidato adversário. Serra sai beneficiado pelo último critério, já que tem a menor taxa de rejeição entre os três principais: 7% – contra 47% de Maluf e 36% de Marta, segundo a última pesquisa Ibope. A contar pela colossal estrutura de sua campanha, a candidata do PT tem mais chance de minimizar o problema do que Maluf. Além de contar com mais carros, funcionários e outdoors (veja quadro na pág. ao lado) do que todos os outros candidatos, a petista colocou nas ruas um exército de 4.000 pessoas definido por um marqueteiro como "uma mistura de vendedores da Avon com pesquisadores do Ibope". Por um salário mensal de 500 reais, os "visitadores", como são chamados os contratados, vão à casa dos eleitores para distribuir formulários em que se pergunta o que, na opinião deles, falta à cidade. Dias depois, os visitados recebem carta informando o que a prefeitura está fazendo para resolver a reclamação. A estratégia já foi usada por Duda Mendonça em 1998, na campanha de Garibaldi Alves ao governo do Rio Grande do Norte.

 
Heudes Régis
Obra na Avenida Cidade Jardim, que Marta quer inaugurar até outubro: o trânsito ficou ruim para a prefeita brilhar na hora da foto

O marqueteiro de Marta, assim como o de Serra, tem motivos para ter saído satisfeito do debate de quinta-feira. Tanto a prefeita como o ex-ministro mostraram ter cumprido à risca o dever de casa. Marta, lembrada pelas recentes discussões em público com eleitores e jornalistas, não se alterou em nenhum momento. Substituiu a voz aguda por uma quase melíflua e sorriu, complacente, até mesmo quando Maluf provocou: "Não fique chateada, Marta, mas São Paulo não agüenta você por mais quatro anos". Serra, por sua vez, esforçou-se quanto pôde para amenizar a imagem sisuda e evitou ataques pessoais à adversária. Nas considerações finais, porém, não se conteve: "Um prefeito tem de ser um exemplo para os seus governados, do ponto de vista administrativo e também pessoal", disse. Quase ninguém o ouviu: como o candidato havia esgotado seu tempo, o microfone, a essa altura, já estava desligado.

A partir do dia 17, a campanha televisiva terá novo round, com o início da propaganda eleitoral gratuita. Duda Mendonça já colocou seu time em campo para arregimentar depoimentos em louvor à prefeita, destinados a convencer o eleitor de que, se ela parece arrogante em público, na intimidade pode ser até simpática. O ex-marido, o senador Eduardo Suplicy, contribuiu para a empreitada com um depoimento de três horas de gravação. Serra, sobre quem pesa o estigma de pessimista e reclamão, também virá embalado para presente: em vez de surgir queixoso no vídeo, deixará as críticas a cargo de eleitores que, em entrevistas nas ruas, reclamam da atual administração. Por enquanto, o candidato resiste à idéia, defendida por seus assessores, de exibir sua família no programa eleitoral. Aceitou apenas incluir ex-colegas dos tempos de colégio. Em compensação, contará com uma forcinha de dois pesos-pesados do tucanato – além do governador Geraldo Alckmin, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, cujo apoio até agora estava restrito aos bastidores, já acertou sua participação no programa.

 

Como votam em São Paulo e Rio

O eleitor paulistano sabe distinguir os diferentes partidos políticos e é fiel à sigla de sua preferência. A conclusão é do Centro de Estudos da Metrópole do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Com base em levantamento estatístico urna a urna realizado nas dez últimas eleições em São Paulo, o instituto avaliou o comportamento do eleitorado na cidade e mapeou os redutos eleitorais de cada partido. O resultado contraria a crença de que, no Brasil, o cenário eleitoral carece de tradição partidária e é dominado por uma profusão de siglas sem significado para quem vota. "A pesquisa mostra que o eleitor se identifica com os partidos e vota com coerência", diz a cientista política Argelina Figueiredo, coordenadora do estudo. Segundo ela, os três principais partidos de São Paulo (PT, PSDB e PP) tiveram, em todas as dez últimas eleições – sem exceção e independentemente de quem era o candidato –, votações acima de sua própria média nas mesmas regiões da cidade. O levantamento mostrou que os eleitores do PSDB são os que exibem renda familiar mais elevada e a mais alta taxa de escolaridade (11,1 anos de estudo, contra 7,9 do PP e 6,2 do PT). Entre os eleitores do PT está a maior porcentagem de desempregados: 22%.

No Rio de Janeiro, a situação é semelhante, com a diferença de que, para os cariocas, na hora de votar importa menos o partido do que a corrente ideológica que o candidato representa. Estudo feito pelo cientista político Antônio Carlos Alkimin, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), examinou dez eleições para cargos executivos na cidade e concluiu que, desde 1992, as duas principais correntes políticas da cidade – a conservadora de Cesar Maia e a populista que era de Brizola e hoje está representada por Anthony Garotinho – tiveram concentração de votos nas mesmas regiões. Em São Paulo, o único candidato que hoje representa uma corrente desatrelada de partidos é Paulo Maluf. Para o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília, o ex-prefeito, que mudou quatro vezes de partido antes de aterrissar no PP, é o mais forte remanescente do populismo conservador praticado, no passado, por políticos como Carlos Lacerda e Jânio Quadros. "Como herdeiro direto de Jânio, ele sobrevive porque consegue catalisar os anseios do eleitorado conservador, simpático a idéias como pena de morte e aumento do poder da polícia."

 

Monica Weinberg

 

 

 

 
 
 
topovoltar