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Eleições
Todos contra Marta
Debate entre candidatos à prefeitura
de São Paulo revela a estratégia dos
partidos e marqueteiros para um
primeiro turno apertado

Monica Weinberg e Cynara Menezes
Roberto Setton
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| Os candidatos Serra, Maluf e Marta (da
esq. para a dir.), no debate mediado por Carlos Nascimento:
prefeita "boazinha" e ex-ministro "simpático" |
O debate entre os candidatos
à prefeitura de São Paulo exibido pela TV Bandeirantes
na quinta-feira passada deu a largada à campanha na televisão
e serviu a outros dois propósitos: deixar claras as posições
que José Serra, Marta Suplicy e Paulo Maluf os principais
concorrentes irão assumir na corrida do primeiro turno;
e mostrar o resultado dos esforços empreendidos nos últimos
dias pelos marqueteiros, na tentativa de tornar seus candidatos
mais palatáveis ao gosto do eleitor. A estratégia
dos adversários da prefeita Marta Suplicy será bater
duro em sua administração. Esse foi o caminho escolhido
também pelo ex-prefeito Paulo Maluf, de quem se esperava
que fosse concentrar a artilharia sobre José Serra, seu provável
rival para a chegada ao segundo turno. O embate, mostrou ainda o
encontro, girará principalmente em torno de realizações:
quem fez mais à frente da prefeitura ou, no caso de Serra,
no Ministério da Saúde. Durante as duas horas e meia
do programa, não se ouviu uma única referência
às denúncias de corrupção contra Maluf,
por exemplo. A vida pessoal de Marta, atacada recentemente pelos
tucanos no site oficial do partido, dessa vez foi praticamente ignorada.
O empenho dos marqueteiros em conferir aos
candidatos a imagem de empreendedores tem uma explicação
simples. Pesquisas mostram que o brasileiro escolhe um político
baseado em três motivações principais: porque
se identifica com suas idéias; porque enxerga nele o melhor
opositor ao nome que lhe desagrada; ou porque acredita que a vitória
de seu escolhido lhe trará benefícios, diretos ou
indiretos. Segundo estudo coordenado pelo cientista político
José Augusto Guilhon, da Universidade de São Paulo,
60% dos eleitores votam em função da terceira motivação,
enquanto apenas 15% votam por identificação e 25%
por não gostar do candidato adversário. Serra sai
beneficiado pelo último critério, já que tem
a menor taxa de rejeição entre os três principais:
7% contra 47% de Maluf e 36% de Marta, segundo a última
pesquisa Ibope. A contar pela colossal estrutura de sua campanha,
a candidata do PT tem mais chance de minimizar o problema do que
Maluf. Além de contar com mais carros, funcionários
e outdoors (veja quadro na pág. ao lado) do que todos
os outros candidatos, a petista colocou nas ruas um exército
de 4.000 pessoas definido por um marqueteiro
como "uma mistura de vendedores da Avon com pesquisadores do Ibope".
Por um salário mensal de 500 reais, os "visitadores", como
são chamados os contratados, vão à casa dos
eleitores para distribuir formulários em que se pergunta
o que, na opinião deles, falta à cidade. Dias depois,
os visitados recebem carta informando o que a prefeitura está
fazendo para resolver a reclamação. A estratégia
já foi usada por Duda Mendonça em 1998, na campanha
de Garibaldi Alves ao governo do Rio Grande do Norte.
Heudes Régis
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| Obra na Avenida Cidade Jardim, que Marta quer
inaugurar até outubro: o trânsito ficou ruim para a prefeita
brilhar na hora da foto |
O marqueteiro de Marta, assim como o de Serra,
tem motivos para ter saído satisfeito do debate de quinta-feira.
Tanto a prefeita como o ex-ministro mostraram ter cumprido à
risca o dever de casa. Marta, lembrada pelas recentes discussões
em público com eleitores e jornalistas, não se alterou
em nenhum momento. Substituiu a voz aguda por uma quase melíflua
e sorriu, complacente, até mesmo quando Maluf provocou: "Não
fique chateada, Marta, mas São Paulo não agüenta
você por mais quatro anos". Serra, por sua vez, esforçou-se
quanto pôde para amenizar a imagem sisuda e evitou ataques
pessoais à adversária. Nas considerações
finais, porém, não se conteve: "Um prefeito tem de
ser um exemplo para os seus governados, do ponto de vista administrativo
e também pessoal", disse. Quase ninguém o ouviu: como
o candidato havia esgotado seu tempo, o microfone, a essa altura,
já estava desligado.
A partir do dia 17, a campanha televisiva
terá novo round, com o início da propaganda eleitoral
gratuita. Duda Mendonça já colocou seu time em campo
para arregimentar depoimentos em louvor à prefeita, destinados
a convencer o eleitor de que, se ela parece arrogante em público,
na intimidade pode ser até simpática. O ex-marido,
o senador Eduardo Suplicy, contribuiu para a empreitada com um depoimento
de três horas de gravação. Serra, sobre quem
pesa o estigma de pessimista e reclamão, também virá
embalado para presente: em vez de surgir queixoso no vídeo,
deixará as críticas a cargo de eleitores que, em entrevistas
nas ruas, reclamam da atual administração. Por enquanto,
o candidato resiste à idéia, defendida por seus assessores,
de exibir sua família no programa eleitoral. Aceitou apenas
incluir ex-colegas dos tempos de colégio. Em compensação,
contará com uma forcinha de dois pesos-pesados do tucanato
além do governador Geraldo Alckmin, o ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso, cujo apoio até agora estava restrito
aos bastidores, já acertou sua participação
no programa.
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Como votam em São Paulo e
Rio
O eleitor paulistano sabe distinguir
os diferentes partidos políticos e é fiel
à sigla de sua preferência. A conclusão
é do Centro de Estudos da Metrópole do
Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).
Com base em levantamento estatístico urna a urna
realizado nas dez últimas eleições
em São Paulo, o instituto avaliou o comportamento
do eleitorado na cidade e mapeou os redutos eleitorais
de cada partido. O resultado contraria a crença
de que, no Brasil, o cenário eleitoral carece
de tradição partidária e é
dominado por uma profusão de siglas sem significado
para quem vota. "A pesquisa mostra que o eleitor se
identifica com os partidos e vota com coerência",
diz a cientista política Argelina Figueiredo,
coordenadora do estudo. Segundo ela, os três principais
partidos de São Paulo (PT, PSDB e PP) tiveram,
em todas as dez últimas eleições
sem exceção e independentemente
de quem era o candidato , votações
acima de sua própria média nas mesmas
regiões da cidade. O levantamento mostrou que
os eleitores do PSDB são os que exibem renda
familiar mais elevada e a mais alta taxa de escolaridade
(11,1 anos de estudo, contra 7,9 do PP e 6,2 do PT).
Entre os eleitores do PT está a maior porcentagem
de desempregados: 22%.
No Rio de Janeiro, a situação
é semelhante, com a diferença de que,
para os cariocas, na hora de votar importa menos o partido
do que a corrente ideológica que o candidato
representa. Estudo feito pelo cientista político
Antônio Carlos Alkimin, do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE), examinou dez
eleições para cargos executivos na cidade
e concluiu que, desde 1992, as duas principais correntes
políticas da cidade a conservadora de
Cesar Maia e a populista que era de Brizola e hoje está
representada por Anthony Garotinho tiveram concentração
de votos nas mesmas regiões. Em São Paulo,
o único candidato que hoje representa uma corrente
desatrelada de partidos é Paulo Maluf. Para o
cientista político David Fleischer, da Universidade
de Brasília, o ex-prefeito, que mudou quatro
vezes de partido antes de aterrissar no PP, é
o mais forte remanescente do populismo conservador praticado,
no passado, por políticos como Carlos Lacerda
e Jânio Quadros. "Como herdeiro direto de Jânio,
ele sobrevive porque consegue catalisar os anseios do
eleitorado conservador, simpático a idéias
como pena de morte e aumento do poder da polícia."
Monica Weinberg
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