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Carta ao leitor
Promoção a povo
Dida Sampaio/AE
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| Meirelles: imagem atingida |
O uso de denúncias para armar ciladas
contra ocupantes de altos cargos públicos é um dos
mais resistentes ardis da vida política em todos os tempos
e lugares. Os integrantes do PT, partido que detém o poder
federal no Brasil, foram, na oposição, autênticos
mestres nessa arte. O PT no governo tem sido vítima do mesmo
carbúnculo que ajudou a inflar no seu passado oposicionista.
Há algumas semanas, dois integrantes do escalão superior
do governo estão sob fogos de denúncias originadas
de uma CPI em curso no Congresso Nacional. Munidos de poderes especiais
de investigação, os integrantes da CPI tiveram acesso
à movimentação de contas de Henrique Meirelles,
presidente do Banco Central, e de Cássio Casseb, presidente
do Banco do Brasil. Esses documentos chegaram às mãos
de repórteres um deles de VEJA e ganharam enorme publicidade
por retratar condutas pregressas potencialmente incompatíveis
com o exercício dos cargos atualmente ocupados por Casseb
e Meirelles.
Em um mundo ideal, esses documentos sofreriam
um exame imparcial, técnico, longe da vista da imprensa,
e seriam imprestáveis, portanto, para o aproveitamento político
de um ou outro interesse. Não tem sido assim no Brasil. Não
é assim em muitos outros países. É utópico
imaginar que daqui para a frente se possa evitar o vazamento, quase
sempre ilegal, desse tipo de informação. Uma reportagem
desta edição de VEJA mostra que uma atitude mais realista
é aceitar que denúncias contra servidores públicos,
justas ou injustas, são praticamente inevitáveis nas
sociedades abertas.
Quanto mais avançada uma sociedade,
mais frágil é a sustentação de uma autoridade
envolvida em suspeitas. A razão disso vem de um fato pouco
lembrado: cercados de cortesias, áulicos e muitas vezes,
com razão, orgulhosos de seus feitos, os poderosos se esquecem
de que, não importa o cargo que ocupem, eles são servidores
públicos. Entre os inúmeros títulos que possui
Sucessor de Pedro, Vigário de Cristo e Bispo de Roma , o
papa carrega outro emblemático, o de Servo dos Servos de
Deus. Benjamin Franklin (1706-1790), patriota e inventor americano,
dizia que deixar um alto cargo público é, no fundo,
uma promoção para quem sai, pois, em uma democracia,
"voltar ao povo é deixar de ser servidor para ser patrão".
Portanto, quando as denúncias que atingem um servidor começam
a dificultar sua missão, mesmo sem que haja culpa formada,
não é de se assustar quando ele aceita sua promoção
a povo.
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