Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Carta ao leitor
Promoção a povo


Dida Sampaio/AE
Meirelles: imagem atingida

O uso de denúncias para armar ciladas contra ocupantes de altos cargos públicos é um dos mais resistentes ardis da vida política em todos os tempos e lugares. Os integrantes do PT, partido que detém o poder federal no Brasil, foram, na oposição, autênticos mestres nessa arte. O PT no governo tem sido vítima do mesmo carbúnculo que ajudou a inflar no seu passado oposicionista. Há algumas semanas, dois integrantes do escalão superior do governo estão sob fogos de denúncias originadas de uma CPI em curso no Congresso Nacional. Munidos de poderes especiais de investigação, os integrantes da CPI tiveram acesso à movimentação de contas de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, e de Cássio Casseb, presidente do Banco do Brasil. Esses documentos chegaram às mãos de repórteres um deles de VEJA e ganharam enorme publicidade por retratar condutas pregressas potencialmente incompatíveis com o exercício dos cargos atualmente ocupados por Casseb e Meirelles.

Em um mundo ideal, esses documentos sofreriam um exame imparcial, técnico, longe da vista da imprensa, e seriam imprestáveis, portanto, para o aproveitamento político de um ou outro interesse. Não tem sido assim no Brasil. Não é assim em muitos outros países. É utópico imaginar que daqui para a frente se possa evitar o vazamento, quase sempre ilegal, desse tipo de informação. Uma reportagem desta edição de VEJA mostra que uma atitude mais realista é aceitar que denúncias contra servidores públicos, justas ou injustas, são praticamente inevitáveis nas sociedades abertas.

Quanto mais avançada uma sociedade, mais frágil é a sustentação de uma autoridade envolvida em suspeitas. A razão disso vem de um fato pouco lembrado: cercados de cortesias, áulicos e muitas vezes, com razão, orgulhosos de seus feitos, os poderosos se esquecem de que, não importa o cargo que ocupem, eles são servidores públicos. Entre os inúmeros títulos que possui Sucessor de Pedro, Vigário de Cristo e Bispo de Roma , o papa carrega outro emblemático, o de Servo dos Servos de Deus. Benjamin Franklin (1706-1790), patriota e inventor americano, dizia que deixar um alto cargo público é, no fundo, uma promoção para quem sai, pois, em uma democracia, "voltar ao povo é deixar de ser servidor para ser patrão". Portanto, quando as denúncias que atingem um servidor começam a dificultar sua missão, mesmo sem que haja culpa formada, não é de se assustar quando ele aceita sua promoção a povo.

 
 
 
 
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