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Diplomacia Discretos e suavesVisita sem pirotecnia do casal imperial
Izalco Sardenbergca Dois mundos diferentes, quase opostos, mas com muita coisa em comum, cruzaram-se no Brasil na semana passada. De um lado, o imperador Akihito e a imperatriz Michiko, em sua primeira visita oficial ao país como ocupante do Trono de Crisântemo, cuja linha de sucessão remonta a mais de 2.000 anos. De outro, a República jovem e informal, que despachou seu último rei para o exílio um século atrás. O fio afetivo que liga esses dois países de culturas tão díspares é uma corrente migratória de mão dupla. Vive no Brasil 1,3 milhão de nikkeis, como são chamados em japonês os imigrantes nipônicos e seus descendentes. No Japão estão 200.000 brasileiros, quase todos nikkeis, que refizeram a rota de seus ancestrais em busca de salários em moeda forte. Akihito se dispôs a percorrer o Brasil de norte a sul para reafirmar que há alguma coisa especial entre os dois países, além de retribuir a visita de Fernando Henrique Cardoso a Tóquio, no ano passado. Na noite de quinta-feira, a seu próprio pedido, o imperador assistiu ao primeiro tempo de Corinthians e São Paulo, o jogo que decidiu o campeonato paulista no Estádio do Morumbi, em São Paulo. Foi, com certeza, o momento mais barulhento de sua primeira semana no Brasil. No restante do tempo, apesar de o país abrigar a maior colônia japonesa (a segunda está nos Estados Unidos e a terceira no Peru), as visitas de Akihito atraíram público escasso. Em Brasília, meia dúzia de gatos-pingados foram ver Fernando Henrique e Akihito no Parlatório ao lado do Palácio do Planalto. No dia seguinte, a foto que registrava o acontecimento nos jornais era a de um soldado da guarda de honra que desmaiou depois de percorrer com passos vacilantes a rampa do palácio. De modo geral, a estadia do imperador e da imperatriz no Brasil foi discreta -- e às vezes monótona.
Sorridente, de modos suaves e com aquele gesto tão japonês (o inclinar-se em sinal de respeito, com os braços ao longo do corpo) sempre engatilhado, o casal cruzou o país encarando estoicamente uma agenda carregadíssima. Além do jogo no qual o Corinthians se sagrou campeão, o périplo teve passeio de barco no Rio Amazonas e uma overdose de aves silvestres nos cardápios oficiais. No banquete que o presidente ofereceu ao imperador em Brasília, serviu-se codorna. No almoço do Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, comeu-se perdiz. Lanche e boné - Conversas sobre política e economia, nem pensar. Problemas com os dekasseguis, como são conhecidos os descendentes de japoneses que fazem seu pé-de-meia no Japão, e que remetem anualmente ao Brasil cerca de 2 bilhões de dólares, também não foram discutidos. A Constituição que os americanos impuseram ao Japão no final da II Guerra determina que o imperador é o chefe de Estado e que suas funções são estritamente protocolares. O objetivo principal da kooshitsu gaikou, ou a "diplomacia da família imperial", é aprofundar os laços de amizade. "Pelo menos vai falar-se bastante do Brasil no Japão", disse a VEJA uma fonte do Ministério das Relações Exteriores japonês em Tóquio. De fato, um batalhão de cinqüenta jornalistas japoneses acompanha a viagem do casal imperial, que depois do Brasil ainda visitará a Argentina. Mesmo em São Paulo, sempre o ponto alto da visita de membros da família real nipônica, por se tratar do local onde reside a maioria esmagadora dos nikkeis, a comitiva imperial teve uma recepção morna. Quando era príncipe herdeiro, Akihito veio ao Brasil em duas ocasiões, 1967 e 1978, e foi recebido com festas maiores. Em 1978, cerca de 70.000 nikkeis o aplaudiram no Estádio do Pacaembu. Desta vez, os organizadores da visita penaram para reunir 12.000 pessoas no Ginásio do Ibirapuera, na quinta-feira, para a cerimônia de boas-vindas a Akihito e Michiko. Em sua maioria idosos e aposentados, os nikkeis ganharam transporte gratuito, um lanche, boné e bandeirolas japonesas.
Os organizadores atribuíram o modesto comparecimento ao dia normal de trabalho. Pode até ser, mas há outra explicação mais consistente. A atual comunidade nipo-brasileira, majoritariamente formada por jovens, está cada vez mais integrada ao Brasil em termos sociais e culturais, e mais afastada das tradições japonesas. Essa gente, que fala e entende menos japonês do que seus pais e avós, está menos propensa a se interessar pelos representantes da coroa japonesa. "Até agora eu nunca tinha ouvido falar desse imperador", admitiu o estudante da 7ª série Eduardo Kando, 13 anos, neto de um imigrante, sentado na parte mais alta da arquibancada do Ginásio do Ibirapuera. A integração dos descendentes de japoneses pode ser medida pelo aumento avassalador dos casamentos fora da comunidade, segundo atesta um levantamento sobre os nikkeis no Brasil, feito em 1988 pelo Centro de Estudos Nipo-Brasileiros, de São Paulo. Se entre os nisseis, como é chamada a segunda geração, apenas 6% casavam-se com não descendentes de japoneses, entre os sanseis, a terceira geração, a porcentagem saltou para 42%. Na geração seguinte, a dos ionseis, já passou dos 60%. Considerando que a imigração acabou, não é apenas a cultura nipônica que corre o risco de desaparecer, mas os próprios traços fisionômicos orientais. "A integração é acompanhada da perda dos vínculos culturais com o Japão", confirma a cineasta sansei Tizuka Yamasaki, autora de Gaijin -- os Caminhos da Liberdade. Para quem chegou há menos de 100 anos ao Brasil e teve um processo de aculturação relativamente lento, se comparado com outros grupos de imigrantes, os japoneses até que se saíram muito bem. Eles representam menos de 1% da população brasileira, mas seus sobrenomes estão registrados em quase todos os segmentos da sociedade. De modo geral, os nikkeis estão em melhor situação econômica do que a média da população brasileira, exibem ótimo grau de escolaridade e se destacam sobretudo em profissões liberais ou em postos administrativos. A preocupação dos imigrantes em assegurar a educação de seus filhos, um traço cultural japonês, deu bons resultados. Os nikkeis abocanharam 14% das 8.000 vagas disponíveis no vestibular da Fuvest em 1996. Atualmente, 15% dos alunos da Universidade de São Paulo e 10% de seu corpo docente descendem de japoneses. A perda da herança cultural, contudo, nunca é total. "Estudei em colégio de padres e praticamente não tenho clientes nikkeis em meu escritório", diz o nissei Ruy Ohtake, um dos mais celebrados arquitetos brasileiros. "Mas cada vez que vou para a prancheta há uma influência japonesa, provavelmente genética, em meu traço."
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