Nascido em uma aldeia
judaica próxima a Varsóvia, na Polônia,
em 1929, Samuel Rawet tinha 7 anos quando imigrou com a família
para o Brasil. Passou a infância nos arrabaldes do Rio
de Janeiro, um cenário pobre e tropical muito diverso
da paisagem que ele conhecera na primeira infância. Rawet
parecia condenado à inadequação, à
vida nas margens e periferias. Embora tenha se naturalizado
brasileiro em 1936 e seguido uma proveitosa carreira como engenheiro
integrante da equipe de Oscar Niemeyer na construção
de Brasília, foi responsável pelos cálculos
de concreto armado do Congresso Nacional , morreu sozinho
em sua casa, em Sobradinho, cidade-satélite de Brasília,
em 1984. Em grande parte publicada em edições
pagas do próprio bolso, a obra de Rawet uma estranha
e extraordinária coleção de contos e ensaios
ainda ocupa uma posição marginal na literatura
brasileira. Por muito tempo, ele foi um autor cultuado por pequenos
círculos de conhecedores que escavavam sebos à
procura de títulos como Contos do Imigrante e
O Terreno de Uma Polegada Quadrada. Essa situação,
felizmente, está mudando. A ficção de Rawet
ganhou uma edição digna em 2004, com Contos
e Novelas Reunidos, pela Civilização Brasileira.
E agora a mesma editora está lançando Ensaios
Reunidos (254 páginas; 40 reais), livro que permite
uma perspectiva mais aprofundada do exílio existencial
que o autor parece ter cultivado.
O
leitor que está chegando agora à obra de Rawet
fará melhor lendo primeiro os seus contos. Mais acessível
e mais bem realizada do que a obra ensaística, a ficção
de Rawet parece uma combinação impossível:
o encontro do subúrbio carioca de Lima Barreto (escritor
que ele admirava) com o shtetl (aldeia judaica) de Isaac
Bashevis Singer (como Rawet, um judeu polonês que se exilou
no Novo Mundo). A junção desses dois universos,
porém, nunca é pacífica. Os contos narram
experiências de choque e desentendimento em A
Prece, por exemplo, a velha judia que reza por seus mortos
causa estranhamento entre os vizinhos, que invadem a sala de
sua casa para verificar que estranho ritual é aquele.
Os ensaios também apontam o estrangeirismo fundamental
de Rawet, e o fazem de modo mais pessoal (por exemplo, nas confissões
íntimas de Homossexualismo: Sexualidade e Valor),
ainda que com menos arte (em muitos trechos, os ensaios abusam
de um jargão filosófico existencialista que ficou
datado). Especialmente perturbador é o texto que leva
o pitoresco título de Kafka e a Mineralidade Judaica
ou a Tonga da Mironga do Kabuletê. Há muito
pouco sobre Kafka ali (assim como nada de específico
é dito sobre Carlos Drummond de Andrade em Drummond:
o Ato Poético). O texto é um raivoso (e em
verdade impraticável) rompimento com a condição
judaica. "Não sou anti-semita, sou antijudeu",
diz Rawet, em uma distinção cujo sentido não
é claro. Rawet seria tachado, sim, de anti-semita por
causa dessas posições esquisitas. No entanto,
ele foi o primeiro escritor a incluir uma voz judaica expressiva
na literatura brasileira. A pátria de Rawet foi o mal-entendido.
Filósofo
do mundo cão
"Vibro com o
grito do vendedor de jornais. A camisa larga, solta, aberta,
entra no café, ultrapassa a seção
de frutas, biscoitos e cigarros, e junto às mesas
lança sua pregação: um macaco serviu
de parteira, uma velha trucidou a enteada por ciúmes,
um fuzileiro deu machadadas no seu protegido em uma hospedaria
da Lapa, um cantor famoso envolvido num escândalo
de drogas e tráfico sexual ilícito. Porque
há o lícito. Guardo o nome do vendedor de
jornais: Elias Gomes. É bem mais importante do
que muita besta erudita. É mais importante que
qualquer filósofo."
Trecho do
ensaio Homossexualismo: Sexualidade e Valor