O
que diferencia um estilista de sucesso de um gênio da costura é uma
substância intangível com nome de perfume: o espírito do tempo.
Foi por captar exatamente o momento em que as filhas deixaram de querer se vestir
como as mães e as mães passaram a querer se vestir como as filhas
que Yves Saint Laurent se tornou o maior nome da moda depois da era dos grandes
(Chanel, Dior, Balenciaga). Os tempos começaram a mudar nos anos 60, e
durante praticamente duas décadas Saint Laurent se tornou seu grande intérprete
nas passarelas. Por causa dessa sintonia, o que ele fez em matéria de moda
retrata não apenas como as roupas, mas como as pessoas, mudaram. Um rápido
resumo: jaqueta de couro usada com suéter preto de gola rulê (o existencialismo);
túnicas de inspiração indiana, colares africanos, casacos
afegãos e saias de camponesa russa (o flower power); o estilo safári
(uma loucura explicada pela nova era); o smoking feminino (o movimento de libertação
das mulheres).
Saint Laurent virou sigla,
YSL, e correspondeu em todos os angustiados detalhes ao protótipo do costureiro
brilhante e temperamental. Enamorado de uma imagem ideal do eterno feminino, doente,
deprimido e muitas vezes drogado, o jovem nascido na Argélia colonial deveu
muito de sua sobrevivência à parceria, na vida e nos negócios,
com Pierre Bergé, a quem conheceu aos 20 anos. Mesmo quando o relacionamento
terminou, continuaram a trabalhar e por muitos anos a morar juntos.
Ganharam e torraram rios de dinheiro. Desgastada pelo excesso de produtos licenciados
e pelo ímpeto criativo havia muito exaurido, a marca foi mudando de mãos.
Em 2000, quando o grupo Gucci de grifes de luxo assumiu a divisão de prêt-à-porter,
entregando-a ao americano Tom Ford, Saint Laurent destilou: "Coitadinho,
ele faz o que pode". Em 2002, fechou a casa de alta-costura. No ano passado,
foi detectado o tumor cerebral que o matou no domingo, 1º, aos 71 anos."Uma boa roupa é um passaporte para a felicidade", dizia.