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Demografia Como ocorre em países
ricos, muitos casais
À primeira vista, a pedagoga Cristiane Ferreira, paulistana de 32 anos, parece ter seguido o caminho estabelecido pela geração de seus pais concluiu o curso universitário, arranjou um bom emprego e casou-se com o namorado da adolescência. A semelhança entre as histórias, porém, só vai até essa fase da vida. A mãe de Cristiane teve três filhos. A pedagoga, por sua vez, não pretende ter herdeiros. Não porque tenha algum problema de saúde que a impeça. Apenas não quer. "Já durante o namoro deixei bem claro que a maternidade não era para mim", ela conta. O artista plástico Sebastião Carvalho, de 34 anos, com quem Cristiane é casada há quatro, concordou. Embora a decisão cause estranheza entre amigos e parentes, o casal é taxativo ao dizer que é definitiva. "Já avisei meu pai que, se depender de mim, ele não será avô", assegura ela. Cristiane não está sozinha. Renunciar aos filhos tornou-se uma opção freqüente entre os casais de poder aquisitivo elevado no Brasil. Segundo o IBGE, nos últimos doze anos o total de casais sem filhos aumentou 50% no país. Entre os casais nos quais ambos os cônjuges trabalham, o número simplesmente dobrou. Nesse grupo, há mais de 2 milhões de casais brasileiros que optaram por não ter filhos, contra 1 milhão em 1996.
A Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE acaba de concluir uma pesquisa que traça o perfil dos casais sem filhos e com dupla renda no Brasil. Em geral, têm menos de 40 anos e moram em cidades das regiões Sul e Sudeste. Metade deles trabalha com carteira assinada, contra 35% da média nacional. Sua renda mensal é pelo menos 70% maior que a dos casais com filhos e seu padrão de consumo é mais alto. O estudo também indica que essa composição familiar tende a crescer nos próximos anos. "O país está seguindo a tendência das nações mais ricas, em que ter filhos não é mais uma conseqüência inevitável do casamento", afirma o demógrafo José Eustáquio Diniz, coordenador da pesquisa. Casais que ganham bem e decidem não procriar são um fenômeno crescente em muitos países desenvolvidos, onde foi criado até um termo para defini-los: eles são os dinks (double income, no kids, ou "renda dupla, sem crianças"). Os dinks se tornaram motivo de preocupação em países cuja taxa de fecundidade é muito baixa. Na União Européia, a média de filhos por mulher é hoje de apenas 1,37 menor do que a taxa considerada mínima para repor a população, de 2,1. A equação representada por menos bebês para formar a força de trabalho do futuro e maior longevidade dos idosos, com os custos médicos e previdenciários que ela acarreta, pode trazer sérias conseqüências à economia dos países. "Os governos europeus vêm tentando convencer os casais a ter mais filhos, sem muito sucesso. É ainda mais difícil mudar a mentalidade das pessoas que não querem ter nenhum", disse a VEJA o holandês Ralph Hakkert, demógrafo do Fundo de População das Nações Unidas. Na Alemanha, quase um terço das mulheres não deixa descendentes, um dos porcentuais mais altos do mundo. A questão entrou na lista de prioridades do governo alemão, que tomou medidas para incentivar os casais a procriar, como a permissão de que o homem tire três meses de licença-paternidade. Na Itália, onde a taxa de fecundidade é menor que a média européia e a porcentagem de casais sem filhos cresce a cada ano, o governo passou a premiar os casais com 1 500 dólares por criança nascida. No Brasil, a média de filhos por mulher encontra-se em 2,3 acima, portanto, da taxa de reposição da população.
Um dos fatores determinantes na decisão de muitos casais é o impacto que um bebê provoca nas contas domésticas. A oficial de Justiça Cibele Habermann, de 36 anos, desistiu de ser mãe ao observar as dificuldades de seus amigos. "Decidi não trazer esses problemas para a minha vida", explica. Moradora de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, e casada há dezesseis anos com o técnico judiciário Fábio Pereira da Silva, de 38 anos, Cibele tem um estilo de vida não compatível com filhos viaja muito, está sempre com a agenda cheia e já mudou de casa nove vezes. "Tenho a impressão de que alguns casais se incomodam com a nossa escolha", diz. Para a psicanalista Luci Mansur, autora do livro Sem Filhos: a Mulher Singular no Plural, a estranheza com relação aos casais sem filhos é resquício de uma mentalidade segundo a qual a maternidade faz parte da evolução natural da mulher. "Nas primeiras pesquisas sobre a ausência voluntária de filhos num casamento, quando o fenômeno ainda era marginal, esse comportamento era considerado um desvio de conduta", relata a psicanalista. Quem se antecipou à tendência e tomou a decisão de não ter filhos há mais tempo, como Eduardo Bagnoli, de 53 anos, e Carla Bagnoli, de 51, proprietários de um hotel em Natal, no Rio Grande do Norte, confirma que só agora as pessoas começam a ver sua opção com mais naturalidade. No entanto, esse ainda é um caminho marcado por inquietações. Uma vez que se abre mão da prole, o que fazer com aquele afeto tão comum à natureza humana que se expressa na criação dos filhos? Cabe a cada um encontrar a resposta.
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