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PONTO
DE VISTA: Luiz Felipe de Alencastro
O
antiimperialismo americano
"No
fim do século XIX, quando emergiu o
imperialismo americano, Estado e religião
estavam separados e o espírito crítico se
expandia na liberdade constitucional de
pensamento. Assim, irromperam as críticas
antiimperialistas dos pacifistas americanos"
Um
dos trunfos talvez o mais decisivo da cultura ocidental
é a prática do espírito crítico. Desde
os descobrimentos ibéricos, no contexto da doutrina cristã
que servia de esteio ao morticínio dos "infiéis" (os
muçulmanos) e ao cativeiro dos "pagãos" (todos os
outros), expressavam-se cristãos que viam o colonialismo
como uma negação do próprio cristianismo. O
dominicano espanhol Las Casas denunciou os crimes contra os índios,
e o português Fernão Mendes Pinto escreveu Peregrinação
(1578). No contrapé de Os Lusíadas (1572),
Peregrinação descreve o lado patético
das conquistas portuguesas na Ásia. Machado de Assis brindava
os leitores de suas crônicas cariocas com simulações
de um novo capítulo de Peregrinação,
e Gilberto Freyre escreveu um fino ensaio sobre Fernão Mendes
Pinto. Mas o autor, um dos mais notáveis da Europa, continua
quase desconhecido nas nossas universidades, por artes de um ensino
provinciano que restringe a literatura e a história portuguesa
ao destino e ao território brasileiro.
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No
fim do século XIX, quando emergiu o imperialismo americano,
Estado e religião estavam separados e o espírito crítico
se expandia na liberdade constitucional de pensamento. Assim, irromperam
as críticas antiimperialistas dos pacifistas americanos.
Na Biblioteca do Congresso, em Washington, o primeiro impresso intitulado
American Imperialism está datado de 1899. Trata-se
de uma denúncia do expansionismo ianque redigida pelo pastor
protestante George Herron Davis. O alvo de Davis era a ocupação
americana nas Filipinas, também criticada pelo escritor Mark
Twain, dirigente da Anti-Imperialist League, criada em protesto
à anexação das ex-colônias espanholas
pelos Estados Unidos após a guerra hispano-americana (1898).
A matriz desse pensamento antiimperialista sustenta que a guerra
colonial gera mais violência: o colonialismo corrompe os colonizados
e os colonizadores. Idéia embutida num romance célebre
de Joseph Conrad, O Coração das Trevas (1902),
sobre os belgas no Congo, e retomada nos EUA pelo movimento contra
a guerra no Vietnã. Não é à toa que
o livro de Conrad serve de base para o filme de Francis Ford Coppola
Apocalypse Now. Obviamente, os antiimperialistas não
se opuseram, nem se opõem no presente, às guerras
em que os EUA se engajaram em resposta a uma agressão externa.
Essa também é a norma do direito internacional e,
depois do 11 de setembro, houve apoio unânime do Conselho
de Segurança da ONU à intervenção militar
no Afeganistão. O ponto crítico da invasão
do Iraque resulta de que a guerra foi declarada à revelia
da ONU, sob o argumento da presença, e do uso iminente, de
armas de destruição maciça (ADMs). Passadas
várias semanas de ocupação militar americana
e inglesa, ainda não apareceram provas convincentes da existência
de ADMs, e Washington começa a minimizar os fatos. Num tom
duro, um editorial do jornal francês Le Monde (29 de
maio) afirma: "Trata-se, sem dúvida, da maior mentira de
Estado destes últimos anos. De uma campanha de manipulação
conduzida provavelmente em pleno conhecimento de causa, em todo
caso, contra todas as indicações contrárias,
para fazer a opinião pública mundial acreditar que
o Iraque detinha e fabricava armas de destruição maciça".
Na Inglaterra, aumenta o número de parlamentares que pedem
a abertura de um inquérito para apurar a "mentira de Estado".
O ministro trabalhista Robin Cook, que pediu demissão em
protesto contra a guerra, é categórico sobre a inexatidão
das afirmações de Tony Blair: "Ele disse que havia
armas [de destruição maciça] que poderiam ser
usadas em 45 minutos. Não há tais armas". Num outro
contexto, Mark Twain, uma das mais altas figuras do antiimperialismo
americano, escreveu: "A verdadeira cidadania consiste em proteger
a bandeira da desonra, consiste em fazer dela o emblema de uma nação
que é conhecida perante todas as outras nações
como verdadeira, honesta e honrada. E nós deveríamos
esquecer para sempre a velha frase 'Certo ou errado, é o
meu país!'".
Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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