|
|
ENSAIO:
Roberto Pompeu de Toledo
Agouros,
males,
azares, itamares
e alencares (II)
A
instituição da
Vice-Presidência
tem
sido responsável
por
crises
e
até golpes, na
história do
país
O vice-presidente José Alencar não conseguiu baixar
os juros, com suas investidas contra a política do Banco
Central. Talvez até tenha contribuído para mantê-los
no mesmo nível. Mas conseguiu algo melhor: chamar a atenção
para a boa idéia que seria extinguir o cargo que ocupa. O
senador Jefferson Péres (PDT-AM) começou na semana
passada a colher assinaturas para uma proposta de emenda constitucional
visando a acabar com a figura do vice-presidente. É uma iniciativa
que vai no sentido do bom senso e do aprimoramento das instituições.
Os brasileiros ainda não se deram conta disso, mas a instituição
da Vice-Presidência tem sido responsável por grande
parte grande mesmo, sem exagero da instabilidade e
dos percalços que o país tem sofrido ao longo da história.
Alencar, que na semana passada voltou a criticar as taxas de juros,
não tem sido apenas deselegante, ao se utilizar da ressonância
do cargo que ocupa para bombardear uma política que, afinal,
é do governo que integra. Também não se tem
mostrado apenas desatento à distinção entre
a Vice-Presidência e a luta corporativa, ao deixar no ar a
suspeita de que se faz porta-voz da classe dos empresários,
à qual pertence. Mais grave é que tem dado a entender
que se julga portador de uma legitimidade que, na verdade, não
possui. "Tenho 175 milhões de patrões a quem dar satisfações",
disse, numa das ocasiões em que extravasou seu descontentamento.
Foi a mais infeliz e mais perigosa de suas frases. Sugere que está
pensando que o eleito foi ele.
Duas semanas atrás, o tema dos dissabores que os vice-presidentes
têm causado aos presidentes, com intervenções
que no mínimo ferem a harmonia dos diferentes governos, e
no máximo configuram tenebrosas traições
algo que tem ocorrido com cruel freqüência na história
da República , já foi abordado nesta página.
Agora se vai tocar em outro aspecto da questão, de conseqüências
muito mais sérias do ponto de vista institucional: a falta
de legitimidade dos vice-presidentes, quando são chamados
a exercer efetivamente a Presidência. Que os céus nos
ajudem e, em especial, garantam saúde inabalável ao
presidente Lula, mas o que acontece se, por infelicidade, ele não
chega ao fim do mandato? O PL, Partido Liberal, aquele dos bispos
evangélicos, dos avulsos, dos desconhecidos e de outros tantos
achados e perdidos, vira o partido da Presidência. Supõe-se
que um número razoável de seus integrantes passe a
integrar o ministério. O deputado Valdemar Costa Neto, seu
presidente nacional, ascende à condição de
José Genoíno, ou talvez, se tiver sorte, de José
Dirceu. O quadro é... Não, não digamos que
é de horror. Sejamos delicados. O quadro é bizarro.
Dá até para apostar que o PT, numa conjuntura dessas,
se recolheria ao território tão seu familiar da oposição.
Não foi nisso que se votou, na eleição de 2002.
Há um paradoxo irremediável na figura do vice-presidente.
Ele é votado para ser vice-presidente, não para ser
presidente. E no entanto sua utilidade só se revela quando
vira presidente. No resto do tempo é um inútil. Se
só tem utilidade quando vira uma coisa para a qual não
foi escolhido, o resultado, para o país, é confusão
e atraso. E não se pense que se está aqui conjeturando
sobre hipotéticas eventualidades. O Brasil tem sido perseguido
pela sina dos vice-presidentes. Dos quatro presidentes que tivemos,
antes de Lula e depois do regime militar, dois, José Sarney
e Itamar Franco, emergiram da Vice-Presidência. Foram dois
presidentes fracos, que, exatamente por carecer da legitimidade
que só os verdadeiros presidentes possuem, se notabilizaram
pelas vacilações, omissões e concessões.
Itamar ainda teve a sorte de ser aquinhoado com o Plano Real. No
resto seu governo foi um deserto de homens e idéias. A cada
vice-presidente que assume a Presidência, o país, no
mínimo, deixa de avançar quanto poderia. No máximo,
cai numa crise cujo desfecho são a turbulência e o
golpismo casos de Café Filho, o vice de Getúlio
Vargas, e João Goulart, o vice de Jânio Quadros.
O senador Jefferson Péres defende que, no impedimento do
presidente, seja realizada nova eleição. O senador
podia aproveitar o embalo e propor a extinção dos
demais vices que infestam a nação, dos vice-prefeitos
e vice-governadores a essa outra excrescência que são
os suplentes de senadores. Todos eles desempenham papel nefasto,
porque doentes de ilegitimidade. Se essa discussão prosperar
o que é bastante duvidoso, mas enfim é de bom
tom ao menos fingir que se acredita nas boas causas , José
Alencar terá prestado um bonito serviço à nação.
Não o serviço que pensa estar prestando, ao vociferar
contra o governo a que pertence. Mas o serviço dos que, ainda
que involuntariamente, chamam a atenção para a própria
inconveniência, e assim ajudam a entender o que representam
de inútil e de inoportuno. É um nobre papel, aparentado
às renúncias heróicas e às auto-imolações
pelo bem comum, por grandeza de espírito ou por amor.
|