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ENTREVISTA:
Flavio de Andrade
Trincheira de fumaça
O presidente da Souza
Cruz revela
como é
a guerra diária para vender
um produto demonizado

Ronaldo França
Oscar Cabral
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"Nós
estamos falando,
sem dúvida,
de riscos.
Cada um
de nós deve avaliar
se está
disposto a
assumi-los" |
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Há
32 anos, o paulistano Flavio de Andrade, 54 anos, vende cigarros.
Nos últimos oito tem ocupado o cargo de presidente da Souza
Cruz, a maior indústria do setor na América Latina.
Ou seja, é basicamente para ele que apontam os canhões
toda vez que os militantes da campanha antitabagista resolvem bombardear
os fabricantes brasileiros. No mês passado, a Organização
Mundial de Saúde aprovou uma convenção duríssima,
cujo objetivo é restringir ainda mais o uso do tabaco no
mundo. Para enfrentar as tensões provocadas por essa guerra,
Andrade relaxa a bordo de um automóvel de competição
a 262 quilômetros por hora, em provas de longa duração.
E, claro, conta com a ajuda de pelo menos vinte cigarros diários,
que consome sem culpa. "Ao falar de cigarro, estamos indubitavelmente
falando de risco. Mas tenho grande prazer em fumar", diz. O Brasil
é um dos países com mais restrições
à comercialização de cigarro e à propaganda.
Apesar desses obstáculos, sua companhia teve, em 2002, um
lucro de 960 milhões de reais, o maior de sua história.
Na semana passada, Andrade recebeu VEJA para a seguinte entrevista.
Veja Não provoca algum tipo de problema de consciência
vender um produto tão contestado?
Andrade
Estamos falando, sem dúvida, de riscos. Nosso dever ético
é o de informar a respeito desses riscos. Cada um de nós
deve avaliar se está disposto a assumi-los. Eu, por exemplo,
sou fumante, mas faço exercícios todos os dias de
manhã. Meu estado físico me permite entrar numa pista
e dirigir um carro em alta velocidade durante duas horas sem parar.
O que, aliás, é outra coisa que provoca riscos. Porém,
gosto de dirigir automóvel de competição. Claro
que tento me proteger o máximo possível, mas pratico
essa atividade porque me propicia benefícios como poucas
outras coisas. O cigarro traz riscos, mas também proporciona
muito prazer.
Veja
Mas o fato é que estamos falando de um produto
que pode provocar câncer. Esqueçamos o lado executivo.
Para o cidadão Andrade, não é um incômodo?
Andrade
Isso me traz sempre o pensamento de ter de desenvolver ainda mais
nossos produtos. Reconhecer que é um produto que envolve
riscos me leva a buscar constantemente a redução de
determinados componentes na fumaça. E nós estamos
conseguindo reduzi-los, com o tempo. Nesse sentido, isso não
me dá aflição. Não me incomoda. Me dá
inclusive um sentimento de trabalhar numa empresa responsável
e ética e de ser um executivo responsável e ético.
Veja
Como é lidar com toda a campanha antitabagista
que só faz crescer no Brasil?
Andrade
O
sentimento de rejeição ao cigarro foi desenvolvido,
muitas vezes, com argumentos pouco razoáveis. O melhor exemplo
foi quando se criou a idéia do fumante passivo, segundo a
qual uma pessoa teria os mesmos riscos de saúde que os fumantes
ao estar exposta à fumaça ambiental. O que se objetivava
com essa campanha era criar uma pressão extraordinária
sobre o tabaco. Isso tomou mais corpo porque as pessoas passaram
realmente a acreditar. No mundo inteiro, o porcentual médio
de fumantes é de 30%. Então, cria-se uma pressão
de 70% da população contra apenas 30%. Chega a ser
discriminatório. Eu percebo que, em determinados lugares,
quando você acende um cigarro, é comum ouvir uma piadinha.
Veja O senhor já passou por isso?
Andrade
Sempre
pedi licença às pessoas, mesmo em ambientes em que
é permitido fumar, antes de acender um cigarro. Mas me lembro
de uma vez em que tive problemas. Foi quando ainda se permitia fumar
em vôos. Eu estava em um avião de Los Angeles para
Tóquio e não tinha ninguém do lado. O pessoal
da frente, acho que eram americanos, se incomodou muito quando acendi
o cigarro. Quase houve uma batalha dentro do avião. Mas a
reação foi de tanta arrogância que decidi continuar
a fumar. Eu estava sentado numa poltrona em que era permitido. As
pessoas acabaram mudando de lugar. Porém, tenho de reconhecer
que em ambientes fechados, principalmente no caso de um avião,
a fumaça incomoda muito. Lembro de um dia em que estava viajando
de Curitiba para Brasília, no tempo em que se permitia fumar
na parte traseira do avião. Quando olhei, no corredor, era
uma fumaça insuportável. Na hora em que vi aquilo,
percebi que não podia continuar assim.
Veja É surpreendente o senhor admitir isso,
pois ficou conhecido o fato de que quando algumas empresas proibiram
o cigarro em suas dependências o senhor se envolveu pessoalmente
no contra-ataque.
Andrade
Realmente fiz isso com algumas empresas. Tive de entrar nessa briga.
Posso entender que se queira ter esse tipo de programa corporativo
por uma série de razões que não discuto. Mas,
se o argumento é que a fumaça ambiental faz mal, então
estão equivocados. Cheguei a mandar a vários presidentes
de empresas estudos epidemiológicos sobre isso. A maioria
dos estudos chegou à conclusão de que a fumaça
ambiental não prejudica as pessoas. Mas não se pode
abrir mão do bom senso. No caso dos aviões, estava
ficando insustentável. Acredito numa relação
de cordialidade entre fumantes e não-fumantes. Tanto que
criamos, na Souza Cruz, programas para ajudar bares e restaurantes
a tornar essa convivência mais cordial.
Veja A Souza Cruz teve lucro recorde no ano passado.
Como foi possível obtê-lo, tendo em vista o ambiente
de baixo crescimento econômico e a proibição
à propaganda de cigarro no Brasil?
Andrade
O cenário foi realmente adverso. Tivemos uma drástica
redução nas vendas do chamado mercado legal, enquanto
continuaram crescendo o contrabando, a falsificação
e a sonegação fiscal. Vendemos menos no ano passado
do que em 2001. O que ocorreu é que tivemos um desempenho
muito bom nas exportações de fumo, segmento no qual
somos um dos maiores do mundo. É claro que também
fomos ajudados pela desvalorização cambial. Mas temos
conseguido aumentar nossa eficiência. A Souza Cruz implantou
um programa, em 1996, chamado Agenda Estratégica. O objetivo
básico é buscar maior eficiência na utilização
dos recursos da companhia. Hoje, a empresa tem o custo mais baixo
de todas as companhias pertencentes à British American Tobacco,
nossa holding.
Veja Qual tem sido o efeito daquelas imagens horrorosas
estampadas nos maços?
Andrade
Isso é muito novo. Se me perguntar que reflexo tem isso,
ainda não há uma avaliação precisa.
Dois países têm esse tipo de imagens: Brasil e Canadá.
O Canadian Cancer Society fez uma pesquisa e não chegou a
grandes conclusões. Portanto, não podemos dizer quanto
isso é negativo nem sequer se é negativo. O número
de novos consumidores vem sendo reduzido de tempos em tempos. Essa
queda não se acentuou com a restrição da propaganda
nem com a presença das imagens nos maços. Mas tendo
a achar que a médio e a longo prazo isso pode reduzir o tamanho
do mercado. Tenho de reconhecer que aquelas imagens não são
nada simpáticas.
Veja
Mas o senhor não concorda que, por ser um produto
que envolve riscos, a restrição é necessária?
Andrade
Quando foi proibida a publicidade no país, eu até
podia compreender a restrição em mídia eletrônica,
porque em boa parte do mundo isso já havia acontecido. Em
nossa companhia nós temos um código de conduta, que
é seguido nos vários países onde atuamos, que
proíbe a publicidade em diversos veículos e horários
na TV. Principalmente naqueles que atingem o público infantil
e o adolescente. O que eu não conseguia entender era a proibição
à utilização de determinados veículos,
como revistas e jornais, que estão longe de chegar a esse
público. Muito menos a eliminação de eventos
promocionais.
Veja
A ausência de propaganda tem reduzido o número
de consumidores?
Andrade
Não.
O tamanho do mercado permanece o mesmo. O que tem sido reduzido
é a parcela do mercado legal, isso sim. Uma possibilidade
que se tinha no passado para fazer a diferenciação
entre os produtos legais e os ilegais era a capacidade de nos comunicar
com os consumidores. Daqui a algum tempo, teremos uma massa de coisas
que serão muito parecidas. A ausência da propaganda
ou outras ações tomadas pelas autoridades públicas,
como essas imagens existentes no maço de cigarros, provavelmente
terão efeito sobre o consumo no futuro. E a ilegalidade tende
a crescer com isso. Acho que deveríamos manter a capacidade
de informar a população sobre nossas marcas, sobre
a segurança de nossos produtos, porque isso é uma
forma de prevenir as pessoas contra os produtos que estão
sendo oferecidos pelo mercado ilegal. Alguns deles são absolutamente
nocivos porque não se tem a menor responsabilidade em sua
fabricação. E estão aí, no mercado,
circulando livremente.
Veja O setor de cigarros tem sido freqüentemente
alvo de contrabando e falsificação. O que é
necessário para acabar com isso?
Andrade
Não
é um privilégio nosso. Vários outros setores
sofrem com isso, mas, no segmento de cigarros, 33% do mercado está
na mão da ilegalidade. Como a alíquota de imposto
é muito alta, torna-se um excelente negócio para as
pessoas que estão dispostas a correr um risco mais elevado
para obter ganhos também elevados. Isso por si só
é uma notícia ruim. Mas a notícia pior é
que isso não pára de crescer. Quando começamos
a conversar com o governo, em 1993, a ilegalidade não chegava
a 7%. Hoje deparamos com uma situação em que o mercado
ilegal chega a 33%. A evasão fiscal produzida pela ilegalidade
representa uma perda de impostos da ordem de 1,4 bilhão de
reais. Só o que se perde com a ilegalidade desse setor quase
que financiaria o programa Fome Zero. Se juntarmos outros setores,
de computadores, refrigerantes, cervejas, CDs, estaremos falando
de uma evasão fiscal, relativa à pirataria e ao contrabando,
da ordem de 20 bilhões de reais. O grande risco que essa
indústria tem, não somente no Brasil, mas em várias
partes do mundo, está relacionado justamente à ilegalidade.
Existe uma recomendação da Organização
Mundial de Saúde no sentido de elevar a alíquota do
imposto sobre esse produto com o objetivo de aumentar o preço
para o consumidor e com isso reduzir o consumo. Não concordo
que isso tenha impacto sobre o consumo. O que vai acontecer é
o aumento da ilegalidade.
Veja
A OMS acaba de aprovar uma convenção que
visa à eliminação do tabaco no mundo. Por causa
disso, o ministro da Saúde, Humberto Costa, chegou a defender
a redução de 99% dos pontos-de-venda. Como a indústria
pretende lidar com esse cenário?
Andrade
Se
isso vier a acontecer, praticamente só ficarão disponíveis
os pontos-de-venda que operam ilegalmente. Entre marcas e versões,
o mercado legal oferece cinqüenta alternativas ao consumidor.
Já o ilegal coloca 400 marcas ou versões à
disposição. As autoridades sanitárias não
têm nenhum controle sobre os produtos contrabandeados, falsificados
ou que chegam ao mercado sem pagar impostos. Há produtos
distribuídos ilegalmente que chegam a fazer promoções,
oferecendo amostras grátis em bares e boates, o que é
proibido pela legislação. Ninguém fiscaliza.
Também não usam as imagens obrigatórias na
embalagem. Mais uma vez, somente a ilegalidade se beneficiará
de novas medidas dessa natureza.
Veja
O Congresso aprovou, na semana passada, a liberação
do patrocínio de eventos esportivos até 2005. O senhor
acha que surgiu uma brecha para as empresas de cigarro?
Andrade
Vejo, sim, uma brecha. Mas posso adiantar que não vamos tirar
proveito nenhum dessa abertura. Não mexemos uma palha para
que fosse revista essa proibição de eventos esportivos.
Se tivesse de negociar com o Congresso a revisão de restrições,
eu o faria com relação aos eventos culturais. A Souza
Cruz realizava um dos principais festivais de jazz do mundo e foi
obrigada a acabar com ele. As restrições que foram
impostas pela publicidade, no passado, foram excessivas. Criaram
uma dificuldade em relação ao combate do mercado ilegal.
O que o governo fez agora foi retirar alguns excessos dessa lei.
Veja
Com tantos obstáculos a vencer, qual o futuro dessa
indústria?
Andrade
Daqui
a cinqüenta anos estaremos vendendo essas mesmas marcas, ou
parte delas, mas com um conteúdo diferenciado. Nos últimos
dez anos, tem havido uma evolução extraordinária.
Os teores de alcatrão e nicotina se reduziram à metade.
A indústria pesquisa para chegar a produtos que vão
causar menos mal à saúde. Não estou dizendo
que já estamos colocando no mercado cigarros seguros, mas
vamos trabalhar nessa direção. Neste momento estamos
tendo ótimos resultados com a redução de substâncias
que podem provocar risco à saúde. Para algumas delas,
precisamos desenvolver tecnologia. Mas tenho certeza de que daqui
a cinqüenta anos, quando estiver fazendo a apresentação
do resultado anual aos acionistas, certamente estarei falando da
evolução dos cigarros e de quanto eles estarão
seguros em relação aos atuais.
Veja
O debate sobre violência e criminalidade freqüentemente
ressuscita a tese da liberalização das drogas como
forma de desarticular o tráfico de entorpecentes. Qual é
sua posição nesse caso?
Andrade
Eu
não sou favorável à liberação
das drogas, embora entenda que, se você eliminar o aspecto
econômico de qualquer negócio, você cria realmente
grande dificuldade para a continuidade. Mas, em princípio,
não sou favorável à liberação,
porque pode tornar-se incontrolável. Mesmo a maconha, considerada
uma droga mais leve, não deveria ser liberada. Muitos nos
perguntam se temos planos de comercializar a maconha. E a resposta
é não, não e não!
Veja
O que o senhor recomenda às pessoas que querem
parar de fumar e não conseguem largar o vício?
Andrade
Força
de vontade.
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