Edição 1806 . 11 de junho de 2003

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EM FOCO: Gustavo Franco
Existe almoço grátis?

"Os debates públicos entre membro do
governo sobre juros e câmbio costumam
gerar decisões inconsistentes e crises
desnecessárias"


A máxima segundo a qual inexiste "almoço grátis" fornece uma síntese intuitiva e poderosa do que as faculdades de economia ensinam aos profissionais que formam. Como não é possível ficar com o almoço e com o dinheiro simultaneamente, o sujeito precisa escolher, os recursos são limitados e a fome é sempre muito grande. Vista desse ângulo, a economia é assunto muito simples.

Não obstante, os economistas são mesmo diferentes dos outros seres: quando enxergam notas de 100 dólares no chão, recusam-se a pegar sob a alegação de que, se fossem verdadeiras, alguém já as teria levado. Geralmente não acreditam em curas milagrosas nem em discos voadores, e não costumam contar com muita popularidade em geral, e entre os políticos em particular, e especialmente entre vice-presidentes (Marco Maciel à parte).

Ilustração Ale Setti


Nessa momentosa controvérsia recente, entre o senhor vice-presidente e a turma da área econômica, o leitor pode ver-se instado a indagar o que é mais relevante para o progresso do Brasil: os economistas ou os vice-presidentes. Estes, na medida em que dispõem de moradia (no Palácio do Jaburu), comida e roupa lavada por conta do contribuinte, podem desenvolver uma tendência a discordar dos economistas no quesito refeições gratuitas.

O fato é que aos economistas cabe a ingrata tarefa de informar os políticos sobre o que eles não podem fazer, coisas como almoçar e não pagar a conta, entre outras piores. São incontáveis os economistas no governo que eram conhecidos como "O Satânico Dr. No".

No mérito, é preciso dizer que os economistas não fazem por mal, não mantêm os juros elevados por vilania ou sadismo. Diversas pessoas de bom coração já passaram pelo BC e os juros estão altos há muitos anos. Existem razões práticas e condições objetivas que não nos deixam alternativa: baixar os juros não é um ato de vontade de um político audaz. Os que tentaram fracassaram e foram para casa tendo prejudicado as pessoas às quais gostariam de agradar.

Alguns séculos de estudo dessa ingrata disciplina nos ensinaram que existe uma relação positiva entre crescimento e inflação, que os juros altos reduzem o crescimento, mas também a inflação, e que a desvalorização cambial melhora o superávit comercial, mas simultaneamente reduz o poder de compra dos salários e provoca inflação.

O leitor que, como eu, gostaria de ver uma fórmula simples de câmbio e juros que produzisse crescimento sem inflação, com aumento de salário, melhoria na distribuição de renda e megassuperávits comerciais, tudo ao mesmo tempo, pode perfeitamente entender, diante das premissas restritivas acima, as razões pelas quais os profissionais desses assuntos dizem que não é possível almoçar sem pagar.

Mais recentemente falharam as tentativas de glamorizar um suposto debate no âmbito do qual haveria teorias e fórmulas "alternativas", conhecidas dos economistas do PT, para romper esses dilemas, sendo que os governos "neoliberais" estariam "interditando o debate" e impondo um "pensamento único" e errado. Mais ou menos como o governo americano, que supostamente esconde evidências de vida extraterrestre.

Hoje o PT é governo, e onde estão as idéias alternativas? E os discos voadores escondidos? Tudo o que se vê é uma reafirmação bem-comportada de que não existe refeição gratuita e de que as escolhas são mesmo difíceis.

Interessante agora é notar que o ataque às leis econômicas se despiu de qualquer disfarce ideológico: o senhor vice-presidente não tem um programa macroeconômico alternativo, e o que contesta é o julgamento de profissionais que estudaram o assunto por muitos anos e estão na área econômica a exercer a profissão para a qual foram treinados a vida inteira nas melhores escolas. Em princípio, todos estão bem-intencionados e querem o bem do Brasil, mas a experiência mostra que os debates públicos entre membros do governo sobre juros e câmbio costumam gerar decisões inconsistentes e crises desnecessárias.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ
e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com ­ www.gfranco.com.br)

 
 
 
 
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