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CARTA
AO LEITOR
Crise sem conteúdo
Muito
alarde se fez na semana passada com o fato de o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva ter sido recebido com vaias de uma minoria
de sindicalistas presentes ao congresso da CUT, a central sindical
irmã siamesa do PT. O episódio serviu para explicitar
duas coisas. A primeira é que o presidente está na
linha de frente pela aprovação das reformas da Previdência
e do sistema tributário, cuja defesa ele fez diante de uma
platéia hostil à idéia, mesmo tendo sido sua
claque cativa durante anos. A segunda é que não tem
substância a atmosfera de crise política que o Brasil
vem respirando nos últimos dias, em torno das políticas
econômicas do governo. Por sua leveza, a crise e as vaias
serão esquecidas porque, no essencial, o país está
indo na direção correta mesmo que mais lentamente
do que se poderia desejar. Numa ótica mais rigorosa, que
leve em conta o contexto dos países vizinhos e o passado
do Brasil, não se poderia sequer chamar de crise as turbulências
da semana passada em torno das taxas de juros, uma questão
alavancada pelo vice-presidente José Alencar, o novo Itamar
Franco do Planalto.
O
risco Brasil vem caindo, o dólar está com tendência
de queda, a inflação está controlada. O desemprego,
muito alto, é um problema que não foi inventado pelo
governo atual. Mesmo quanto aos juros paralisantes da economia,
o país já conheceu mais altos no passado recente.
Crise é o que viveu a Argentina no fim de 2001, quando teve
cinco presidentes da República num período de doze
dias. Crises foram as que sacudiram de verdade o Brasil e que levaram
um presidente, Getúlio Vargas, ao suicídio, em 1954,
e outro, João Goulart, ao exílio, em 1964, para não
falar da deposição de um terceiro, Fernando Collor,
em 1992. Em uma única década, a de 80, o Brasil faliu
duas vezes. O governo José Sarney decretou uma moratória
que cortou e, mais tarde, encareceu de forma brutal o crédito
externo ao Brasil, efeitos que são sentidos até hoje.
Mesmo os oito anos de progresso institucional de Fernando Henrique
Cardoso foram marcados pela estagnação econômica.
À luz de uma história recente tão dura, só
uma crise de oportunismo político justifica cobrar "crescimento
já" do governo Lula.
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