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Cultura
Por que o 16º
presidente americano, cujo bicentenário
Como todo homem público de sua era, Lincoln tinha de se submeter continuamente ao teste da tribuna. Seu sucesso como orador era apenas relativo. Apesar de muito alto, com 1,93 metro, ele não tinha uma presença sobranceira. Sua face era encovada, seu olhar cinzento, seus gestos desajeitados e a roupa sempre um pouco torta. Para os observadores, faltava-lhe refinamento. Impressão acentuada pelos seus discursos, cuja dicção direta destoava do padrão, cheio de enfeites e condoreirismos, a que estavam acostumadas as audiências. O grande exemplo do descompasso que havia entre Lincoln e a plateia foi o discurso que, em 1863, ele proferiu em Gettysburg palco de uma batalha cruenta convertido em cemitério para honrar os mortos da Guerra Civil. Seu colega no palanque, Edward Everett, discursou por duas horas. Lincoln falou dois minutos foi tão breve que o fotógrafo que deveria registrar o momento não teve tempo de armar seu tripé. Nos dias seguintes, alguns jornais reconheceram a força peculiar daquelas duzentas e poucas palavras, que culminam numa definição imortal de democracia ("um governo do povo, pelo povo, para o povo"). Só muito mais tarde, porém, o pronunciamento seria visto como uma obra-prima estilística.
Quando Lincoln foi eleito presidente, pareceu improvável a muitos que ele fosse capaz de redigir documentos de estado. Sabe-se hoje, contudo, que entre os presidentes americanos só ele traçou, de próprio punho, todos os textos que levam seu nome. Lincoln dispensava até mesmo as sugestões de seus assessores mais próximos. Fazia muito tempo que escrever, para ele, era um exercício cotidiano e não é por outro motivo que seus textos reunidos preenchem oito gordos volumes (hoje disponíveis na internet). Seu talento literário começou a ser levado a sério em meados do século XX. Um dos primeiros a ressaltá-lo, no fim da década de 50, foi o crítico Jacques Barzun, para quem havia chegado a hora de reconhecer o Lincoln "artista, criador de um estilo único na prosa em inglês". Pouco depois, Edmund Wilson afirmava que, "único entre os presidentes americanos, é possível imaginar Lincoln, nascido em circunstâncias diferentes, tornando-se um escritor renomado, e não apenas no campo político". Nos anos 80, coube ao romancista Gore Vidal insistir que o presidente era um mestre da língua inglesa: "A estranha música de suas frases não se parece com a de ninguém mais". Recentemente, a análise minuciosa dos escritos de Lincoln ganhou uma nova dimensão. Há volumes inteiramente dedicados a destrinchar cada aliteração ou figura de linguagem de discursos individuais como o de Gettysburg ou o da segunda posse presidencial. Há também livros que explicam como Lincoln se formou como escritor, lendo, antes de mais nada, a Bíblia na versão inglesa do rei James e as obras de Shakespeare. Lincoln conhecia tão bem peças como Ricardo III e Macbeth que não tinha apenas citações sempre na ponta da língua: com frequência ele repetia, em suas frases, a mesma métrica dos versos shakespearianos. Nos Estados Unidos, Lincoln pode ser alvo de uma idolatria ingênua. Às vezes é louvado como uma espécie de santo embora tenha mantido, por muito tempo, uma atitude ambígua em relação à escravidão, o câncer moral de sua época. Aqueles que põem em destaque sua paixão por palavras mostram que a busca pelo termo preciso, pela formulação mais exata nos debates em que se envolveu como político, levou Lincoln a clarificar para si próprio, e depois em textos lapidares, os princípios de uma sociedade democrática "dedicada à proposição de que todos os homens são criados iguais". Depois, em seus discursos de guerra, ele pôs seu talento literário a serviço do futuro da ideia de que, apesar da carnificina, "um renascer da liberdade" ainda era possível. "A habilidade e o compromisso em usar a linguagem de maneira honesta e consistente desapareceram em grande parte de nosso discurso político", diz Fred Kaplan. A história do Lincoln escritor é um lembrete contra isso.
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