Internacional
África:
um presidente trucidado...
Nino Vieira,
da Guiné-Bissau, foi baleado e retalhado a facão
Manuel
de Almeida/EPA/Corbis/Latin Stock
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COMANDANTE
NINO Morto por soldados enfurecidos |
O século XXI caminha para
sua segunda década e aquilo que na África passa
por atividade política ainda permanece imerso na selvageria.
Os eventos da semana passada na Guiné-Bissau e no Sudão
mostram o tamanho do desafio de integrar o continente à
civilização moderna. Na Guiné-Bissau,
antiga colônia portuguesa na costa ocidental africana,
um grupo de militares entrou na casa do presidente João
Bernardo "Nino" Vieira atirando bombas e varrendo
o local com balas. Ferido, Vieira foi arrastado até
a casa da sogra, onde os soldados o retalharam a facão.
Ainda que golpes de estado sejam frequentes na África
Ocidental, o assassinato do presidente não foi um golpe
no sentido convencional. Para melhor entendimento do que ocorreu,
deve-se falar em rixa de quadrilhas. Os soldados queriam vingar
a morte do chefe das Forças Armadas, Tagme Na Waie.
O militar fora morto um dia antes em um ataque com lança-granadas
ao quartel-general do Exército. O principal suspeito
pelo crime era seu arqui-inimigo, o presidente.
Nino
Vieira era um típico "pai da pátria" africano, cujo mandonismo
se confunde com a história do país. Comandante militar da guerrilha
contra Portugal antes da independência, em 1974, ele entrava e saía
do governo via eleição, guerras civis e golpes de estado
desde os anos 80. A Guiné-Bissau é o quinto na lista dos
países mais pobres do planeta. Seu principal produto oficial é a
castanha-de-caju, mas a verdadeira riqueza está na utilização
do país como entreposto para a cocaína que flui da América
do Sul para a Europa e também para a heroína que a Ásia exporta
para os Estados Unidos. Facilitado pelo caos político e social e pela boa
localização geográfica, o tráfico de drogas deu à
Guiné-Bissau um título inédito, revelado em relatório
do Departamento de Estado americano no mês passado: o de primeiro narcoestado
do planeta.
O Brasil dá considerável
atenção às relações com a Guiné-Bissau
e tem esperança de exercer por lá grande influência. A preferência
diplomática se dá basicamente pela singela razão de o português
ser a língua oficial no país africano, ainda que a maioria do 1,5
milhão de habitantes fale um dialeto crioulo incompreensível aos
brasileiros. De qualquer forma, o esforço di-plo-mático do Itamaraty
já rendeu uma vitória concreta: a Guiné-Bissau foi convencida
a adotar a reforma ortográfica da língua portuguesa.