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Livros A
obra do padre Antônio Vieira que está ganhando novas
"Antônio Vieira é de fato o maior prosador direi mais, é o maior artista da língua portuguesa." Com o lançamento do primeiro volume da edição completa de seus Sermões (Edições Loyola) e do segundo de suas Cartas (Globo) as únicas edições no mercado brasileiro que buscam compilar a totalidade da vasta obra do padre Antônio Vieira , o leitor pode começar a verificar se o veredicto do maior poeta moderno português, Fernando Pessoa, é hiperbólico ou não. Independentemente disso, não se pode negar que, aliados ao vigor ímpar que não arrefeceu até o fim de uma existência longeva, seus interesses onívoros e atividades variadas levaram o jesuíta a ocupar lugar de relevo na história seja de Portugal, a metrópole, seja do Brasil-colônia. Vieira (1608-1697) viveu numa era de transição cujas contradições lhe marcaram a personalidade e a obra. Diante do surgimento da filosofia e da ciência modernas, a autoridade religiosa tradicional buscava se reafirmar com a Contrarreforma. Impérios ascendiam, impérios definhavam. Barroco é o nome que se dá à cultura daquele século, e as centenas de sermões e cartas que o religioso escreveu são exemplos máximos da prosa desse estilo. Seu barroquismo se patenteia no "discurso engenhoso", uma arte verbal que se vale da construção minuciosa, aguda e surpreendente pelo jogo de paradoxos. Nascido em Lisboa, Vieira chegou ainda criança à então capital colonial brasileira, Salvador, onde se educou e ingressou na Companhia de Jesus. Após o desastre de Alcácer-Quibir (1578), uma expedição militar ao norte da África na qual pereceram o rei dom Sebastião e boa parte da nobreza lusitana, Portugal perdeu a independência para a Espanha, em cuja prolongada guerra com os holandeses o Brasil acabou por se envolver. Interessados no açúcar do Nordeste, estes ocuparam a Bahia e Pernambuco. A resistência ao invasor, que, além de estrangeiro, era protestante e, portanto, herege, inspirou ao jovem padre alguns de seus mais inflamados sermões patrióticos. Representante destacado de uma influente ordem religiosa, ele foi enviado à metrópole, em 1641, para levar a adesão da colônia à recém-restaurada monarquia independente e ao novo monarca, dom João IV, cuja amizade logo conquistou, tornando-se seu conselheiro e diplomata. Conforme sua influência política aumentava, crescia paralelamente sua fama de pregador. Espírito empreendedor, ciente das transformações econômicas da Europa, Vieira concluiu que o fortalecimento de Portugal requeria apoio ao comércio, às finanças e, na ausência de uma burguesia autóctone, contemplou uma solução ousada. De visita à Holanda, travou contato com judeus de origem portuguesa, ao dinamismo dos quais atribuiu o sucesso que lá testemunhara. Buscou, pois, convencer o rei a lhes reabrir as portas da antiga pátria e a deixar de perseguir os conversos, os chamados cristãos-novos. Tal proposta o indispôs com elites tradicionais e, em especial, com o Santo Ofício a Inquisição. Complicando sua situação, ele entrou em conflito com a própria ordem e, numa espécie de exílio, aceitou uma missão no Maranhão. Defendendo os ameríndios dos colonos que os escravizavam, fez inimigos também nas terras brasileiras. Com a morte do protetor régio, o jesuíta se tornou presa fácil da Inquisição, que considerava heréticos seus escritos messiânicos. Embora o valor com que se defendeu e reviravoltas políticas subsequentes o poupassem de consequências graves, o padre não recuperou sua influência e morreu quase nonagenário, na Bahia, trabalhando na edição de seus sermões. Que era, porém, um sermão desses? Tratava-se, tipicamente, de uma exegese ou interpretação peculiaríssima. Tomando uma passagem ou parábola bíblica qualquer, o autor deitava e rolava, extraindo todos os coelhos que queria de sua cartola mágica. No caso de Vieira, os sermões serviam a finalidades tão diferentes como incentivar os compatriotas ao combate, criticar os vícios da sociedade e a escravidão indígena, propor reformas, apoiar aliados, destruir inimigos. Em suas mãos temíveis, eles eram, no mais das vezes, armas políticas, sem, por isso, deixar de ser (alta) literatura. Para entender como funcionavam na prática, convém lembrar que, em Portugal e no Brasil seiscentistas, conviviam uma minoria culta e uma massa de iletrados. Histórias bíblicas, sobretudo a da Paixão de Cristo, forneciam a ambos os grupos um quadro comum de referências ao qual o pregador recorria não só para ilustrar tal ou qual ponto, para criar uma metáfora ou usar numa alegoria, mas principalmente para montar, peça a peça, um mecanismo complexo: a máquina de persuadir. E, como as prédicas proferidas dos púlpitos mais elevados ecoavam seja na corte, seja entre a plebe, não é despropositado comparar o papel dos oradores de outrora ao dos radialistas políticos americanos de hoje. Lançando mão de uma opulência inigualável de recursos, os textos de Antônio Vieira, que foram ouvidos, lidos e admirados durante sua vida não só em Portugal, como em outros países, representam um mostruário de quanto, dedicadamente cultivada, nossa língua é capaz. Mas eles contêm mais do que exemplos de grande prosa e oportunidades de deleite estético. Sua imaginação, que, a um tempo medieval e moderna, bebia em fontes tão diversas quanto a cabala judaica ou a mística milenarista, mostrou-se, em História do Futuro e demais incursões messiânicas, uma das mais visionárias do Ocidente, comparável à do místico sueco Emanuel Swedenborg ou à do poeta inglês William Blake e não é à toa que tenha influenciado tão decisivamente a obra de Fernando Pessoa.
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