Livros
Bem
ao norte da terra prometida
Um divertido
policial situado em um esdrúxulo Alasca judaico

Jerônimo
Teixeira
Marcio
Jose Sanchez/AP
 | HISTÓRIA
ALTERNATIVA Michael Chabon: gangues de
judeus ortodoxos e um possível Messias viciado em heroína |
O estado de Israel não
foi criado em 1948 esse ano fatal marca, ao contrário,
a derrota definitiva dos sionistas, expulsos da Palestina
por tiranos árabes. Para grande parte dos que conseguiram
fugir ou sobreviver ao holocausto nazista na Europa, a terra
prometida foi o Alasca, cujo distrito de Sitka fora convertido
em enclave judaico e assim se manteve por sessenta
anos, até os Estados Unidos reverterem a decisão,
com consequên-cias incertas para os judeus. Essa história
alternativa configura o cenário de Associação
Judaica de Polícia (tradução
de Luiz A. de Araújo; Com-panhia das Letras; 472 páginas;
58 reais), romance policial de cunho satírico do americano
Michael Chabon, de 44 anos. Embora tenha lá sua inspiração
histórica Harold Ickes, secretário do
Interior do governo Roosevelt, propôs que o Alasca fosse
aberto à imigração de judeus perseguidos,
mas o projeto nunca foi adiante , o universo paralelo
conjurado por Chabon é um ostensivo absurdo: uma terra
fria e suja, dominada por gangues hassídicas e assombrada
pela esperança na vinda do Messias. O talento ficcional
de Chabon revela-se no modo como ele torna esse mundo plausível
e palpável.
Chabon é
celebrado por suas incursões na cultura pop. Seu romance As Incríveis
Aventuras de Kavalier & Clay prestava homenagem aos quadrinhos. Associação
Judaica de Polícia paga tributo ao policial noir. No modelo dos detetives
criados por Dashiell Hammett e Raymond Chandler, o policial Meyer Landsman, herói
do livro, é um tipo desencantado e durão. Também é
um obstinado: mesmo desautorizado pelos superiores, insiste em investigar o assassinato
do filho de um influente rabino ortodoxo. Como alegoria política, Associação
Judaica de Polícia não chega perto da sutileza crítica
de Complô contra a América, de Philip Roth, outra especulação
ficcional sobre uma versão alternativa da história americana. Mas
o vira-página de Chabon guarda considerações curiosas sobre
o que já foi chamado de "condição judaica". Seus
personagens vivem permanentemente deslocados, sem lar, e nutrem esperanças
em um redentor que nunca vem (ou, pior, que talvez venha como um viciado em heroína
que morrerá baleado em um hotel sórdido). É uma situação
melancólica da qual Michael Chabon, muito judaicamente, tira grande
proveito cômico.
| Sinais dos tempos "Quinhentas
testemunhas de todo o distrito juraram ter visto na luz difusa da aurora boreal
o contorno de um rosto humano de barba e peót. Seguiram-se violentas discussões
sobre a identidade do sábio barbudo no céu. Na semana passada, em
meio ao pânico e às penas de um matadouro koscher, uma galinha virou
para o shochet, que estava erguendo a faca ritual, e anunciou em aramaico o iminente
advento do Messias. A transcedental penosa ainda fez diversas previsões,
embora tenha se eximido de mencionar a sopa de que iria participar quando voltasse
a se calar como o Próprio Deus." Trecho
de Associação Judaica de Polícia |