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Edição 2099

11 de fevereiro de 2009
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Cinema
Um astro em busca da reinvenção

Tom Cruise não mede esforços para promover seu
ambicioso Operação Valquíria – incluindo cinco dias
de corte intensa ao Brasil e aos brasileiros


Isabela Boscov e Silvia Rogar

Fotos Everett Collection/Grupo Keystone e Alex Paralea/Ag. News

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Cruise como Stauffenberg, que tentou matar Hitler, e com a mulher, Katie Holmes, no Rio: simpático até com os paparazzi


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Em sua passagem pelo Rio de Janeiro, Tom Cruise desempenhou em tempo integral o papel de astro simpático e atencioso, que sorri até para os paparazzi. Na pré-estreia de Operação Valquíria, na terça-feira passada, ele chegou ao lado de Katie Holmes num Land Rover blindado que subiu no tapete vermelho. Deixou a mulher dentro do cinema Odeon e passou nada menos que uma hora e dez minutos tirando fotos com os populares e dando autógrafos. Volta e meia, o próprio Cruise se oferecia para clicar o botão da câmera dos fãs. Brasileiros famosos ficaram indóceis para conhecer o ator. O bilionário Eike Batista pediu para ser apresentado a ele. Vera Fischer esperou quarenta minutos para dar um beijinho nele e posar ao seu lado. Até para os inconvenientes comediantes do Pânico na TV Cruise distribuiu sorrisos. "A gente não queria ir embora do Brasil", disse o ator à imprensa.

Os cinco dias de corte ao Brasil e aos brasileiros foram parte de uma turnê extensa (veja o quadro abaixo), em que o astro colocou toda a sua voltagem a serviço da promoção de Operação Valquíria (Valkyrie, Estados Unidos/Alemanha, 2008), que estreia no país nesta sexta-feira. Não apenas na condição de ator, mas acima de tudo em sua função como produtor. Desde que rompeu com o estúdio com que maior frequência trabalhava, a Paramount, em 2006 (ambas as partes já fizeram as pazes), na esteira de passos em falso pessoais (o sofá de Oprah Winfrey, sempre ele) e da bilheteria considerada decepcionante de Missão: Impossível III, Cruise vem se dedicando a um projeto intensivo de reconstrução de imagem, credibilidade e poder – especialmente o poder de atrair o público, o que, sim, ele ainda faz muito bem, em particular em filmes de ação. O astro tem, primeiro, de garantir que os investidores que colocaram estimados 500 milhões de dólares no estúdio que ele ressuscitou e controla, a United Artists, sintam que seu voto de confiança está sendo honrado. E, para que esse compromisso seja cumprido, tem ao mesmo tempo de projetar para si um futuro profissional que abra seu leque de oportunidades para além do nicho confortável da ação: aos 46 anos, ele tem, ao menos em teoria, uma validade finita no segmento.

HEROICO, MAS FRUSTRADO
Bamber, que faz um ótimo Hitler: quisera o complô tivesse funcionado...

Operação Valquíria é uma peça curiosa nesse plano. Dirigido por Bryan Singer, de X-Men e Super-Homem – O Retorno, o filme recupera o episódio verídico vivido por Claus von Stauffenberg, oficial do Exército alemão que, juntamente com outros companheiros de alta patente, conduziu um complô para assassinar Adolf Hitler. Embora pertencesse à elite nazista, Stauffenberg repudiava, por motivos morais e religiosos, o extermínio dos judeus, e também a ideia de ter sua pátria regida por um maníaco e bufão. Trata-se assim de uma história que combina heroísmo com um tanto de ação e suspense. Embora ninguém desconheça o fato de que a conspiração falhou e Hitler continuaria a torturar a Europa com sua guerra sangrenta, Singer procura levar a trama à maneira de um filme de Alfred Hitchcock, em que o desenrolar se sobrepõe ao desfecho. Cercado por um elenco de ingleses notáveis, como Kenneth Branagh e David Bamber (um ótimo Hitler), o astro sucede apenas parcialmente em seu projeto. Valquíria é uma combinação ainda desconfortável do familiar com o novo, do desejo de agradar e da tentativa de inovar, e sugere que resta muito por equacionar nessa busca do astro por uma nova zona de conforto. Não que não tenha razão para algum alívio: o filme já começa a dar lucro – e os alemães, que idolatram Stauffenberg, têm ido em peso conferir a versão hollywoodiana de seu herói.

 

O Brasil na rota das estrelas

Poucos anos atrás, as distribuidoras brasileiras mal conseguiam que subcelebridades como Rob Schneider – aquele sujeito sebento que faz pontas em filmes de Adam Sandler – viessem para cá promover seus filmes sem lhes oferecer, em troca, passagem e estadia até para a sogra. Hoje o Brasil (e em particular o Rio de Janeiro) recebe com certa fleuma mega-astros do porte de Will Smith e Tom Cruise, que cumprem aqui agendas às vezes mais intensas do que as programadas para capitais europeias. Não só a praia, o rodízio e a caipirinha (passos indefectíveis de todo visitante estrangeiro) respondem por essa popularidade súbita do país. No caso de Cruise, os mercados internacionais respondem por 75% da bilheteria mundial de seus filmes de ação. Portanto, maior também é a atenção devida a eles. Esse é o fator que transformou o Brasil em etapa quase natural de uma grande turnê como a que Cruise acaba de realizar, e que faz com que obstáculos como a distância e a insignificância comercial dos países adjacentes sejam relevados: o mercado nacional, que gira em torno dos 90 milhões de ingressos por ano, é um dos dez maiores do mundo hoje e um dos dois únicos (sendo o outro o México) situados em países em desenvolvimento – ou seja, com muita terra, e ingresso de cinema, por desbravar.



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