Cinema
Um
astro em busca da reinvenção
Tom
Cruise não mede esforços para promover seu
ambicioso Operação
Valquíria incluindo cinco dias
de corte intensa ao Brasil
e aos brasileiros

Isabela
Boscov e Silvia Rogar
Fotos
Everett Collection/Grupo Keystone e Alex Paralea/Ag. News
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OLHA
EU AQUI Cruise como Stauffenberg, que
tentou matar Hitler, e com a mulher, Katie Holmes, no Rio: simpático até
com os paparazzi |
| VEJA TAMBÉM
Ouça trechos da entrevista exclusiva (em
inglês)
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Trailer | |
Em sua passagem pelo Rio de Janeiro, Tom
Cruise desempenhou em tempo integral o papel de astro simpático e atencioso,
que sorri até para os paparazzi. Na pré-estreia de Operação
Valquíria, na terça-feira passada, ele chegou ao lado de Katie
Holmes num Land Rover blindado que subiu no tapete vermelho. Deixou a mulher dentro
do cinema Odeon e passou nada menos que uma hora e dez minutos tirando fotos com
os populares e dando autógrafos. Volta e meia, o próprio Cruise
se oferecia para clicar o botão da câmera dos fãs. Brasileiros
famosos ficaram indóceis para conhecer o ator. O bilionário Eike
Batista pediu para ser apresentado a ele. Vera Fischer esperou quarenta minutos
para dar um beijinho nele e posar ao seu lado. Até para os inconvenientes
comediantes do Pânico na TV Cruise distribuiu sorrisos. "A gente
não queria ir embora do Brasil", disse o ator à imprensa.
Os cinco dias de corte ao Brasil e aos brasileiros foram parte de uma turnê
extensa (veja o quadro abaixo), em que o astro colocou
toda a sua voltagem a serviço da promoção de Operação
Valquíria (Valkyrie, Estados Unidos/Alemanha, 2008), que
estreia no país nesta sexta-feira. Não apenas na condição
de ator, mas acima de tudo em sua função como produtor. Desde que
rompeu com o estúdio com que maior frequência trabalhava, a Paramount,
em 2006 (ambas as partes já fizeram as pazes), na esteira de passos em
falso pessoais (o sofá de Oprah Winfrey, sempre ele) e da bilheteria considerada
decepcionante de Missão: Impossível III, Cruise vem se dedicando
a um projeto intensivo de reconstrução de imagem, credibilidade
e poder especialmente o poder de atrair o público, o que, sim, ele
ainda faz muito bem, em particular em filmes de ação. O astro tem,
primeiro, de garantir que os investidores que colocaram estimados 500 milhões
de dólares no estúdio que ele ressuscitou e controla, a United Artists,
sintam que seu voto de confiança está sendo honrado. E, para que
esse compromisso seja cumprido, tem ao mesmo tempo de projetar para si um futuro
profissional que abra seu leque de oportunidades para além do nicho confortável
da ação: aos 46 anos, ele tem, ao menos em teoria, uma validade
finita no segmento.
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HEROICO,
MAS FRUSTRADO Bamber, que faz um ótimo
Hitler: quisera o complô tivesse funcionado... |
Operação
Valquíria é uma peça curiosa nesse plano. Dirigido por
Bryan Singer, de X-Men e Super-Homem O Retorno, o filme recupera
o episódio verídico vivido por Claus von Stauffenberg, oficial do
Exército alemão que, juntamente com outros companheiros de alta
patente, conduziu um complô para assassinar Adolf Hitler. Embora pertencesse
à elite nazista, Stauffenberg repudiava, por motivos morais e religiosos,
o extermínio dos judeus, e também a ideia de ter sua pátria
regida por um maníaco e bufão. Trata-se assim de uma história
que combina heroísmo com um tanto de ação e suspense. Embora
ninguém desconheça o fato de que a conspiração falhou
e Hitler continuaria a torturar a Europa com sua guerra sangrenta, Singer procura
levar a trama à maneira de um filme de Alfred Hitchcock, em que o desenrolar
se sobrepõe ao desfecho. Cercado por um elenco de ingleses notáveis,
como Kenneth Branagh e David Bamber (um ótimo Hitler), o astro sucede apenas
parcialmente em seu projeto. Valquíria é uma combinação
ainda desconfortável do familiar com o novo, do desejo de agradar e da
tentativa de inovar, e sugere que resta muito por equacionar nessa busca do astro
por uma nova zona de conforto. Não que não tenha razão para
algum alívio: o filme já começa a dar lucro e os alemães,
que idolatram Stauffenberg, têm ido em peso conferir a versão hollywoodiana
de seu herói.
| O Brasil
na rota das estrelas Poucos anos atrás,
as distribuidoras brasileiras mal conseguiam que subcelebridades como Rob Schneider
aquele sujeito sebento que faz pontas em filmes de Adam Sandler
viessem para cá promover seus filmes sem lhes oferecer, em troca, passagem
e estadia até para a sogra. Hoje o Brasil (e em particular o Rio de Janeiro)
recebe com certa fleuma mega-astros do porte de Will Smith e Tom Cruise, que cumprem
aqui agendas às vezes mais intensas do que as programadas para capitais
europeias. Não só a praia, o rodízio e a caipirinha (passos
indefectíveis de todo visitante estrangeiro) respondem por essa popularidade
súbita do país. No caso de Cruise, os mercados internacionais respondem
por 75% da bilheteria mundial de seus filmes de ação. Portanto,
maior também é a atenção devida a eles. Esse é
o fator que transformou o Brasil em etapa quase natural de uma grande turnê
como a que Cruise acaba de realizar, e que faz com que obstáculos como
a distância e a insignificância comercial dos países adjacentes
sejam relevados: o mercado nacional, que gira em torno dos 90 milhões de
ingressos por ano, é um dos dez maiores do mundo hoje e um dos dois únicos
(sendo o outro o México) situados em países em desenvolvimento
ou seja, com muita terra, e ingresso de cinema, por desbravar. |