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Edição 2099

11 de fevereiro de 2009
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Cinema
Há fogo sob as cinzas

Com o desempenho sublime em O Lutador, Mickey Rourke
deixa de ser a mais melancólica ruína de Hollywood para
se tornar de novo, aos 56 anos, seu talento mais
absorvente e majestoso


Isabela Boscov

Divulgação

Como o decadente astro de luta livre Randy "O Carneiro" Robinson:  segundo o diretor Darren Aronofsky, não existe ator mais imenso que Rourke – desde que se saiba inspirá-lo e pressioná-lo


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Em 1981, com menos de cinco minutos em cena, Mickey Rourke se anunciou como um dos talentos mais magnéticos que o cinema americano poderia produzir – na liga de Marlon Brando, James Dean e, bem, Marlon Brando e James Dean. Aos 28 anos, tendo deixado seus professores no Actors Studio de queixo caído, Rourke finalmente conseguiu uma ponta em Corpos Ardentes, um noir feito como veículo para William Hurt e Kathleen Turner. Hurt quer dar um jeito no marido de Kathleen porque está louco por ela. Procura então um jovem especialista em incêndios criminosos. Sai acabado de cena. Não apenas porque a presença de Rourke é hipnótica e sugere, nas suas inflexões, um mundo de coisas sobre o personagem que o roteiro nunca imaginou. Ele atrai também pela garra e pela insolência: ora Rour-ke se move pelo cenário, impondo o ritmo e obrigando o ator principal a segui-lo, ora fala tão baixo que Hurt não tem remédio senão se inclinar para ele. É um espetáculo de sujeição – sujeição, antes de tudo, de virilidade e de dominância. Rourke, como é notório, começou a destruir sua carreira e a si mesmo não muito tempo depois disso. Na fase terminal do processo, lá pelo fim dos anos 90, chegou a depender da mesada de um dos dois amigos que lhe restavam para comer. Neste momento, porém, não há ator mais admirado e celebrado em Hollywood. Todo mundo, de David Letterman a Larry King, quer entrevistar Mickey Rourke; os paparazzi o seguem aonde ele vai; pela primeira vez em vinte anos, ofertas de roteiros chegam à sua porta; e, tendo já ganhado o Globo de Ouro no mês passado, ele é o candidato mais cotado ao Oscar do próximo dia 22.

AS INDICAÇÕES

• Ator - Mickey Rourke

• Atriz coadjuvante - Marisa Tomei

A razão dessa virada é O Lutador (The Wrestler, Estados Unidos, 2008), que estreia nesta sexta-feira no país e no qual Rourke faz Randy "O Carneiro" Robinson, astro da luta livre na década de 80 que, no presente, se apresenta em ginásios por cachês humilhantes, que complementa empilhando caixas num supermercado. É um fim de vida solitário, melancólico e indigno, retratado numa interpretação que muitas vezes atinge o sublime – uma exposição sem pudor, mas também sem apelo à piedade, de todas as cicatrizes que Rourke acumulou no físico e na alma. "Randy é um homem que eu conheço bem de perto. É quase eu mesmo", disse o ator, agora com 56 anos, a VEJA (leia trechos abaixo).

O ressurgimento de Rourke não é uma reinvenção. Ao contrário de, por exemplo, Robert Downey Jr., outro ator que voltou com força redobrada no último ano, Rourke não se livrou da bagagem excessiva (no caso de Downey, um vício em drogas que quase o devorou). Ele continua a carregar seu peso – apenas aprendeu a fazê-lo sem desabar sob ele. Aprendeu, sobretudo, a se valer dele, uma vez que o estrago que infligiu sobre si é de fato incancelável. O efeito mais visível da derrocada está, claro, estampado no seu rosto, uma versão massacrada da beleza que, para sua repugnância – mas com sua colaboração –, fez dele um símbolo sexual em meados da década de 80, em filmes como 9 Semanas de Amor. Em retrospecto, esse foi o início do fim: o ponto em que o narcisismo de Rourke, alimentado pelo assombro que seu trabalho despertava, colidiu com o desprezo que ele começava a sentir por um dom que lhe vinha de maneira tão fácil. Rourke foi também um garoto pobre, abandonado pelo pai aos 6 anos e transferido de Nova York para Miami para viver com um padrasto violento. Para se impor, aprendeu a ser valentão e arrogante; e, quando vieram o sucesso e o dinheiro, achou que eles eram uma recompensa natural que nunca lhe faltaria, porque ninguém jamais poderia ser melhor do que ele. "Eu achava que o talento era a única coisa que importava. Faltava-me até instrução para entender que o trabalho tem uma esfera política, com a qual é preciso conviver", diz.

Em 1991, no que parecia ser uma de suas bravatas típicas, Rourke largou uma carreira que então já ia muito mal, por conta de suas escolhas desleixadas, para se arriscar como boxeador profissional. Na adolescência, afirma, ele fora um peso-galo promissor, afastado por causa de uma lesão. O boxe, assim, era um negócio malresolvido, e Rour-ke, que tem tendência a cismar com pontas desatadas, foi resolvê-lo. Até 1995, participou de várias lutas e ganhou quase todas, o que poderia indicar um desempenho admirável. Exceto pela violência com que ele apanhou para obtê-lo. Rourke teve de reconstruir o nariz seis vezes, quebrou vários outros ossos da face, além da mão e de algumas costelas, perdeu parte da audição e sofreu concussões que o levaram a amnésias temporárias, a uma redução permanente do senso de equilíbrio e ao diagnóstico de que danos cerebrais seriam iminentes. Rourke deixou então novamente o ringue. Mas, dessa vez, sua carreira como intérprete era uma possibilidade morta e enterrada. Entre meados dos anos 80 e o fim de sua aventura no boxe, Rourke tratara de fazer inimigos entre os estúdios, produtores e diretores com meticulosidade notável – e o fizera não por meio de sutilezas, mas com todas as impublicáveis letras. Reunira em torno de si um bando de bajuladores e brutamontes recrutados entre os Hell’s Angels e gangues cubanas. Com extravagâncias e explosões, cimentara a reputação de um ator em que só se podia confiar pela inconfiabilidade. Juntou ainda a essa imagem a fama de marido violento, que Rourke nega veementemente: segundo ele, sua ex-mulher, a modelo e atriz Carré Otis, o acusou de espancá-la porque estava tão doida pela heroína que não se lembrava realmente de quem havia batido nela (de acordo com Rourke, foram os sujeitos que ele cuidou depois de mandar para o hospital a socos e pontapés). E havia ainda seu rosto – uma ruína forjada pelos golpes sofridos no ringue e por cirurgias plásticas em que, à reconstrução, iam se juntando implantes inexplicáveis.

Rourke entrou na década de 2000, assim, como o emblema da autodestruição, o homem que por nenhuma razão convincente se decidira a perder o Rolls-Royce, as motocicletas de colecionador, a casa de 5 milhões de dólares, a fortuna de muitos milhões mais, a mulher que amava loucamente (segundo ele, só alguém caído do céu poderá suplantar a paixão que ele sentiu por Carré Otis), a carreira que deveria ter sido fulgurante. Não fossem uma ponta aqui outra ali, por caridade de gente como Sylvester Stallone e do diretor Robert Rodriguez, sua existência pública teria se encerrado. O próprio Rourke diz que, de todas as perdas, essa foi a que doeu mais – a do respeito. Durante a filmagem de O Lutador, ele implorou ao diretor Darren Aronofs-ky que não o obrigasse a fazer a cena (aliás, soberba) em que Randy tem de trabalhar no balcão de frios servindo fregueses comuns, não figurantes. Aquela reação que ele desperta, de "você não foi alguém um dia?", mexe com sentimentos insuportáveis, diz. Aronofsky contratou Rourke com uma bronca de franqueza brutal. Enfiou o dedo na cara do ator, disse que ele virara uma piada, que estava correndo um risco insensato porque não conseguia levantar um tostão de financiamento assim que o nome dele era mencionado, e avisou que exigiria obediência e dedicação incondicionais. Como não há nada que Rourke respeite mais do que uma demonstração de valentia, o acordo foi firmado.

Aronofsky, porém, que faz ele próprio um trabalho belíssimo com O Lutador, diz que Rourke é, em certos aspectos, o mesmo de sempre. "Entre o ‘ação’ e o ‘corta’, não existe um ator mais imenso no mundo. O difícil é levar Mickey até lá. Depois de duas tomadas, ele já está perguntando se não pode ir para casa. O caso é que essas duas tomadas são ótimas – mas as que vêm depois são magníficas. Mickey é um ator que precisa ser inspirado e pressionado, porque é um preguiçoso", brinca, mas não muito, Aronofsky. De certa forma, então, o grande teste de Rourke ainda está por vir. Com vários trabalhos já agendados, entre eles uma possível participação em Homem de Ferro 2 e a vinda ao Brasil, em março, para rodar Os Mercenários com Stallone, ele tem a oportunidade de se reerguer de vez – mas não necessariamente contará com um diretor com a inteligência e lealdade de Aronofsky. Daqui para a frente, está de fato sozinho no ringue. Mas, a despeito da arrogância passada, dos instintos autodestrutivos, da humilhação que se impôs, Rourke estava certo em imaginar que o talento é, no fim, a única coisa que realmente importa. O seu ressurgiu com uma potência inalcançável. E é por causa dele, e só dele, que Rourke voltou a existir.

 

"NÃO TENHO NENHUM ORGULHO DE TER ME ARRUINADO"

Desde que O Lutador ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, Mickey Rourke não para de dar entrevistas. Em todas elas, seu tom é o mesmo: o de penitência por ter desperdiçado o que teve. A seguir, trechos de sua conversa exclusiva com VEJA.

As pessoas esperam que você seja grato por seu ressurgimento. É isso mesmo que você sente, gratidão?
Sou grato, sim. Por ter conseguido mudar. Digamos que as mudanças não vêm espontaneamente para mim. Elas resultam de trabalho duro. Não tenho nenhum orgulho de ter me arruinado de maneira tão estrondosa. Se pudesse voltar atrás, não faria igual.

A impressão que se tem é que você continua a carregar toda a sua bagagem – apenas aprendeu como levá-la sem se machucar.
Meus demônios vêm da minha infância; eu tenho de vencê-los todos os dias. Tive de entender que as repercussões do que eu fiz sempre vão estar presentes e que tenho de me controlar e assumir a responsabilidade pelos meus atos. Eu tinha um pavio curtíssimo e, durante muitos anos, achei que podia fazer e dizer o que bem entendesse, sem pensar nas consequências. E, em Hollywood, elas são graves. Eu não tinha as ferramentas – a instrução, a maturidade – para entender o que ser um profissional implica.

Você acha que seria o ator que acaba de demonstrar que é hoje se não tivesse ido até o fundo do poço?
Não, não seria. Absolutamente não.

Você também era um arruaceiro – e deliberadamente, certo?
E como. Além disso, eu me cerquei de outros arruaceiros, de gente cuja companhia não tinha nada de salutar.

Quando seu dinheiro acabou, para onde foram essas pessoas?
Pularam fora. Exceto por dois amigos e por meu irmão, Joey, que ficou ao meu lado até a morte dele, quatro anos atrás. Foi humilhante. E iluminador.

Em um dado momento, sua carreira foi dada como morta. Você mesmo chegou a desistir?
Não. Ter alguma esperança é a única coisa que faz alguém atravessar um deserto como o que eu atravessei. Eu tenho esperança nos punhos e nos nós dos dedos. Não sei desistir.

O boxe massacrou o seu rosto. Isso é um problema?
Quando decidi me arriscar como boxeador profissional, muita gente achou que se tratava de um gesto de autodestruição. Mas era algo de que eu necessitava, para minha paz de espírito. E para me testar como homem. Entrei no ringue para viver até as últimas conse-quências. Mas hoje acho que sei quem eu sou, e não me incomodo mais por ser o que sou. Esse foco, essa concentração, esse sentido de controle sobre o meu destino, eram coisas que eu não tinha antes do boxe.

Não é doloroso revisitar todas essas emoções e fracassos em O Lutador?
Essa, para mim, é a beleza desse papel – eu conheço esse homem de perto. Exceto pelo fato de que, no final, ele está pronto para se ir. E eu não estou. Passei perto de estar, mas não mais.

No seu discurso no Globo de Ouro, você agradeceu aos seus cachorros, dizendo que, às vezes, a única coisa que um homem tem no mundo é o seu cão. Sua solidão foi assim tão completa?
Tenho seis cachorros no momento, todos resgatados de abrigos. Na minha pior fase, meus cães me deram afeto e companheirismo e me ensinaram que posso cuidar de algo vivo, e não só destruir. Eu não estaria aqui se não fosse por eles. Espero reencontrá-los quando morrer. Acho que eles não vão ter nenhuma queixa de mim.

Você é católico praticante. Em algum momento chegou a perder a fé?
Sim, quando meu irmão morreu. Meu padre me disse que essa é uma reação comum ao luto. Agora estou de bem com minha fé. Nunca vou compreender por que meu irmão tinha de morrer, mas aceito que isso tenha acontecido.



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