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Edição 2090

10 de dezembro de 2008
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Economia
Quando o ouro
negro reluz menos

Com a queda do preço do petról eo e a crise
financeira, a Petrobras, como suas similares
do mundo, enfrenta novos desafios


Ronaldo França e Ronaldo Soares

Alan Marques/Folha Imagem

Sergio Lima/Folha Imagem
FOGO CRUZADO
Gabrielli (à esq.) e Jereissati trocaram farpas sobre empréstimo


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Nesta reportagem
Quadro: Impacto profundo

O barril de petróleo cotado abaixo dos 50 dólares no momento em que o mundo passa por uma recessão é, para a indústria petrolífera, como a combinação dos fenômenos climáticos que causam as grandes tempestades. Pode não ser um desastre, mas é melhor se proteger. A receita das empresas cai no momento em que fica mais escasso o crédito internacional para financiar novos projetos. A queda no ritmo da economia mundial faz, a médio prazo, com que o mundo passe a consumir menos petróleo. Enfim, são obstáculos colocados pela crise em um terreno que há bem pouco tempo parecia uma pista de decolagem rumo a um futuro glorioso. A Petrobras, maior empresa brasileira e 25ª no mundo, está no meio dessa tormenta. O valor de suas ações caiu mais de 40% desde o início de outubro até a semana passada. O preço do petróleo despencou 37%, na média mensal. E o dólar saltou de 1,70 real para 2,50 reais, o que é uma fonte de incertezas para uma empresa brasileira. Com todo mundo em pânico, chamou atenção o empréstimo de 2 bilhões de reais tomado às pressas à Caixa Econômica Federal. É normal que uma empresa como a Petrobras se financie com bancos brasileiros ou estrangeiros. Mas, ao explicar a operação, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, presidente do conselho de administração da companhia, referiu-se a "problemas de liquidez", o que aguçou os sentidos dos analistas do mercado financeiro.

O que houve, segundo o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, foi uma coincidência da subida repentina do dólar no momento em que a empresa teve de pagar 11 bilhões de reais em impostos como royalties e participações especiais (o valor que se paga pelo excedente de produção de um campo petrolífero). E tudo isso quando o mercado financeiro mundial está em retração. Os analistas não acreditam que uma companhia como a Petrobras, cuja avaliação pelas empresas de risco é até melhor do que a do Brasil, tenha problemas para se financiar, mesmo com o mundo passando por um enorme problema de crédito. Daí o ruído causado pela declaração da ministra e a incerteza a respeito do impacto que a crise terá sobre a empresa. O petróleo na casa dos 45 dólares está abaixo do que se considera o limite para que a operação do pré-sal seja viável, o que não quer dizer que os testes serão paralisados. "Não temos dúvida de que a exploração ali é sustentável até 40 dólares. O que não sabemos é quanto ao valor para a produção. Essa é a dúvida", afirma Gabrielli. Ou seja, com o barril a esse preço, podem-se mapear as reservas já descobertas do pré-sal, mas talvez não seja possível tirar o petróleo de lá. Outra incerteza que ronda a empresa é sobre os mais de 600 projetos em andamento. "O que posso dizer é que os investimentos de 2009 até 2013 serão maiores do que o do planejamento anterior. Só não sabemos que projetos estarão nele e quais vão sair", diz Gabrielli. Isso significa que a Petrobras investirá mais de 112 bilhões de dólares nos próximos cinco anos e que a construção das refinarias pode, sim, ser adiada.

É natural a preocupação com a Petrobras. A empresa é responsável por 86% de todo o investimento feito pelas estatais brasileiras. Sua verba de investimentos equivale a 35% do Programa de Aceleração do Crescimento. A Petrobras é a rainha no tabuleiro em que o governo Lula joga o xadrez da sucessão presidencial. Quando o senador Tasso Jereissati subiu à tribuna do Senado para denunciar a possível irregularidade na concessão do empréstimo da Caixa, mexeu em vespeiro. Gabrielli acusou-o de estar sendo irresponsável. "Se a empresa estivesse mesmo mal de caixa, o que pode acontecer a qualquer companhia do mundo numa situação dessas, teria quebrado", disse.

A reclamação de Gabrielli é compreensível, assim como as desconfianças da oposição. O uso que o governo federal faz da empresa deixa margem a muitas dúvidas sobre o que pode estar acontecendo. No início do governo Lula, os sindicatos tomaram o poder na estatal. "É verdade que as indicações para a diretoria sempre foram políticas, mas neste governo até as gerências são escolhidas dessa forma", afirma um ex-executivo. O resultado foi o inchaço de 38% do quadro de pessoal. A empresa não desmente os números, mas contesta a sua interpretação. Afirma que foi necessário para a expansão da companhia. Seja como for, a dificuldade será enfrentar a nova realidade com o preço despencando, o dólar subindo ao maior valor desde 2005 e o mundo quebrando. Esse pessoal, além de numeroso, terá de ser muito bom.



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