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Brasil A crise econômica
começou a dar as caras no Brasil com
Um dos ditos mais cruéis sobre crises econômicas busca explicar a diferença entre a recessão e a depressão: "Recessão é quando os outros perdem o emprego. Depressão é quando você perde o emprego". O Brasil, felizmente, não enfrenta ainda nenhum dos dois fenômenos. A economia do país se compara a um automóvel em desaceleração, que ainda segue adiante. Mas os efeitos da crise passaram a ser percebidos com uma intensidade bem superior à de uma simples marola. A turbulência financeira agravada em setembro nos Estados Unidos já atinge a economia real brasileira, despertando justamente o fantasma do desemprego. Nas últimas semanas, diversas empresas anunciaram demissões como forma de ajuste a um cenário econômico muito mais pessimista. Pelo menos 12 000 vagas devem ser eliminadas até o fim do ano. O número ainda é pequeno diante dos 5 milhões de empregos formais criados no país desde o início de 2006, um recorde, mas trata-se de um alerta de que a euforia ficou para trás. O vendaval se aproxima. Os setores mais afetados são justamente aqueles que mais se haviam beneficiado dos tempos de crédito farto, como é o caso dos veículos, dos eletrônicos e da construção civil. Além, é claro, dos exportadores de matérias-primas, impulsionados pela emergência da China como voraz consumidora de commodities, como o minério de ferro e a soja. Esses setores mudaram abruptamente de humor. "Até pouco tempo atrás, perdíamos o sono porque não tínhamos pessoas qualificadas para ocupar os cargos. Hoje, fazemos ginástica para mantê-las conosco", afirma Marco Dalpozzo, diretor global de recursos humanos da mineradora Vale, a maior empresa privada do país. "Precisamos nos adaptar à nova realidade internacional." No fim de outubro, a Vale anunciou a redução de quase 10% (30 milhões de toneladas) de sua produção anual de minério de ferro. Na semana passada, fechou quatro unidades de extração de minérios em Minas Gerais e decidiu demitir 1 300 funcionários. Demissões também foram anunciadas na construção civil, nos bancos e nas montadoras. O setor de autopeças prevê a eliminação de 8.000 postos até o fim deste ano. Nas montadoras, 50.000 funcionários entrarão em férias coletivas.
Isso significa que a economia brasileira será engolida pela crise? Não necessariamente. Para a indústria automobilística, por exemplo, a previsão é que os ajustes sejam transitórios e as vendas voltem a crescer tão logo a crise seja debelada, como mostra reportagem. A maior parte das empresas do setor mantém seus projetos de investimentos e acredita que o Brasil segue como um dos mercados mais promissores para os próximos anos. A ressalva, no entanto, não reduz o drama dos demitidos. O ajuste feito até aqui tem afetado principalmente os trabalhadores da classe média, os últimos a se beneficiar da melhora do mercado de trabalho. "Mesmo antes de a crise piorar, havia a percepção de que a classe média seria a primeira a sofrer. Agora, esse grupo de empregados será o primeiro a ser cortado, já que ganha relativamente bem e representa um custo mais identificável", afirma o economista Sérgio Vale, da MB Associados. Essa onda inicial de anúncios de demissões e férias coletivas, no entanto, ainda está longe de se transformar em uma catástrofe como a que se abate sobre a economia americana lá, a economia está em recessão e quase 2 milhões de empregos foram sacrificados neste ano (leia a reportagem seguinte). A economia brasileira tem se mostrado mais resistente a intempéries do que no passado, e, apesar de uma retração na atividade prevista para durar até o primeiro trimestre de 2009, a expectativa é que, a partir de meados do próximo ano, a locomotiva retorne aos trilhos e volte a acelerar-se. Se isso se confirmar, o aumento do desemprego não será agora tão acentuado como o registrado em 2003, quando a taxa alcançou 13% (hoje, esse índice está em 7,5%, o segundo menor desde que a atual pesquisa começou a ser feita, em 2002). Segundo projeções do economista Fábio Romão, da LCA Consultores, o número de vagas abertas será superior à quantidade de postos fechados, mesmo no ano que vem. Para o analista, haverá a criação de 1,2 milhão de empregos com carteira assinada uma queda em relação aos 2 milhões de postos abertos em 2008, mas, sem dúvida, um número positivo em meio à mais severa crise financeira internacional desde a Grande Depressão de 1930. O governo decidiu se mexer afinal, a popularidade assombrosa do governo Lula, que bateu o recorde de 70% de aprovação, deve-se muito ao aumento da oferta de trabalho e da renda dos brasileiros. Na última sexta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, reuniu-se com empresários na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e afirmou que planeja editar um novo pacote de medidas a ser apresentado ainda nesta semana. A idéia é estimular aquelas atividades que criam mais empregos. Entre as iniciativas discutidas estariam a redução de IOF sobre operação de crédito, a ampliação do seguro-desemprego de cinco para dez meses, a redução temporária da alíquota do imposto de renda para pessoa física, além de estímulos fiscais para a agricultura, a indústria automobilística, a produção de energia e o setor de máquinas. A ministra da Casa Civil e possível candidata petista à Presidência, Dilma Rousseff, exibiu otimismo: "Temos os instrumentos para combater o desemprego. Essa é uma das questões centrais do governo: não deixar que haja uma queda na oferta do emprego que comprometa tudo o que conquistamos até agora". Já o presidente Lula, num discurso memorável feito na quinta-feira passada, lembrou as virtudes adquiridas pela economia do país e chegou a se dizer um "dom Quixote" do otimismo (veja o quadro abaixo). Por enquanto, o presidente segue em sintonia com a opinião pública. Nada menos que 42% dos brasileiros concordam, total ou parcialmente, com a frase dita por Lula no início de outubro: "Lá fora, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai ser uma marolinha". Mas os brasileiros estão cientes dos riscos e da gravidade da situação. Ao menos 68% dos entrevistados acreditam que "nenhum país está a salvo e todos serão atingidos pela crise".
O Brasil, nunca é demais lembrar, ainda resiste bravamente à tormenta externa, algo muito diferente da crise de 2002, que lançou o país na recessão do início de 2003. Naquele período, a economia era muito mais vulnerável, as reservas internacionais se derreteram rapidamente, a inflação fugiu do controle e o governo teve de correr ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Hoje, o país tem um colchão de reservas acima de 200 bilhões de dólares e a inflação segue dentro da meta. Além disso, conquistou novos "troféus", como o grau de investimento, obtido em abril. Diante da atual crise, o governo também tem agido com eficiência. O Banco Central foi o ator principal na injeção de liquidez no sistema. Só na redução de compulsórios (dinheiro que os bancos são obrigados a deixar no BC), foram 94 bilhões de reais. Houve também o direcionamento de mais 31 bilhões de reais para socorrer os bancos pequenos e médios, os mais impactados pela escassez de crédito internacional, além de linhas de ajuda à exportação. Mesmo assim, os esforços do governo não contiveram a alta do dólar, que ultrapassou a marca dos 2,50 reais na última semana, a maior cotação desde abril de 2005 Medidas anticrise são bem-vindas. Mas é a serenidade na condução das finanças do país que, acima de qualquer pacote emergencial, blindará o país contra o vendaval gelado que se aproxima a cada dia.
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