Auto-Retrato
Alice Schroeder
A analista de investimentos Alice Schroeder escreveu A
Bola de Neve, biografia autorizada do lendário
investidor americano Warren Buffett. O livro, cujo título
é uma referência à capacidade do financista
de acumular dinheiro, resultou de um esforço de cinco
anos. Para escrevê-lo, Alice e Buffett jantaram ou almoçaram
semanalmente sempre em restaurantes de carnes ou panquecas,
exigência de seu biografado, o homem mais rico do mundo.
Conversaram ao telefone com freqüência, às
vezes por horas. Alice descreveu à repórter
Cíntia Borsato a rotina e a filosofia de vida do investidor
mais importante do capitalismo.
Sua pesquisa
para o livro acabou em maio passado, quatro meses antes da
quebra do banco Lehman Brothers e da eclosão da crise
financeira. Warren Buffett tinha noção do que
viria?
Ele dizia que estávamos vivendo em tempos estranhos.
Que estávamos entrando em um mundo diferente, que ninguém
sabia o que iria acontecer. Mas, se Buffett tivesse de apostar,
diria, naquele momento, que a crise seria longa e profunda.
Mesmo assim, e talvez especialmente por isso, ele via oportunidades
imediatas de lucro em "algumas coisas esquisitas no mercado
de crédito" que não entendia muito bem
e que não recomendava aos cidadãos comuns. Buffett
tinha muita vontade de aprender o funcionamento desses derivativos
do mercado de hipotecas.
Como vocês
se conheceram?
Como analista financeira, eu acompanhava as ações
de uma empresa adquirida pela Berkshire Hathaway, a holding
de Buffett. Logo depois, comecei a me interessar pelos resultados
da própria Berkshire. Tornei-me a única analista
com quem ele conversava. Aos poucos, ficamos amigos. Ele me
apoiou quando decidi escrever sobre sua história. Disse
que era uma boa idéia, já que nunca faria uma
autobiografia.
Como é
a rotina de Buffett?
Na maior parte dos dias, ele não tem nenhum compromisso
na agenda. Só faz o que lhe dá vontade. Perdi
a conta de quantas vezes fomos jantar sem muito planejamento.
Primeiro, íamos a restaurantes de carnes. Até
enjoei de tanta carne. Depois, Buffett passou a me levar a
restaurantes de panquecas. Ganhei quase 4 quilos durante esses
encontros. Ele não come vegetais. Só frituras.
Ele ama batata.
Como ele aproveita
sua riqueza?
Buffett não se importa com luxo. Gosta de conviver
com amigos, de ir a shows em Las Vegas, de ver bons filmes.
Essas coisas não custam muito dinheiro. Ele acha que
ter iates, casas e fazendas com cavalos dá muito trabalho
é preciso gerenciar as propriedades, cuidar
delas. Ele gosta de ganhar dinheiro. Isso para ele é
divertido. É como um jogo.
Como foi a infância
de Buffett?
Ele achava que as pessoas jamais gostariam dele por sua essência.
Parte de sua preocupação era justamente chamar
atenção, ganhar respeito. Desde cedo teve tino
comercial. Durante as férias da família, ele
vendia Coca-Cola para banhistas na margem do Lago Okoboji,
em Iowa. Vendeu bolas de golfe, além de amendoim e
pipoca nos jogos de futebol americano.
Você diz
que a convivência com Buffett mudou sua própria
vida. É isso mesmo?
Ele me ensinou que eu não deveria pensar em ser feliz
apenas aos 70 anos, quando, segundo meus planos, eu teria
tempo para viajar pelo mundo. Na verdade, tenho de ser feliz
hoje, aos 50. Foi isso que ele me ensinou. Se você tiver
de fazer algo realmente decisivo, tem de ser agora. Eu acabei
me divorciando. Percebi que meu casamento não era feliz.
Tanto eu quanto meu ex-marido estamos mais felizes hoje. Graças
a Buffett.