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Edição 2090

10 de dezembro de 2008
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Alice Schroeder

Tracey Toler

"Warren Buffett me ensinou a ser feliz hoje, não daqui a vinte anos"


A analista de investimentos Alice Schroeder escreveu A Bola de Neve, biografia autorizada do lendário investidor americano Warren Buffett. O livro, cujo título é uma referência à capacidade do financista de acumular dinheiro, resultou de um esforço de cinco anos. Para escrevê-lo, Alice e Buffett jantaram ou almoçaram semanalmente – sempre em restaurantes de carnes ou panquecas, exigência de seu biografado, o homem mais rico do mundo. Conversaram ao telefone com freqüência, às vezes por horas. Alice descreveu à repórter Cíntia Borsato a rotina e a filosofia de vida do investidor mais importante do capitalismo.

Sua pesquisa para o livro acabou em maio passado, quatro meses antes da quebra do banco Lehman Brothers e da eclosão da crise financeira. Warren Buffett tinha noção do que viria?
Ele dizia que estávamos vivendo em tempos estranhos. Que estávamos entrando em um mundo diferente, que ninguém sabia o que iria acontecer. Mas, se Buffett tivesse de apostar, diria, naquele momento, que a crise seria longa e profunda. Mesmo assim, e talvez especialmente por isso, ele via oportunidades imediatas de lucro em "algumas coisas esquisitas no mercado de crédito" que não entendia muito bem e que não recomendava aos cidadãos comuns. Buffett tinha muita vontade de aprender o funcionamento desses derivativos do mercado de hipotecas.

Como vocês se conheceram?
Como analista financeira, eu acompanhava as ações de uma empresa adquirida pela Berkshire Hathaway, a holding de Buffett. Logo depois, comecei a me interessar pelos resultados da própria Berkshire. Tornei-me a única analista com quem ele conversava. Aos poucos, ficamos amigos. Ele me apoiou quando decidi escrever sobre sua história. Disse que era uma boa idéia, já que nunca faria uma autobiografia.

Como é a rotina de Buffett?
Na maior parte dos dias, ele não tem nenhum compromisso na agenda. Só faz o que lhe dá vontade. Perdi a conta de quantas vezes fomos jantar sem muito planejamento. Primeiro, íamos a restaurantes de carnes. Até enjoei de tanta carne. Depois, Buffett passou a me levar a restaurantes de panquecas. Ganhei quase 4 quilos durante esses encontros. Ele não come vegetais. Só frituras. Ele ama batata.

Como ele aproveita sua riqueza?
Buffett não se importa com luxo. Gosta de conviver com amigos, de ir a shows em Las Vegas, de ver bons filmes. Essas coisas não custam muito dinheiro. Ele acha que ter iates, casas e fazendas com cavalos dá muito trabalho – é preciso gerenciar as propriedades, cuidar delas. Ele gosta de ganhar dinheiro. Isso para ele é divertido. É como um jogo.

Como foi a infância de Buffett?
Ele achava que as pessoas jamais gostariam dele por sua essência. Parte de sua preocupação era justamente chamar atenção, ganhar respeito. Desde cedo teve tino comercial. Durante as férias da família, ele vendia Coca-Cola para banhistas na margem do Lago Okoboji, em Iowa. Vendeu bolas de golfe, além de amendoim e pipoca nos jogos de futebol americano.

Você diz que a convivência com Buffett mudou sua própria vida. É isso mesmo?
Ele me ensinou que eu não deveria pensar em ser feliz apenas aos 70 anos, quando, segundo meus planos, eu teria tempo para viajar pelo mundo. Na verdade, tenho de ser feliz hoje, aos 50. Foi isso que ele me ensinou. Se você tiver de fazer algo realmente decisivo, tem de ser agora. Eu acabei me divorciando. Percebi que meu casamento não era feliz. Tanto eu quanto meu ex-marido estamos mais felizes hoje. Graças a Buffett.



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