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Livros
Dores da paixão
Cartas
revelam um terremoto afetivo na
vida da pintora modernista Tarsila do Amaral

Marcelo
Marthe
Fotos divulgação
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| Tarsila:
ela foi o elo fraco num triângulo amoroso com muita angústia
e dor-de-cotovelo |
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A pintora
Tarsila do Amaral foi uma mulher avançada para seu tempo.
Nos anos 20, quando São Paulo era provinciana, Tarsila chocou
a elite local incluindo sua família, um clã
de barões do café ao envolver-se na agitação
modernista. Na contramão da pintura acadêmica, produziu
telas sob influência cubista que se tornaram símbolos
do movimento. No plano pessoal, a artista também desafiou
convenções. Numa época em que o divórcio
era tabu, casou e descasou quatro vezes. O terremoto afetivo causado
por um desses episódios acaba de vir a público. Trata-se
da separação de Tarsila e seu último marido,
o jornalista carioca Luís Martins, com quem ela viveu de
1933 a 1951. O livro Aí Vai Meu Coração
(Planeta; 246 páginas; 79,90 reais) reconstitui o
caso por meio das cartas enviadas a Martins por Tarsila e pela escritora
Anna Maria Martins, pivô do fim do casamento. Elas compõem
uma história de triângulo amoroso com traição,
fofocas e dor-de-cotovelo. "Vivo tão descontrolada que não
consigo conter as lágrimas", escreve Anna Maria, num momento
crítico. "Não queria mudar minha vida, mas o destino
obrigou-me a isso. Aceito de cabeça baixa", diz Tarsila,
com a separação já consumada.
Entre
os vértices do triângulo, as diferenças de idade
eram consideráveis. Tarsila tinha 64 anos quando foi abandonada
e Martins, 43. Anna Maria a única ainda viva, com
79 anos, e cuja filha, Ana Luisa, compilou o material do livro
era dezessete anos mais nova que ele. Em suas cartas, Tarsila reconhece
que a diferença de idade se tornara insustentável.
Vínculos familiares também aumentaram o imbróglio:
Anna Maria era filha de uma prima da pintora. Depois de meses de
namoro sigiloso, em agosto de 1951 ela contou tudo a Tarsila. E
daí até setembro do ano seguinte, quando se casou
com Martins, o clima foi de turbulência. As cartas concentram-se
nesse período. Tarsila suplicava pela volta do amado: "Querido,
as saudades continuam. Tenho pedido a Deus que o inspire para que
haja uma solução justa e humana". Insegura, Anna Maria
temia que Martins se relacionasse com ambas e rechaçava esse
"tristíssimo ménage à trois". "Fique com Tarsila,
Luís. Ela talvez concorde em repartir você com outras",
ironiza. A pintora, farta das insinuações, chama Anna
Maria de "louquinha da família". O livro não traz
as cartas de Martins às duas. Mas suas opiniões vêm
à tona nas crônicas que ele escrevia para o jornal
O Estado de S. Paulo. Ao publicar alegorias indiscretas sobre
seus problemas de alcova, Martins irritava a ambas.
Divulgação
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| Martins:
ele lavava a roupa suja em crônicas de jornal |
Quando a poeira assentou, Tarsila ajudou o ex no esforço
de ganhar a confiança dos pais de Anna Maria. Martins pede
que ela preencha uma espécie de atestado de antecedentes,
para mostrar-lhes que ele não era um escroque. Nas respostas
da artista se percebe que sua situação financeira
era péssima quando o conheceu: como ela mal conseguia viver
de seus quadros e vira os negócios da família ruírem
na crise de 1929, era Martins quem pagava as contas.
"Em
certa medida, cada casamento da pintora correspondeu a uma de suas
fases", diz Nádia Battella Gotlib, biógrafa de Tarsila.
Nos anos 10, quando ainda se comportava como moça de família
e fazia pintura acadêmica, a artista teve um casamento arranjado
de duração efêmera. Nos anos 20, formou com
o escritor Oswald de Andrade o casal "Tarsiwald", na crista da agitação
modernista. Oswald a trocaria pela escritora Patrícia Galvão,
a Pagu, que era mais jovem. Enquanto viveu com o psiquiatra Osório
César, nos anos 30, Tarsila flertou com o comunismo e produziu
telas de temática proletária. Mas o casamento durou
só até ela ser presa por subversão e se desencantar
da militância. A relação com Luís Martins
assinalou um período de equilíbrio. Mas não
no campo artístico: nessa época, já despontavam
a falta de rumo e a nostalgia que marcariam a maioria de suas telas
até o fim da carreira. Ao morrer, em 1973, aos 86 anos, Tarsila
tinha poucas posses. Não deixa de ser irônico que sua
obra-prima, Abaporu, tenha sido vendida nos anos 90 por 1,4
milhão de dólares, um dos maiores valores já
pagos por uma tela de artista brasileiro.
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"Meu
Luís querido,
Ah, como estou sofrendo com tua carta! Tudo quanto você
me diz, já ouvi de sua boca muitas vezes, quando
você voltava de madrugada para casa... Você
me diz que eu 'inadvertidamente' consenti no seu amor
e que nesse dia eu o fiz 'o mais infeliz dos homens'.
Ainda hoje, dizia comigo: 'Se o Luís não
me tivesse negado que havia uma outra mulher na vida
dele, a minha reação seria igual à
que tive posteriormente, quando ela me telefonou'. Eu
tinha certeza de que você não falava a
sério. Tinha confiança na minha situação.
São coisas do destino... Mas por que, meu Deus,
por que tanto sofrimento? Ah! Se eu pudesse ser indiferente
a você."
Carta
enviada por Tarsila do Amaral ao jornalista Luís Martins
em janeiro de 1952, depois da separação do casal
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