Edição 1832 . 10 de dezembro de 2003

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Livros
Dores da paixão

Cartas revelam um terremoto afetivo na
vida da pintora modernista Tarsila do Amaral


Marcelo Marthe

Fotos divulgação
Tarsila: ela foi o elo fraco num triângulo amoroso com muita angústia e dor-de-cotovelo

Trechos do livro

A pintora Tarsila do Amaral foi uma mulher avançada para seu tempo. Nos anos 20, quando São Paulo era provinciana, Tarsila chocou a elite local – incluindo sua família, um clã de barões do café – ao envolver-se na agitação modernista. Na contramão da pintura acadêmica, produziu telas sob influência cubista que se tornaram símbolos do movimento. No plano pessoal, a artista também desafiou convenções. Numa época em que o divórcio era tabu, casou e descasou quatro vezes. O terremoto afetivo causado por um desses episódios acaba de vir a público. Trata-se da separação de Tarsila e seu último marido, o jornalista carioca Luís Martins, com quem ela viveu de 1933 a 1951. O livro Aí Vai Meu Coração (Planeta; 246 páginas; 79,90 reais) reconstitui o caso por meio das cartas enviadas a Martins por Tarsila e pela escritora Anna Maria Martins, pivô do fim do casamento. Elas compõem uma história de triângulo amoroso com traição, fofocas e dor-de-cotovelo. "Vivo tão descontrolada que não consigo conter as lágrimas", escreve Anna Maria, num momento crítico. "Não queria mudar minha vida, mas o destino obrigou-me a isso. Aceito de cabeça baixa", diz Tarsila, com a separação já consumada.

Entre os vértices do triângulo, as diferenças de idade eram consideráveis. Tarsila tinha 64 anos quando foi abandonada e Martins, 43. Anna Maria – a única ainda viva, com 79 anos, e cuja filha, Ana Luisa, compilou o material do livro – era dezessete anos mais nova que ele. Em suas cartas, Tarsila reconhece que a diferença de idade se tornara insustentável. Vínculos familiares também aumentaram o imbróglio: Anna Maria era filha de uma prima da pintora. Depois de meses de namoro sigiloso, em agosto de 1951 ela contou tudo a Tarsila. E daí até setembro do ano seguinte, quando se casou com Martins, o clima foi de turbulência. As cartas concentram-se nesse período. Tarsila suplicava pela volta do amado: "Querido, as saudades continuam. Tenho pedido a Deus que o inspire para que haja uma solução justa e humana". Insegura, Anna Maria temia que Martins se relacionasse com ambas e rechaçava esse "tristíssimo ménage à trois". "Fique com Tarsila, Luís. Ela talvez concorde em repartir você com outras", ironiza. A pintora, farta das insinuações, chama Anna Maria de "louquinha da família". O livro não traz as cartas de Martins às duas. Mas suas opiniões vêm à tona nas crônicas que ele escrevia para o jornal O Estado de S. Paulo. Ao publicar alegorias indiscretas sobre seus problemas de alcova, Martins irritava a ambas.

Divulgação
Martins: ele lavava a roupa suja em crônicas de jornal


Quando a poeira assentou, Tarsila ajudou o ex no esforço de ganhar a confiança dos pais de Anna Maria. Martins pede que ela preencha uma espécie de atestado de antecedentes, para mostrar-lhes que ele não era um escroque. Nas respostas da artista se percebe que sua situação financeira era péssima quando o conheceu: como ela mal conseguia viver de seus quadros e vira os negócios da família ruírem na crise de 1929, era Martins quem pagava as contas.

"Em certa medida, cada casamento da pintora correspondeu a uma de suas fases", diz Nádia Battella Gotlib, biógrafa de Tarsila. Nos anos 10, quando ainda se comportava como moça de família e fazia pintura acadêmica, a artista teve um casamento arranjado de duração efêmera. Nos anos 20, formou com o escritor Oswald de Andrade o casal "Tarsiwald", na crista da agitação modernista. Oswald a trocaria pela escritora Patrícia Galvão, a Pagu, que era mais jovem. Enquanto viveu com o psiquiatra Osório César, nos anos 30, Tarsila flertou com o comunismo e produziu telas de temática proletária. Mas o casamento durou só até ela ser presa por subversão e se desencantar da militância. A relação com Luís Martins assinalou um período de equilíbrio. Mas não no campo artístico: nessa época, já despontavam a falta de rumo e a nostalgia que marcariam a maioria de suas telas até o fim da carreira. Ao morrer, em 1973, aos 86 anos, Tarsila tinha poucas posses. Não deixa de ser irônico que sua obra-prima, Abaporu, tenha sido vendida nos anos 90 por 1,4 milhão de dólares, um dos maiores valores já pagos por uma tela de artista brasileiro.

 

"Meu Luís querido,

Ah, como estou sofrendo com tua carta! Tudo quanto você me diz, já ouvi de sua boca muitas vezes, quando você voltava de madrugada para casa... Você me diz que eu 'inadvertidamente' consenti no seu amor e que nesse dia eu o fiz 'o mais infeliz dos homens'. Ainda hoje, dizia comigo: 'Se o Luís não me tivesse negado que havia uma outra mulher na vida dele, a minha reação seria igual à que tive posteriormente, quando ela me telefonou'. Eu tinha certeza de que você não falava a sério. Tinha confiança na minha situação. São coisas do destino... Mas por que, meu Deus, por que tanto sofrimento? Ah! Se eu pudesse ser indiferente a você."

Carta enviada por Tarsila do Amaral ao jornalista Luís Martins
em janeiro de 1952, depois da separação do casal

 
 
 
 
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