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Livros
O grau dez da escritura
Otavio Frias Filho mostra seu
talento de
repórter e ensaísta
na coletânea Queda Livre

Mario
Sabino
Flavio de Souza
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Preparo
da ayahuasca: o chá
do Santo Daime
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A grande reportagem é um gênero no qual se procura
cancelar a essência da produção jornalística:
a efemeridade. Daí, inclusive, o epíteto "grande".
Poucos, no entanto, são aqueles que, ao aventurar-se nesse
terreno, conseguem alcançar uma dimensão que transcenda
tempo e espaço. Uma dimensão literária, para
ser mais exato. Otavio Frias Filho, diretor de redação
do jornal Folha de S. Paulo, atingiu esse objetivo nas sete
reportagens que compõem Queda Livre (Companhia das
Letras; 287 páginas; 37 reais). Tanto que é melhor
mesmo chamá-las de ensaios, em concordância com o subtítulo
do livro, Ensaios de Risco.
Os riscos concretos, aqui, são de diferentes tipos e magnitudes.
Otavio fala da experiência pessoal de saltar de pára-quedas,
de embarcar numa viagem de submarino (e submarino nacional), de
experimentar a beberagem que embala o misticismo da seita do Santo
Daime, de participar como ator de duas montagens do diretor teatral
José Celso Martinez Corrêa, de refazer o caminho de
Santiago, de adentrar o universo dos clubes de troca de casais e
de trabalhar como voluntário no Centro de Valorização
da Vida (CVV), um serviço telefônico que tenta atenuar
a angústia de solitários e potenciais suicidas. Vivências
por si só interessantes, que se tornam ainda mais atraentes
tão logo o leitor se dá conta de que o verdadeiro
risco enfrentado por Otavio pertence à esfera do subjetivo:
ao despir-se de sua condição de diretor de um grande
jornal e utilizar sem nenhum traço de arrogância as
suas sólidas referências intelectuais de "embaixador
da razão" (para usar uma ironia do próprio autor),
ele expõe fraquezas, dúvidas, fracassos e perplexidades
como raramente alguém tem coragem de expor em público.
Esse parece ser, aliás, um dos motivos que o levam a mergulhar
nas situações descritas com minúcias de ourives
a autodissecação.
Não se trata de literatura confessional. Os ensaios de Otavio
são, no final das contas, estudos sobre a alma humana em
que ele se coloca no papel de cobaia. Lembram, pela forma, os ótimos
textos publicados na revista New Yorker. Mas o autor é
uma cobaia que está, ao mesmo tempo, imersa na realidade
circunstante e distanciada dela. Nessa operação, estabelece
uma tensão permanente entre o racional e o irracional, entre
o igual e o diferente, entre o que é limite e o que é
ferida narcísica. No último parágrafo do ensaio
sobre sua experiência no CVV, "O Abismo", que aborda de maneira
comovente a tentação do suicídio e encerra
Queda Livre, Otavio escreve: "Se persistia alguma inclinação
autodestrutiva, oculta sob o projeto do livro, sua realização
parece tê-la dissipado. Havia ampliado minhas faculdades para
sentir e compreender, desafiado meus pesadelos inconfessáveis
e me achava agora um pouco mais à vontade dentro de mim mesmo.
Pensava na divisa de Emerson, I must be myself. Ainda tomado
pelos mesmos temores de sempre, mas de coração mais
leve, sem atribuir importância tão peremptória
seja à vida, seja à morte, eu me voltava para os dias
que estão por vir com a confiança de que poderia,
com alguma sorte, se quisesse, torná-los melhores para mim
e para os outros". Humano, demasiado humano. Definitivamente isso
não é pouco.
| Miragens
do Eldorado |
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"Aos
poucos, fui abandonado pelo pavor de escorpiões,
aranhas, cobras e onças, para me concentrar no
que estava por vir. Pensava em como dirigir a palavra
ao atual líder da seita quando o encontrasse
(Padrinho Alfredo, I presume?) e percorria todas
as fantasias nutridas em tantos meses de preparativos,
com destaque para aquela em que me via na contingência
de ter de escapar de uma seita satânica em plena
Amazônia. Foi nesse estado de espírito
que, pouco antes das três da tarde, 26 horas depois
de haver embarcado no aeroporto de São Paulo,
ainda sob a irradiação perpendicular do
sol nessas baixas latitudes, divisei os telhados prateados
da Vila do Céu do Mapiá, que faiscavam
à distância como miragens do Eldorado."
Trecho da reportagem "Viagem ao Mapiá"
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