Edição 1832 . 10 de dezembro de 2003

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O grau dez da escritura

Otavio Frias Filho mostra seu
talento de
repórter e ensaísta
na coletânea Queda Livre


Mario Sabino

Flavio de Souza

Preparo da ayahuasca: o chá do Santo Daime


A grande reportagem é um gênero no qual se procura cancelar a essência da produção jornalística: a efemeridade. Daí, inclusive, o epíteto "grande". Poucos, no entanto, são aqueles que, ao aventurar-se nesse terreno, conseguem alcançar uma dimensão que transcenda tempo e espaço. Uma dimensão literária, para ser mais exato. Otavio Frias Filho, diretor de redação do jornal Folha de S. Paulo, atingiu esse objetivo nas sete reportagens que compõem Queda Livre (Companhia das Letras; 287 páginas; 37 reais). Tanto que é melhor mesmo chamá-las de ensaios, em concordância com o subtítulo do livro, Ensaios de Risco.

Os riscos concretos, aqui, são de diferentes tipos e magnitudes. Otavio fala da experiência pessoal de saltar de pára-quedas, de embarcar numa viagem de submarino (e submarino nacional), de experimentar a beberagem que embala o misticismo da seita do Santo Daime, de participar como ator de duas montagens do diretor teatral José Celso Martinez Corrêa, de refazer o caminho de Santiago, de adentrar o universo dos clubes de troca de casais e de trabalhar como voluntário no Centro de Valorização da Vida (CVV), um serviço telefônico que tenta atenuar a angústia de solitários e potenciais suicidas. Vivências por si só interessantes, que se tornam ainda mais atraentes tão logo o leitor se dá conta de que o verdadeiro risco enfrentado por Otavio pertence à esfera do subjetivo: ao despir-se de sua condição de diretor de um grande jornal e utilizar sem nenhum traço de arrogância as suas sólidas referências intelectuais de "embaixador da razão" (para usar uma ironia do próprio autor), ele expõe fraquezas, dúvidas, fracassos e perplexidades como raramente alguém tem coragem de expor em público. Esse parece ser, aliás, um dos motivos que o levam a mergulhar nas situações descritas com minúcias de ourives – a autodissecação.

Não se trata de literatura confessional. Os ensaios de Otavio são, no final das contas, estudos sobre a alma humana em que ele se coloca no papel de cobaia. Lembram, pela forma, os ótimos textos publicados na revista New Yorker. Mas o autor é uma cobaia que está, ao mesmo tempo, imersa na realidade circunstante e distanciada dela. Nessa operação, estabelece uma tensão permanente entre o racional e o irracional, entre o igual e o diferente, entre o que é limite e o que é ferida narcísica. No último parágrafo do ensaio sobre sua experiência no CVV, "O Abismo", que aborda de maneira comovente a tentação do suicídio e encerra Queda Livre, Otavio escreve: "Se persistia alguma inclinação autodestrutiva, oculta sob o projeto do livro, sua realização parece tê-la dissipado. Havia ampliado minhas faculdades para sentir e compreender, desafiado meus pesadelos inconfessáveis e me achava agora um pouco mais à vontade dentro de mim mesmo. Pensava na divisa de Emerson, I must be myself. Ainda tomado pelos mesmos temores de sempre, mas de coração mais leve, sem atribuir importância tão peremptória seja à vida, seja à morte, eu me voltava para os dias que estão por vir com a confiança de que poderia, com alguma sorte, se quisesse, torná-los melhores para mim e para os outros". Humano, demasiado humano. Definitivamente isso não é pouco.

 
Miragens do Eldorado

"Aos poucos, fui abandonado pelo pavor de escorpiões, aranhas, cobras e onças, para me concentrar no que estava por vir. Pensava em como dirigir a palavra ao atual líder da seita quando o encontrasse (Padrinho Alfredo, I presume?) e percorria todas as fantasias nutridas em tantos meses de preparativos, com destaque para aquela em que me via na contingência de ter de escapar de uma seita satânica em plena Amazônia. Foi nesse estado de espírito que, pouco antes das três da tarde, 26 horas depois de haver embarcado no aeroporto de São Paulo, ainda sob a irradiação perpendicular do sol nessas baixas latitudes, divisei os telhados prateados da Vila do Céu do Mapiá, que faiscavam à distância como miragens do Eldorado."

Trecho da reportagem "Viagem ao Mapiá"

 
 
 
 
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