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Beleza
A
reinvenção do sabonete
Na
Lush, loja de cosméticos com estilo
próprio, nada é o que parece, e tudo
tem cheiro (e até gosto) muito bom

Silvia Rogar, de Poole
Pedro Rubens
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| Loja
da Lush: artigos expostos como se fosse em uma antiga mercearia
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Primeiro,
é o cheiro. Quem passa em frente a uma loja da rede é
praticamente arrastado para dentro pelo bombardeio de aromas deliciosos.
Depois vem o ataque visual. Tudo colorido, bonito, diferente. Sair
sem pelo menos um pacotinho ele próprio muito criativo
é quase impossível. Dentro, um simples sabonete,
que de simples tem muito pouco. O negócio fundado por três
ex-hippies na pequena cidade de Poole, na costa sul da Inglaterra,
reinventou o sabonete, literalmente. De produtos padronizados, massificados,
que há décadas ninguém mais tinha ânimo
de oferecer de presente, os sabonetes recuperaram o status de objetos
de desejo. Marca de cosméticos inusitados, a Lush começou
num fundo de quintal em 1994 e hoje conta com 211 lojas exclusivas
em 29 países, sendo quinze no Brasil, onde se deu muitíssimo
bem São Paulo tem mais pontos-de-venda Lush (nove
lojas e um quiosque) do que Londres (seis). De junho de 2002 a julho
deste ano, a empresa faturou o equivalente a 215 milhões
de reais vendendo sabonetes em formato de chocolate e de queijo,
espuma de banho que parece bomba e xampus sólidos, que vão
parar no banheiro de gente famosa como a cantora Madonna e a atriz
Sarah Jessica Parker.
Pedro Rubens
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| Máscaras
de frutas e bolas efervescentes para a banheira: formas inusitadas
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Vez
por outra, há casos de clientes que voltam à loja
reclamando que o sabonete não fez espuma. Resposta: não
era sabonete, e sim "barra de massagem", uma espécie de óleo
em forma sólida. Também é comum a pessoa se
encantar com as multicoloridas bolas que se dissolvem como pastilha
efervescente na água da banheira e resolver levar logo duas
ou três para só em casa lembrar que nem banheira
possui. "Temos humor e paixão pelo nosso negócio.
As idéias surgem do jeito mais simples, como numa temporada
de férias na praia ou depois de uma ida ao supermercado",
diz Rowena Bird, que ao lado de Mark Constantine e Helen Ambrosen
começou a fabricar cosméticos feitos a mão,
com produtos naturais, no fim da década de 70. Foi de Constantine,
que sempre gostou da forma como as mercearias expõem frutas
e verduras, a idéia de que as lojas da marca seguissem o
mesmo estilo. Os sabonetes, por exemplo, podem ser cortados na hora
e vendidos a peso (a partir de 8 reais cada 100 gramas). Pratinhos
expõem "quitutes" praticamente comestíveis. Os cosméticos
são batizados com nomes engraçados a espuma
de banho Sex Bomb é uma das campeãs de venda.
Fotos divulgação Lush
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| Helen
e Rowena: as fundadoras testam os próprios produtos, como a
barra de massagem Amazônia (à dir.) |
A história
da Lush começou quando Helen, especialista em botânica,
teve uma irritação de pele e procurou o consultório
dos esteticistas Constantine e Rowena. Ela não só
resolveu o problema como se juntou à dupla para pesquisar
produtos de beleza feitos com ingredientes naturais. As primeiras
criações foram oferecidas, em 1978, à Body
Shop, a famosa rede inglesa de cosméticos politicamente corretos,
que imediatamente comprou a idéia. O trio chegou a fornecer
40% dos produtos da marca, até decidir partir para o negócio
próprio, em 1988. Por força de contrato, não
poderiam abrir lojas num prazo de cinco anos, e foi assim que iniciaram
um sistema de vendas por catálogo, a Cosmetics to Go. Deu
tudo errado. O projeto naufragou por má administração,
uma enchente inundou a fábrica e eles perderam tudo o que
haviam investido. Quebrada, mas idealista, a trinca perseverou e,
passados os tais cinco anos, inaugurou a Lush, em 1994. Sem dinheiro,
eles precisaram ser criativos. "Inovamos ao fazer xampus sólidos,
por exemplo. Para nós, a vantagem é que não
precisavam de embalagem", conta Helen, a alquimista do grupo. Hoje,
a Lush tem 3.000 funcionários
para cuidar de seus cosméticos sempre artesanais, feitos
com ingredientes frescos e poucos conservantes. Praticamente não
existe investimento em publicidade; o sucesso é na base do
boca-a-boca. Fiel ao ideário anos 70, a Lush se impõe
rígidas regras de conduta. "Não só não
testamos nada em animais como não compramos matéria-prima
de empresas que o façam", assegura Rowena. Exagerar na propaganda,
como é da natureza das empresas de cosméticos, também
contraria o estilo bicho-grilo. Nenhum produto Lush promete acabar
com rugas, por exemplo. "Envelhecer é natural. Nós
procuramos estimular a pele a permanecer boa por mais tempo", diz
Rowena.
Pedro Rubens
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Divulgação Lush
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| Para
massagear: a After Eight-Thirty tem sabor de menta e chocolate
e deve ser usada, de preferência, a dois |
Fábrica
diferente: hip hop para preparar a Big Blue, espuma de banho
de algas e sais marinhos |
Em
geral, são mesmo as donas da Lush, e também Mo, casada
com Constantine, as primeiras a sentir na pele, literalmente, quando
algo dá errado. Rowena conta que já experimentou uma
máscara facial em que Helen errou a dose de alho. "Fiquei
com aquele cheiro por quatro dias", lembra.
Preparando-se
para as vendas natalinas, a fábrica da Lush em Poole (existem
outras seis espalhadas pelo mundo) triplicou a produção.
Nela ficam prontos 150.000 itens diariamente
(ao som de muito hip hop, como gostam os funcionários), em
meio a caldeirões de chocolate, caixas de frutas frescas
(laranjas e limões brasileiros, por sinal), algas, pétalas
de flores. A mistura de aromas é tão característica
que os bancos de Poole sabem direitinho quando as notas de libras
vêm da empresa.
A
carreira internacional da Lush começou de forma não
planejada: um empresário canadense em férias na Inglaterra
descobriu os produtos e passou duas semanas batendo diariamente
na porta da empresa, até sair de lá com um contrato
de joint venture embaixo do braço. Desde então, a
conquista do mundo segue em frente, em ritmo peculiar. A Lush tem,
por exemplo, seis lojas na Croácia, mas nenhuma em Nova York,
a meca de consumo. Está dando certo, tanto que a marca é
cobiçada pelo poderoso grupo francês LVMH, o maior
conglomerado de artigos de luxo do mundo. Por enquanto, prefere
se manter independente (em 2001, quase abocanhou a Body Shop, mas
o negócio gorou). Fora do Reino Unido, a Lush costuma fazer
parcerias com empresários locais, selecionados com rigor.
"Muita gente nos procura, mas precisamos gostar da pessoa para ela
ter uma loja", diz Rowena. No ano que vem, o trio pretende abrir
mais 100 pontos-de-venda, inclusive no Brasil, onde a primeira loja,
no bairro dos Jardins, em São Paulo, surgiu em 1999. "Foi
uma surpresa ver que o brasileiro gosta de usar banheira", diz a
sócia Sandra Isper Rocha, outra que insistiu meses até
dobrar os ingleses. A última novidade da Lush, recém-inaugurada
na Inglaterra mas ainda sem data para chegar ao Brasil, foi batizada
de B Never Too Busy To Be Beautiful ("Sempre há tempo para
ficar linda"). É um cantinho dentro de suas lojas todo decorado
com cômodas e móveis dos tempos da vovó, montado
para vender perfumes e maquiagem. Quem compra um perfume pode escolher
o vidro, todos em estilo antigo. Quer presentinho mais chique?
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