Edição 1832 . 10 de dezembro de 2003

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Imprensa
Anúncio da discórdia

Joelmir Beting é afastado de
O Estado de S. Paulo e O Globo
por participar de propaganda


Ronaldo França

 
Antonio Milena
Beting: anúncio de banco causa curto-circuito em uma carreira brilhante

O jornalista Joelmir Beting, 66 anos, deixou de ocupar, na semana passada, dois dos espaços mais prestigiados da imprensa brasileira. Os jornais O Globo e O Estado de S. Paulo anunciaram, em breves comunicados, o fim da coluna diária que ele mantinha em suas páginas de economia. A atitude causou surpresa, por se tratar de um profissional de primeiro time e, seguramente, o mais conhecido jornalista econômico do país. O que motivou a decisão foi a campanha publicitária que Beting passou a estrelar para um fundo de investimentos do Bradesco. Os anúncios serão veiculados em jornais, revistas e televisão durante noventa dias. As duas empresas mantêm códigos de conduta que proíbem a participação de seus profissionais em publicidade e campanhas políticas. Estas são consideradas por esses jornais atividades incompatíveis com a imagem de credibilidade e imparcialidade que os jornalistas têm o dever de manter.

Em comunicado interno, o diretor de redação de O Globo, Rodolfo Fernandes, destacou que a inadequação, nesse caso, era ainda maior por se tratar de um comentarista de economia fazendo propaganda de um banco. "Continuo respeitando muito o Joelmir, mas o caminho que ele escolheu é inconciliável com a coluna, pelas normas do jornal", reiterou Fernandes a VEJA. Beting mantém sua coluna nos principais jornais brasileiros desde 1970, quando estreou na Folha de S.Paulo. Em 1991, os direitos de publicação passaram à Agência Estado, que distribui – e continuará distribuindo – o texto para dezenas de veículos. Foi também, durante anos, comentarista do Jornal Nacional. Com 47 anos de carreira, Beting tem um currículo cravejado por belas contribuições ao jornalismo. A mais célebre foi seu pioneirismo em conferir clareza e simplicidade aos textos jornalísticos sobre economia, até então mera reprodução do economês, o impenetrável linguajar técnico dos profissionais da área. Beting foi ainda o primeiro jornalista a fazer comentários diários sobre economia na televisão. Com ele longe dos grandes jornais, a análise econômica brasileira perde em conteúdo e, também, em estilo. Beting introduziu rima e métrica na seção costumeiramente mais árida do noticiário.

 
Oscar Cabral
Márcia e Marília: sem restrições dos empregadores à aparição em propaganda na TV

Na semana passada, Beting explicou a VEJA sua posição. "Discordo do pensamento único sobre o assunto. Se a propaganda é nobre, o produto é nobre e a empresa é nobre, como foi o caso, não considero que seja temerário à minha credibilidade", disse. Esta não é a primeira vez que um jornalista empresta sua imagem à publicidade. O mesmo foi feito pela apresentadora Marília Gabriela, do SBT, e pela colunista Márcia Peltier, do Jornal do Brasil, para citar apenas os casos mais recentes. Mas ambas fazem parte de uma minoria. A participação de jornalistas em propaganda é proibida pela maioria das grandes empresas brasileiras de comunicação.

 
 
 
 
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