|
|
Imprensa
Anúncio da discórdia
Joelmir
Beting é afastado de
O
Estado de S. Paulo e O Globo
por
participar de propaganda

Ronaldo
França
Antonio Milena
 |
| Beting:
anúncio de banco causa curto-circuito em uma carreira
brilhante |
O
jornalista Joelmir Beting, 66 anos, deixou de ocupar, na semana
passada, dois dos espaços mais prestigiados da imprensa brasileira.
Os jornais O Globo e O Estado de S. Paulo anunciaram,
em breves comunicados, o fim da coluna diária que ele mantinha
em suas páginas de economia. A atitude causou surpresa, por
se tratar de um profissional de primeiro time e, seguramente, o
mais conhecido jornalista econômico do país. O que
motivou a decisão foi a campanha publicitária que
Beting passou a estrelar para um fundo de investimentos do Bradesco.
Os anúncios serão veiculados em jornais, revistas
e televisão durante noventa dias. As duas empresas mantêm
códigos de conduta que proíbem a participação
de seus profissionais em publicidade e campanhas políticas.
Estas são consideradas por esses jornais atividades incompatíveis
com a imagem de credibilidade e imparcialidade que os jornalistas
têm o dever de manter.
Em comunicado interno, o diretor de redação de O
Globo, Rodolfo Fernandes, destacou que a inadequação,
nesse caso, era ainda maior por se tratar de um comentarista de
economia fazendo propaganda de um banco. "Continuo respeitando muito
o Joelmir, mas o caminho que ele escolheu é inconciliável
com a coluna, pelas normas do jornal", reiterou Fernandes a VEJA.
Beting mantém sua coluna nos principais jornais brasileiros
desde 1970, quando estreou na Folha de S.Paulo. Em 1991,
os direitos de publicação passaram à Agência
Estado, que distribui e continuará distribuindo
o texto para dezenas de veículos. Foi também, durante
anos, comentarista do Jornal Nacional. Com 47 anos de carreira,
Beting tem um currículo cravejado por belas contribuições
ao jornalismo. A mais célebre foi seu pioneirismo em conferir
clareza e simplicidade aos textos jornalísticos sobre economia,
até então mera reprodução do economês,
o impenetrável linguajar técnico dos profissionais
da área. Beting foi ainda o primeiro jornalista a fazer comentários
diários sobre economia na televisão. Com ele longe
dos grandes jornais, a análise econômica brasileira
perde em conteúdo e, também, em estilo. Beting introduziu
rima e métrica na seção costumeiramente mais
árida do noticiário.
Oscar Cabral
 |
| Márcia
e Marília: sem restrições dos empregadores
à aparição em propaganda na TV |
Na
semana passada, Beting explicou a VEJA sua posição.
"Discordo do pensamento único sobre o assunto. Se a propaganda
é nobre, o produto é nobre e a empresa é nobre,
como foi o caso, não considero que seja temerário
à minha credibilidade", disse. Esta não é a
primeira vez que um jornalista empresta sua imagem à publicidade.
O mesmo foi feito pela apresentadora Marília Gabriela, do
SBT, e pela colunista Márcia Peltier, do Jornal do Brasil,
para citar apenas os casos mais recentes. Mas ambas fazem parte
de uma minoria. A participação de jornalistas em propaganda
é proibida pela maioria das grandes empresas brasileiras
de comunicação.
|