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Educação
A
nova cara do provão
O recém-lançado teste de avaliação
do ensino superior mantém a essência
do modelo criado pelo governo FHC

Monica
Weinberg
Robson Fernandes/AE
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| O
ministro Buarque: no final, as notas ficaram |
O
ministro Cristovam Buarque, da Educação, reuniu a
imprensa na semana passada para contar como ficará o novo
sistema de avaliação do ensino superior a partir do
ano que vem. Para alívio dos especialistas da área,
Cristovam manteve a essência do modelo criado na gestão
de Fernando Henrique Cardoso e descartou as propostas que recebeu
de uma comissão de especialistas que pregava, entre outras
coisas, a morte do Provão. O ministro apenas adicionou ao
teste anterior algumas mudanças tópicas. Segundo o
projeto de Cristovam, as faculdades continuarão a ser avaliadas
por meio de uma prova aplicada aos alunos. Haverá, no entanto,
duas diferenças. Atualmente, os alunos se submetem ao teste
apenas no momento da formatura. A partir de agora, os estudantes
farão dois Provões, um ao entrar na faculdade e outro
ao sair. A segunda novidade é que as provas deixarão
de ser obrigatórias para todos os que se formam na faculdade.
Farão o teste apenas alguns estudantes selecionados por amostragem.
No meio acadêmico, a concepção do trabalho foi
recebida com elogios, até mesmo pelo ex-ministro da Educação
Paulo Renato, criador do Provão. "No geral é bom,
seria retrocesso e perda de tempo se o governo Lula destruísse
o que já funciona bem", disse Paulo Renato.
O modelo adotado por Cristovam Buarque reafirma o princípio
segundo o qual a melhor forma de estimular e cobrar desempenho das
faculdades é avaliá-las, permitir a comparação
das notas e dar ampla divulgação a isso. A maneira
de dar notas às instituições pode variar. O
ideal seria agrupar as faculdades por notas de 0 a 10, de modo bem
claro. O sistema anterior do Provão, no entanto, já
trabalhava com conceitos, divididos em cinco degraus que iam de
E, a nota mais baixa, até A, a melhor. Pelo novo critério,
as faculdades serão classificadas de acordo com três
conceitos: bem avaliada, intermediária e não satisfatória.
Além da nota concedida aos alunos, o projeto do governo prevê
a adoção de três outras que irão compor
o conceito final de cada faculdade. Uma delas analisará a
infra-estrutura e a produção científica do
estabelecimento de ensino, outra a qualificação do
corpo docente e uma terceira o engajamento da instituição
em ações sociais. "Instituições com
alunos engajados em programas de alfabetização, por
exemplo, merecem ser recompensadas na avaliação final",
afirma Cristovam Buarque. A decisão de dar peso às
ações sociais rendeu ao ministro algumas críticas.
A pesquisadora Eunice Durham, da USP, ex-secretária de política
educacional do MEC, indagou: "Um estudioso do genoma humano precisa
agora ser alfabetizador?" Segundo Cristovam, o peso do fator "social"
não será alto o suficiente a ponto de distorcer o
objetivo da universidade, que é produzir conhecimento. O
propósito aqui, diz o ministro, é apenas permitir
o desempate entre duas faculdades de mesmo nível educacional.
A proposta de reformulação do sistema de avaliação
será agora enviada ao presidente Lula e depois transformada
em projeto de lei, que deverá entrar em vigor se aprovado
no Congresso Nacional. Alguns críticos estão satisfeitos
com a tramitação no Parlamento porque vêem aí
uma oportunidade para promover pequenos ajustes no trabalho. Um
deles é retomar a idéia da obrigatoriedade do Provão
para todos os alunos. Atualmente, cada estudante recebe um certificado
com a nota. O conceito pode até ser levado em conta nos processos
de recrutamento em algumas empresas. Como o Provão deverá
ser aplicado por amostragem, só alguns estudantes terão
nota. Segundo os técnicos, a amostragem conduz ao descompromisso
e tende a diminuir a importância da avaliação
individual.
Um dos aspectos mais significativos do trabalho é permitir
à sociedade a confecção de rankings para classificar
os cursos. Nos últimos cinco anos, graças ao ranqueamento,
as faculdades mal avaliadas na prova amargaram uma queda de 50%
nas inscrições do vestibular. Muitas decidiram fazer
investimentos pesados na qualidade do ensino para reverter a curva.
Logo em suas primeiras declarações como ministro da
Educação, Cristovam Buarque avisou que mexeria no
Provão. Os especialistas apoiavam eventuais correções,
mas se preocuparam quando o Ministério da Educação
passou a dar sinais de que poderia implodir o sistema anterior.
Em julho, o ministro encomendou um novo projeto a uma comissão
formada por técnicos notoriamente contrários ao Provão.
O relatório propunha o fim do sistema de notas e dos rankings.
Felizmente, Cristovam desprezou a proposta. "Tenho a mania de aproveitar
as boas idéias e concluí que o melhor caminho era
partir do que já existia", afirma o ministro.
| As
principais mudanças
O QUE MUDA NO NOVO PROVÃO?
A
nota que hoje é expressa em cinco conceitos,
de A a E, terá apenas três níveis:
bem avaliado, intermediário e não satisfatório.
Hoje há um exame na conclusão do curso.
Haverá dois, um na entrada e outro na saída.
A prova deixa de ser geral e passa a ser feita por amostragem
SERÁ POSSÍVEL ACOMPANHAR AS NOTAS DE CADA
FACULDADE PELO SITE DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO?
O
projeto do governo prevê a divulgação
dos conceitos do Provão pela internet. Além
disso serão divulgadas as notas sobre a infra-estrutura
da faculdade e sua produção científica,
a formação dos professores e o engajamento
da instituição em programas sociais
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| Minoria
na sala de aula
Na
semana passada, o IBGE divulgou os resultados de uma
nova pesquisa sobre a educação superior
no Brasil. No geral, o estudo mostra que muitos indicadores
melhoraram. Em relação ao último
cenário, traçado em 1991, caiu o analfabetismo,
aumentou a participação das pessoas com
nível universitário na população
global, cresceu o número de doutores, e o total
de mulheres com curso superior também é
maior do que era há doze anos. Ou seja, também
na área da educação o Brasil está
melhor que antes.
Alguns problemas, no entanto, permanecem inalterados,
e um dos mais delicados é o acesso dos negros
à sala de aula. No ensino fundamental, os negros
representam 51% do corpo discente. A participação
cai para 40% no ensino médio e para 20% nas universidades.
Sem acesso à faculdade, os negros são
obrigados a viver com empregos de renda mais modesta
que a dos brancos, não têm acesso a certos
serviços e a diferença se perpetua nas
gerações seguintes. Um trabalho divulgado
no ano passado mostrou que a população
negra representa 45% da sociedade. Mas, quando se estuda
a composição do grupo de 1,7 milhão
de pessoas com maior renda, os negros são apenas
10% do total.
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