Edição 1832 . 10 de dezembro de 2003

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Especial
Valorização de 50 000%

Os preços dos passes de jogadores
brasileiros sobem mais rápido que
todos os outros investimentos


José Edward


Marcelo Sant'Anna
AFP
CAMPEÃO
Jogadores do Cruzeiro comemoram a conquista do campeonato: não foi o único vencedor
OURO NOS PÉS
O atacante Nilmar, do Internacional: comprado por 40 000 reais há três anos, está sendo vendido por 20 milhões


NESTA EDIÇÃO
Com a bola cheia

O Cruzeiro, de Belo Horizonte, ganhou o Campeonato Brasileiro de Futebol de 2003, mas não foi o único clube do país a sair vencedor do torneio. Quando se toma a competição como uma vitrine em que os preços dos passes dos jogadores vão se valorizando a cada rodada, muitos outros times ganharam. Há pouco mais de três anos, o Internacional, de Porto Alegre, pagou 40 000 reais ao Matsubara, do Paraná, pelo passe de um centroavante veloz mas um tanto franzino chamado Nilmar. Agora, está vendendo o atleta a um clube europeu por cerca de 20 milhões de reais – uma valorização de quase 50 000%. Além de ter feito vários gols no campeonato nacional, Nilmar, de 19 anos, é um dos destaques da seleção brasileira de jogadores com idade inferior a 20 anos, a Sub-20. Outro negócio que movimentou a temporada foi a venda do meio-campista Kaká, do São Paulo, para o Milan, da Itália, em agosto último. O craque – que foi vendido por 8,2 milhões de dólares (cerca de 24 milhões de reais) – estreou no clube italiano com uma brilhante atuação. Segundo analistas, seu passe já tem agora uma cotação cerca de quatro vezes maior no mercado europeu. "Brevemente, o Kaká entrará para o time do Ronaldo, ou seja, dos jogadores cujo valor do passe é quase inestimável", aposta Frederico Pena, diretor da Traffic Marketing Esportivo.

Há também o time dos atletas que deram a volta por cima no atual campeonato. Um exemplo desse tipo de revalorização é o do meia-esquerda Alex, do Cruzeiro. Considerado um dos atacantes mais habilidosos do país, ele estava em baixa desde que foi transferido do Palmeiras para o Parma, da Itália, há três anos. Apesar da quantia envolvida na transação – 15 milhões de dólares –, o clube italiano não o escalou e ele teve de voltar para o Brasil. Depois de muitas idas e vindas e de uma longa batalha judicial, Alex conseguiu passe livre e firmou-se no Cruzeiro graças à intervenção do técnico Wanderley Luxemburgo. Antes do campeonato, seu passe estava avaliado no máximo em 5 milhões de dólares. Agora, fortíssimo candidato ao título de "craque do ano" e com cadeira cativa na seleção brasileira, sua cotação no mercado mais que duplicou.

Diego, de 18 anos, e Robinho, de 19 – ambos do Santos –, são, literalmente, a bola da vez. Dois anos atrás, eles não tinham quase nenhum valor comercial, mas, graças ao destaque que alcançaram nas duas últimas temporadas e às sucessivas convocações para a seleção, são hoje em dia os jogadores que atuam no futebol brasileiro mais cobiçados pelos times europeus. Em agosto, o Tottenham Hotspur, da Inglaterra, chegou a anunciar a compra de Diego por 12 milhões de dólares. A transação, entretanto, não se confirmou porque o Santos, detentor de 60% dos direitos federativos do craque, não quis liberá-lo antes do fim do Campeonato Brasileiro. "O Diego já está com um pé na Europa", diz seu pai, Djair Ribas da Cunha, que também atua como seu empresário. Há duas semanas, Cunha estava em Londres acertando os detalhes de um contrato do atleta com a multinacional International Management Group (IMG), que agencia os direitos de imagem e publicitários de estrelas como a modelo Gisele Bündchen e as irmãs tenistas Serena e Venus Williams. Atualmente, Diego já é garoto-propaganda da Nike e da Pepsi.

Em muitos casos, as notícias de valorização dos passes são apenas especulações, alegremente estimuladas pelos empresários dos próprios atletas, na tentativa de aumentar o cacife de seus clientes. "Só se sabe quanto um jogador vale quando ele de fato é vendido", diz Wagner Ribeiro, um dos coordenadores da Associação Brasileira de Agentes da Fifa (Abaf) e que é procurador de vários atletas, como Kaká e Robinho. Apesar da supervalorização dos craques brasileiros – que continuam com rentabilidade muito superior à de qualquer outro ativo da economia –, esse mercado já não está tão inflacionado nem é mais a mina de ouro de cinco anos atrás. Para se ter uma idéia, em 1998, o mesmo São Paulo que neste ano vendeu Kaká por 8,2 milhões de dólares negociou o passe do atacante Denílson por 26 milhões de dólares para o Real Betis, da Espanha. Três anos depois, o clube francês Paris Saint-Germain pagou ao Grêmio 4 milhões de dólares por Ronaldinho Gaúcho e, na seqüência, o revendeu por 27 milhões de euros para o Barcelona, da Espanha. "Os craques brasileiros continuam sendo os mais procurados no exterior, principalmente depois da conquista do pentacampeonato, mas o patamar das ofertas pelos passes reduziu-se drasticamente", diz o empresário espanhol José Fuentes, procurador de Luís Fabiano, do São Paulo, e de Edmílson e Juninho Pernambucano, que atualmente jogam no Olympique de Lyon, da França. O motivo, segundo ele, é que vários clubes italianos, como a Fiorentina e a Lazio, que eram grandes compradores, entraram em decadência nos últimos tempos. "Como no mercado financeiro, a cotação dos jogadores de futebol tem altos e baixos", acrescenta o economista Fernando Exel, presidente da Economática, consultoria especializada em informação para investidores. "Mas, como nos jogos de loteria, quem faz a aposta certa tira a sorte grande e pode ganhar muito dinheiro."

 
 
 
 
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