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Especial
A intimidade de um fenômeno
Os
carrões, a mansão, os amores, os sonhos,
a
fortuna, os brinquedos e a vida familiar de
Ronaldo, o
jogador que um dia foi dado como acabado e que voltou
à tona como o melhor
do mundo. Em Madri, ele desfruta hoje
os
prazeres da vida de solteiro

Thaís
Oyama, de Madri
Fotos Manuel Barra/Cover
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Se
a vida de Ronaldo fosse um filme, seria um épico. Tudo nela
é extraordinário, como nas mais clássicas histórias
do herói que desce aos infernos antes da guinada que o levará
ao Olimpo e, no meio disso tudo, perde uma Copa do Mundo
e ganha, magnificamente, outra. A história: menino pobre
supera as barreiras da miséria, explode nos gramados e é
convocado para a seleção brasileira aos 17 anos. Constrói
trajetória fulgurante, fica milionário e se transforma
em ídolo mundial até que um dia, diante de
milhões de espectadores, sofre uma lesão sem precedentes
na história do futebol, aquela em que uma massa informe salta
da vizinhança de sua rótula e explode para fora, por
baixo da pele. A cena causou arrepios em quem a viu. Ronaldo passa
dois anos desacreditado, a ponto de especialistas renomados duvidarem
até de que voltaria a andar. Volta. Ganha quatro campeonatos
dos cinco que disputa e é indicado, pela quinta vez, como
o melhor jogador do mundo. "Se houvesse dez pessoas no planeta que
há dois anos acreditavam que Ronaldo voltaria a jogar seria
muito", afirma o médico da seleção, Luiz Runco.
Quem presenciou o estado do jogador depois da operação
na França, em abril de 2000, sabe que a hipótese parecia
mesmo remota.
Seu joelho estava do tamanho de uma bola de futebol de salão
riscado ao meio por uma cicatriz de 20 centímetros
de comprimento. A dor da cirurgia (a rótula foi perfurada
por uma broca para receber os fios que fixaram o tendão rompido)
era tanta que, deitado na cama do hospital, Ronaldo tinha de acionar
a todo momento uma bomba que injetava morfina em suas veias. O fisioterapeuta
Nilton Petrone, o Filé, que cuidou da sua recuperação,
lembra de uma madrugada em que, dormindo no corredor do hospital
público francês, em frente do quarto do atacante, foi
acordado por seus gritos. "Ele chorava igual a uma criança.
Gritava: 'Filé, diz para mim que eu vou jogar de novo! Diz,
por favor!'." Petrone conta que tentou acalmá-lo. "Falei:
'Tenho certeza absoluta de que você vai'." Hoje, confessa:
"Não tinha". Se a descrença de Petrone durou pouco,
a do resto do mundo não. Ronaldo saiu da operação
com 30 graus de flexão no joelho, quando um jogador saudável
tem de ter, no mínimo, 115. Passou os 22 meses seguintes
fazendo uma média de seis horas de exercícios por
dia. "Sofria só de assistir às sessões", lembra
Nélio Nazário, o pai. "O Filé jogava todo o
peso do corpo contra a perna do Ronaldo e empurrava. Ele chorava
de dor." Em novembro de 2001, enquanto o jogador investia nas sessões
de fisioterapia, um site de notícias da internet divulgou
um artigo que dava a idéia do tamanho da confiança
que a maioria das pessoas tinha na volta do Fenômeno. Começava
afirmando: "Ronaldinho acabou". E prosseguia: "Ele é hoje
um ex-craque e deveria pelo menos ter a coragem de encarar isso
de frente. Só que, morto-vivo como está, insiste.
Acredita no improvável, acha que ressuscita".
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VIDA
NA MORALEJA
A casa de Ronaldo em Madri fica no mesmo condomínio em que mora
o primeiro-ministro da Espanha. Foi comprada por 1,5 milhão
de euros, tem três andares e abriga cinco carros; abaixo, o
BMW e o Hummer |
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Ressuscitou.
Hoje, diz que mal se lembra de que tem joelho. Da fase negra, sobraram
a cicatriz, ainda visível, e o gosto pelo golfe, que aprendeu
a jogar na França. Sua casa em Madri tem até um minicampo
onde ele exercita suas tacadas. Fica no condomínio de La
Moraleja, refúgio de madrilenhos famosos que vão para
lá em busca de privacidade e confortos como uma hípica
de pôneis de uso exclusivo dos filhos dos moradores. Entre
seus vizinhos, está o primeiro-ministro da Espanha, José
María Aznar. A casa custou 1,5 milhão de euros, tem
1 200 metros quadrados e cinco quartos distribuídos por três
andares, ligados por elevador. A porta que dá acesso ao último
piso é blindada. Ronaldo diz que ela suporta "até
tiro de calibre 12", na hipótese altamente improvável
de um ataque desse tipo na Espanha. Nesse andar ficam a suíte
principal, o escritório do jogador e dois closets. O de Ronaldo
é inteiro branco (incluindo o carpete e o bem recheado armário
de dez portas, com 25 ternos, na maioria Armani); o de Milene chama
atenção pela quantidade de pares de tênis, quase
oitenta. A eterna rainha das embaixadinhas, de quem Ronaldo está
oficial mas não legalmente separado, continua morando com
ele e conserva o hábito de chamá-lo de "gatão".
O ex-casal não dividiu CDs nem sequer desfez a conta conjunta
no banco. Enquanto a jogadora do Rayo Vallecano não fecha
a compra da nova casa em que vai morar, também em La Moraleja,
continua tudo como antes: Ronaldo sai, passeia, vez por outra dorme
fora e, quando chega em casa, ouve Milene contar as últimas
de Ronald. Embora às vezes tenham "recaídas", como
conta Milene, Ronaldo parece francamente satisfeito com os ventos
da liberdade oficial. Tanto assim que, no fim do jogo do Real Madrid
contra o Olympique, no último dia 26 (em que fez um gol de
matador que garantiu a vitória do time), teve de ouvir do
seu técnico, o português Carlos Queiroz, que seria
aconselhável que "descansasse um pouco mais". Conselho difícil
de seguir para um jovem ídolo global que está aproveitando
a vida como nunca.
Ronaldo adora carros. Na garagem de La Moraleja, tem cinco: um Hummer,
um Lancia, um Audi e dois BMW um modelo 745 e um X5. O jogador
só não tem mais automóveis do que TVs: são
onze espalhadas pela casa, incluindo a que fica sobre sua banheira.
"Ele agora deu para ver novela", conta Milene. "Sabe tudo de Celebridade."
Mas o maior orgulho de Ronaldo é a boate que mandou fazer
no térreo. De frente para o jardim, tem bar, telão,
pista de dança, mesa de sinuca, fliperama, equipamento de
luzes e uma máquina de produzir fumaça. Ronaldo quis
montá-la para poder fazer o que gosta sem ser importunado,
como costuma ocorrer com personalidades sempre que vão a
lugares públicos. No caso do Fenômeno, nem disfarces
funcionam. Neste ano, Petrone e o assessor de imprensa do atacante,
Rodrigo Paiva, o convenceram a visitar o Louvre. O jogador fez sua
estréia no museu francês de capotão, óculos
escuros e peruca. Conseguiu percorrer uns poucos corredores antes
de ser descoberto na ala das múmias: "Ronaldô, Ronaldô!".
"Um grupo de franceses o reconheceu por causa dos dentes separados",
conta Paiva. A boate de Ronaldo, que o secretário César
Santiago cuida para que esteja sempre abastecida com um estoque
de 100 litros de chope, resolveu ao menos parte do problema: se
não é a mesma coisa que ferver no Bisou, a casa noturna
que o jogador freqüenta em Madri, no mínimo permite
que ele arrisque uns passos na pista sem que um fã, animado
por doses de uísque, surja para beijá-lo. Os freqüentadores
mais assíduos do lugar são os amigos brasileiros,
tratados com mimos eventuais. Aloísio Ferreira, o Borracha,
com quem Ronaldo diz ter aprendido a jogar futebol nos tempos de
Bento Ribeiro, subúrbio carioca onde nasceu, ganhou dele
um Astra zero-quilômetro; César foi brindado com uma
Kawasaki. "Namorava a moto fazia um tempo. Quando voltei da concessionária,
o Ronaldo perguntou: 'Não comprou?' Respondi que iria pensar
mais. Ele falou: 'Ô, rapaz, pega lá, estou te dando
de presente'. E deu."
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OS
BRINQUEDOS
A boate que Ronaldo mandou construir no térreo é seu maior orgulho:
tem bar, telão, mesa de sinuca, fliperama, equipamento de luzes
e máquina de fazer fumaça (perfumada). Suas outras diversões:
minicampo de golfe e banheira com TV de plasma (abaixo) |
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Paradoxalmente,
sua fama de generoso é tão verdadeira quanto a de
"pidão". Ronaldo adora barganhar, pedir desconto, ganhar
um brinde sair de um negócio com a sensação
de que levou vantagem. Na semana retrasada, a mania gerou uma situação
engraçada. Um de seus maiores patrocinadores precisava filmá-lo
em Madri e queria saber se a gravação poderia ser
feita em La Moraleja. O jogador não gostou da idéia.
Mandou dizer, por meio de um assessor, que o trabalho faria "muita
bagunça" na sua casa e sugeriu que a empresa alugasse outra.
O assessor, constrangido, transmitiu a resposta à empresa.
Quando ela já se conformava com a situação,
Ronaldo ligou novamente: "Tive uma idéia. Por que eles não
alugam minha casa?". Os 3.000 euros que o patrocinador, nada satisfeito,
concordou em pagar pela locação de La Moraleja farão
diferença zero no orçamento do astro. Aos 27 anos
de idade e doze de carreira, Ronaldo soube fazer seu pé-de-meia:
seu patrimônio hoje supera os 100 milhões de dólares
e deve dobrar até 2008, já que, a cada ano,
pingam no cofrinho do jogador 24 milhões de dólares,
somando o salário do Real Madrid (6,5 milhões de euros
por temporada) e os contratos publicitários. Só os
três novos que fechou neste ano lhe renderam perto de 10 milhões
de dólares.
Ronaldo é um fenômeno publicitário não
apenas pelo desempenho esportivo mundialmente admirado. Vende de
automóveis a refrigerantes porque, primeiro, tem o histórico
de um vencedor, e toda marca quer estar associada a um. Segundo,
porque cultiva a imagem de bom rapaz, é simpático
e "gostável" qualidades que, projetadas no produto
que anuncia, reforçam a relação "afetiva" que
as empresas modernas buscam ter com o consumidor. Terceiro, porque
não joga tênis de mesa, mas futebol, um esporte que
tem 242 milhões de praticantes no mundo e que é, portanto,
um dos mais poderosos chamarizes dentro daquilo que o mercado chama
de "segmento de massas". Se uma multinacional de refrigerantes quer
estender seus domínios para a Guatemala, que maneira mais
eficiente teria para apresentar seu logotipo do que colando-o no
peito de um ídolo de futebol que transcende fronteiras?
Oscar Cabral
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O
INÍCIO
Enquanto morou em Bento Ribeiro, Ronaldo (abaixo, na infância)
dividiu o quarto com os pais; seus dois irmãos dormiam na
sala |
Álbum de família/reprodução
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Ronaldo
não é um "produto de marketing". A publicidade explora
os atributos que ele tem, não que inventou. Mas é
verdade que um exímio trabalho de imagem contribuiu para
fechar o pacote, embalado e amarrado por Rodrigo Paiva. Ao longo
de quatro anos, o assessor poliu a imagem do atacante com o verniz
da "responsabilidade social", atributo hoje indispensável
a qualquer celebridade de calibre global. E manteve por dois anos
na mídia um jogador que não jogava. Foi de Paiva a
idéia de levar um Ronaldo contundido, pressionado pela torcida
e pelos patrocinadores, para o desolador cenário de pós-guerra
em Kosovo, na antiga Iugoslávia, onde centenas de criancinhas
gritavam o seu nome. Foi ele também quem, logo em seguida,
costurou sua nomeação para o cargo de embaixador honorário
da ONU. E é ele quem até hoje cuida de zelar pela
imagem que tanto agrada aos fãs e patrocinadores. Um exemplo:
nas fotos do último aniversário do atacante
ao qual Milene, ainda teoricamente casada, não compareceu
, a única companhia feminina que aparece ao seu lado
é a mulher de um amigo, Renato, grávida de oito meses.
Paiva tratou de eliminar da paisagem qualquer cabeleira feminina
pintada de loiro, conhecido ponto fraco do jogador. Ronaldo, confidenciam
amigos, não pode ver um rabo-de-saia. Atualmente, três
beldades duas brasileiras e uma espanhola merecem
sua atenção.
O administrador da seleção, Américo Faria,
gosta de dizer que o futebol está cheio de ex-futuros craques
jovens talentos que acabam arruinando a carreira por ceder
às muitas tentações que surgem na trajetória
dos jogadores em ascensão. Os que têm motivação
e disciplina suficientes para ir em frente devem-nas invariavelmente
ao mais importante fator extracampo do futebol nacional: a mãe.
Sônia Nazário de Lima cumpriu à risca o script.
Quando o filho se mudou para Belo Horizonte, contratado pelo Cruzeiro,
tinha 16 anos de idade e pavor de dormir sozinho. Sônia, que
telefonava todos os dias, percebeu seu medo. "Se não estiver
gostando, não precisa ficar", disse. Ronaldo ficou e arrumou
uma namorada. A mãe não simpatizou com ela e gostou
menos ainda quando o ouviu anunciar, deitado no colo da amada, que
ela estava grávida. "Logo desconfiei. Disse: 'Está,
é? Então, vamos fazer um exame agora. Mas, se der
negativo, você pega suas roupas e vai direto para o aeroporto'",
conta. "Dali a pouco, ela já estava colocando as malas no
carro." A fase Barcelona trouxe novas preocupações
para a mãe de Ronaldo. O atacante tinha então 19 anos,
começava a ganhar muito dinheiro, era solteiro e morava em
uma das mais boêmias cidades da Europa. Sônia foi passar
uma temporada com ele, e não gostou do que viu. Fixou horário
para o filho voltar para casa: em véspera de treino, meia-noite,
no máximo. Numa ocasião, Ronaldo, acompanhado de três
amigos do Rio, apareceu às 2 e meia. É um deles quem
conta: "Ela pegou o cabo de vassoura e disse que ele podia ganhar
quanto fosse, mas ela nunca iria deixar de ser sua mãe. Falou
que, se ele não quisesse ser um jogador profissional, largasse
tudo e fosse farrear. Virou-se para nós e mandou todo mundo
fazer a mala".
Fotos Felippo Monteforte/AFP
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| "Tem
uma imagem que ficou na minha cabeça naquele dia: todo
mundo em volta de mim no vestiário, e eu chorando. Não
estava nem doendo. Eu chorava de desespero, de medo do que ia
acontecer comigo. Sabia que tinha acontecido alguma coisa muito
grave" |
Embora
Ronaldo se diga adaptado à Espanha, amigos contam que tem
saudade da Itália curiosamente, o país onde
comprou a maior briga de sua carreira. Os italianos nunca engoliram
sua decisão de deixar a Inter de Milão, resultado
de desavenças com o treinador, o argentino Héctor
Cúper. A ira da torcida diante do "ingrato" que a abandonava
depois de curado obrigou o Fenômeno a seguir para o aeroporto
escoltado pela polícia. A mais passional torcida da Europa,
no entanto, ainda é a sua preferida. Se sabia xingá-lo,
também soube venerá-lo como um deus durante os cinco
anos em que viveu lá. Na Espanha, é diferente: no
coração da torcida do Real Madrid, ele ainda ocupa
o segundo escalão. No Dream Team, não é "a"
estrela, mas apenas uma delas. Tanto assim que, no ranking de venda
de camisetas do time, ocupa um modesto quarto lugar, atrás
de Raúl, Zidane e Beckham. Ronaldo pode até levantar
a arquibancada no Bernabeu mas só quando faz gol.
Já o atacante Raúl, prata da casa, não precisa
mais do que uma corridinha no campo para ganhar a ovação
dos merengues. Não por coincidência, o espanhol é
o seu maior desafeto no Real Madrid. O brasileiro diz a amigos que
considera o queridinho dos madridistas "fominha" e "mascarado".
Ronaldo dá mesada à família toda, mas gosta
de dizer que só a da mãe é vitalícia.
"Ele diz para os irmãos irem se virando que um dia ele pára
de jogar e a farra acaba", conta ela. A "farra" não deve
terminar tão cedo, mas os empresários do atacante
já traçam a estratégia da sua aposentadoria:
tratam de consolidar a marca R9 e de demover o jogador do sonho
de voltar para a Inter. Preferem que ele renove o contrato com o
Real Madrid, eventualmente experimente uma passagem por um time
inglês e, assim que iniciar a curva descendente de sua carreira,
siga para o mais improvável dos países em se tratando
de futebol: os Estados Unidos. A idéia é consolidar
uma troca vantajosa para os dois lados. Ronaldo, que já então
será mais um embaixador do futebol do que propriamente um
jogador, levaria para lá sua grife e, sobretudo, seus patrocinadores.
O clube que o contratasse, por sua vez, daria a ele a garantia de
um tratamento à altura de seu currículo e o manteria
em atividade, condição fundamental para a felicidade
dos investidores.
A profusão de títulos do craque já lhe garante
um lugar de honra no panteão do esporte, no coração
dos brasileiros e no imaginário coletivo. Único jogador
da história do futebol a ganhar três vezes o prêmio
de melhor do mundo, foi campeão nas Copas de 1994 e 2002,
campeão mundial interclubes em 2002 e recordista brasileiro
de gols em Copas do Mundo, junto com Pelé, para citar os
troféus mais importantes. Mas, se alguém lhe perguntar,
dentre todos os prêmios, qual é aquele de que mais
se orgulha, ouvirá como resposta: o de Retorno do Ano, concedido
em maio pelo Laureus World Sports Awards, chamado de Oscar dos esportes,
por sua espetacular recuperação. "Isso me deixou muito
feliz. Na cerimônia de entrega, até brinquei. Disse
que recebia o troféu com o maior orgulho, mas que nunca iria
querer ganhá-lo de novo". Na ocasião, o menino de
ouro de Bento Ribeiro definiu também sua relação
com a bola, usando palavras tão simples e definitivas quanto
as dos protagonistas das grandes sagas: "O futebol é minha
paixão, o amor da minha vida. Minha obsessão é
marcar gols, e mais, e mais". Dito e feito.
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"É
duro ler que seu marido está com outra"
Fotos Manuel Barra/Cover
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SEPARADOS,
AOS POUCOS
A ex de Ronaldo será sua vizinha. Enquanto não compra
a casa onde morará com o filho, Ronald, Milene continua
dividindo o teto e, eventualmente, o edredom com
o atacante, a quem ainda chama de "gatão" |
Milene
Domingues não perdeu o sorriso enorme, mas deixa
transparecer tristeza com o fim do casamento. Um fim
bem lento. A idéia é proteger o filho,
Ronald, ao máximo. Com 3 anos, ele nasceu na
Itália, vive na Espanha e estuda em uma escola
em que só fala inglês. Às vezes,
mistura as coisas. Quando a professora se despediu dele
dizendo: "See you tomorrow" (Vejo você amanhã),
respondeu, contente: "Eu também te amo!". O menino
continuará morando perto do pai. Milene falou
a VEJA sobre sua separação, sem briga
nem escândalo fora a provocação
tolinha dos peruanos quando ela foi ao jantar com um
jogador espanhol.
Veja
Você ainda gosta do Ronaldo?
Milene
Gosto, e penso que ele também gosta de mim. Mas
casamento precisa mais do que paixão.
Veja
O que você teria mudado no seu?
Milene
Acho que poderia ter dado mais certo se fôssemos
pessoas normais. É duro ver seu nome todo dia
nos jornais, ler que seu marido está saindo com
outra. Também fiz coisas que não faria
mais. Eu cobrei muito o Ronaldo, e ele não suporta
cobrança. Uma amiga me convidava para jantar
e eu não ia: "O Ronaldo vai chegar e pode querer
ver um vídeo". Ele vinha apressado, dizendo que
tinha de se trocar porque ia a uma festa. Era aquela
briga, ele saía e eu ficava em casa, chorando.
Hoje, entendo que o Ronaldo é mais que um jogador
de futebol, é uma personalidade e tem compromissos.
Reuters
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PROVOCAÇÃO
A "brincadeira" dos torcedores peruanos com o craque
recém-separado: hoje, Milene diz que "casamento
precisa mais do que paixão" |
Veja
Qual foi o melhor período do casamento?
Milene
O
primeiro ano. A gente ria muito, ele é muito
crianção. Adora brincadeiras de dar susto
e eu caía em todas. Quando ele estava
machucado, ficamos muito tempo juntos. Domingo, era
o dia inteiro na cama, vendo futebol, um zoando o outro,
porque ele é Flamengo e eu sou Corinthians.
Veja
Não é difícil morar com
um homem de quem você está separada?
Milene
A
gente se dá bem. E, ultimamente, ele está
dormindo mais no apartamento. Só às vezes
dorme aqui.
Veja
E não acontece nada?
Milene
A gente tem umas recaídas.
Veja
Muitas mulheres, quando se separam, aproveitam
para mudar outras coisas que sempre desejaram. Você
pensou em alguma?
Milene
Na
casa nova, vou ter um gato. O Ronaldo detesta gato.
Aliás, vou ter vários. E, quando ele for
visitar o Ronald, solto todos em cima dele...
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| O
melhor time do mundo
A
cada vez que um avião do Real Madrid levanta
vôo, decolam com ele 570 milhões de dólares.
Nas poltronas, dividindo latinhas de refrigerante light,
acomoda-se um plantel de supercraques, astros do time
que os espanhóis, orgulhosamente, chamam de "intergaláctico".
O mais premiado clube do mundo, o mais rico e o mais
estrelado o dream team, ou time dos sonhos, como
é conhecido na Europa já esteve
à beira da falência: há três
anos, naufragava em uma dívida de 300 milhões
de euros. No mês passado, seus dirigentes anunciaram
que encerrarão 2003 com 142 milhões de
euros em caixa. A razão da mágica? Uma
guinada na estratégia de marketing que merece
entrar para os manuais do gênero. O clube espanhol
passou os últimos anos aquecendo seu departamento
comercial e hoje é o símbolo máximo
do "futbusiness" o futebol que faz dinheiro.
Em
2000, quando o empresário Florentino Pérez
assumiu a presidência da equipe, declarou: "O
Real Madrid é como uma Disneylândia. A
diferença é que não sabemos explorar
a marca". Hoje, ninguém duvida que aprenderam.
O primeiro gol de Pérez foi conseguir negociar
a venda de um terreno do centenário clube por
500 milhões de euros. Dinheirama no bolso, foi
às compras. Primeiro, trouxe o português
Luis Figo, eleito pela Fifa o melhor jogador do mundo
em 2001. Depois, negociou o francês Zinedine Zidane,
duas vezes ganhador do mesmo título. No ano passado,
comprou Ronaldo, candidato pela quinta vez ao troféu
da federação. A última aquisição
foi o inglês David Beckham, que, se nunca mereceu
igual honraria, tem talento suficiente para lotar um
estádio ainda que a platéia corra
o risco de ser exclusivamente feminina. O ex-meia do
Manchester, comprado por 40 milhões de dólares,
não precisa sequer pegar na bola na próxima
temporada; já deu lucro. Fenômeno de mídia
no mundo e semideus na Ásia, David Beckham foi
a principal razão do contrato de 40 milhões
de euros que o Real Madrid acaba de fechar com uma empresa
de Hong Kong que irá distribuir os produtos do
clube em dezenove países asiáticos, incluindo
o Japão, pátria da beckhamania. E, diferentemente
do que ocorre nos falidos clubes nacionais, "produto",
para o Real Madrid, não significa chaveirinho.
O escudo do time está impresso em mais de 800
itens: sapatos de bebê, charutos, cabides, relógios,
tapetes para carro, cuecas, desodorantes, perfumes e
o que mais um torcedor precise para sobreviver ou sonhe
em possuir um dia como uma moto Real Madrid,
série especial produzida pela BMW.
Fotos Manuel Barra/Cover
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"FUTBUSINESS"
Perfume, desodorante, relógios, charutos, sapatos
de bebê, sunga e até babador: "produto", no Real
Madrid, não significa chaveirinho |
O
modelo de gerenciamento do supertime espanhol é
objetivo como um gol de pênalti. "Nosso principal
patrimônio é a marca Real Madrid", diz
o diretor de marketing, José Ángel Sánchez.
"Os jogos, as transmissões televisivas e os produtos
que vendemos servem para alimentá-la." Chocante
para os emotivos corações verde-amarelos?
"Futebol é negócio", responde Sánchez.
E a prova de que a venda de bonés pode ser tão
importante quanto uma partida do time é a porcentagem
que a bilheteria representa para a receita do clube:
apenas 25%. O grosso provém dos direitos de transmissão
dos jogos e dos dividendos do marketing.
Se
futebol é espetáculo, o dream team quer
ter o melhor elenco. Para o ano que vem, Florentino
Pérez promete mais um intergaláctico.
O inglês Michael Owen, do Liverpool, e o francês
Thierry Henry, do Arsenal, são os mais cotados.
A Disneylândia que se cuide.
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