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Fotografia
Pelas lentes da história

Alexandre Oltramari
Carlos Fonseca
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OITAVO
CHEFE DO CLÃ
No Benin, Honoré de Souza, oitavo chefe do clã
fundado por um mulato brasileiro no século XVIII (cuja
imagem está no quadro maior), exibe mensagem enviada
ao Brasil |
O
baiano Francisco Félix de Souza nasceu em 1771. Filho de
um português com uma escrava, aquela transgressora união
que tanto incendiou as carnes por estes trópicos, o mulato
acabou alforriado e, aos 17 anos, tomou a decisão que moldaria
a vida de várias gerações seguintes: mudar-se
para a terra de seus antepassados, a África. Assim, em 1788,
Francisco Félix de Souza desembarcou em Benin e, por ironia
do destino, tornou-se um próspero traficante de escravos.
Morreu aos 94 anos, teve 53 mulheres, oitenta filhos e 12 000 escravos,
deixando aos herdeiros um fabuloso império de 120 milhões
de dólares, em dinheiro de hoje.
Carlos Fonseca
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MANDIOCA,
SIM
Em Uidá, em Benin, uma descendente de escravos brasileiros
mostra o sorriso largo e o prato cheio de bolos de mandioca,
na festa do Senhor do Bonfim: a culinária brasileira
também legou aos retornados o pirão, a feijoada,
a moqueca e a canjica |
Ao
se mudar para a África, Francisco Félix de Souza virou
um dos protagonistas de um fenômeno muito estudado nas universidades,
embora pouco conhecido pela maioria dos brasileiros: a saga dos
milhares de africanos e descendentes que, alforriados no Brasil,
enfrentaram o Oceano Atlântico para fazer a viagem de volta
à mãe África. Estima-se que, somente no século
XIX, auge do fenômeno, cerca de 10.000
ex-escravos tenham retornado ao continente africano.
Carlos Fonseca
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A
BAHIA EM BENIN
As festas populares brasileiras são celebradas com freqüência
na África dos retornados. Em Porto Novo, em Benin, a
mais conhecida é a bourian. É a tradicional festa
da burrinha, surgida na Bahia, no fim do século XVIII.
Com o tempo, a festa sofreu alterações. É
feita em datas diferentes e ganhou personagens locais |
Foi essa trajetória que despertou o interesse do historiador
e diplomata Carlos Fonseca, autor das fotografias que ilustram esta
reportagem. Entre 1999 e 2001, Fonseca muniu-se de três máquinas
fotográficas, cinco lentes e 120 rolos de filme para retratar
os descendentes de ex-escravos em quatro países Benin,
Nigéria, Gana e Togo. Acionou o botão de suas câmeras
mais de 4.300 vezes e capturou o universo de
cinqüenta famílias de retornados, como são chamados
os que empreenderam a viagem de volta à África. São
clãs de Silvas, Souzas, Pereiras, Monteiros, Rochas, Machados.
Além de fotografar, Fonseca entrevistou as famílias,
para conhecer sua história, e pediu que escrevessem uma carta,
um bilhete, uma mensagem qualquer aos parentes que permanecem até
hoje no Brasil. A maioria das cartas foi endereçada a famílias
que moram na Bahia. Uma delas foi escrita por Honoré Feliciano
Julião de Souza, o oitavo chefe do clã iniciado pelo
mulato baiano Francisco Félix de Souza clã
que, hoje, tem descendentes espalhados por Benin e Togo, pequenos
países do oeste da África.
Carlos Fonseca
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EM
SOLO AFRICANO
O fotógrafo Carlos Fonseca, com duas crianças
no colo, na Nigéria: viagem por quatro países,
120 rolos de filme e mais de 4 300 fotos para retratar a rotina
dos descendentes de retornados. Agora, ele quer levar cartas
do Brasil à África |
As imagens produzidas por Fonseca exibem um misto de altivez, dignidade
e austeridade, como se os personagens estivessem querendo sublinhar,
serenamente e sem alarde, a vitoriosa trajetória de vida
da qual são herdeiros. Pela lente de Fonseca, percebe-se
que os descendentes de retornados sentem orgulho de suas origens
em terras brasileiras, ainda que seus antepassados tenham chegado
aqui arrastando grilhões e a bordo de galés fétidas
e tenham partido depois de consumir os músculos em trabalhos
forçados e emprestado o lombo às chibatadas. "Fui
muito bem recebido. Eles têm consciência e orgulho de
sua ascendência", diz Fonseca. Em Lagos, na Nigéria,
onde se falam vários idiomas e o oficial é o inglês,
há o bairro Brazilian Quarter, repleto de casarios em estilo
colonial, construídos por ex-escravos que trabalharam como
pedreiros e carpinteiros no Brasil. Em Uidá, em Benin, nas
festas consome-se mandioca, iguaria brasileiríssima de herança
indígena. Em Porto Novo, também em Benin, a "dança
da burrinha", variação do bumba-meu-boi originado
no Nordeste brasileiro, é atração turística.
Carlos Fonseca
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O
DESCENDENTE DE SULISTAS
Ao lado do piano que aprendeu a tocar com a mãe, Nestor
Carrena, 90 anos, nascido em Lagos, na Nigéria, exibe
uma carta que mandou para seus antepassados, que viveram em
Porto Alegre |
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Nas casas dos retornados, falava-se português, mas, com o
tempo, o idioma foi deixando de passar de geração
para geração. Em Benin, porém, a língua
mais popular, o fon, incorporou palavras como "mesa", "cadeira"
e "moyo", possível corruptela de "molho". "A maior parte
das famílias guarda poucas memórias de suas origens
no Brasil", diz Fonseca. Mas, quando preservam sua história,
surgem detalhes interessantes, como acontece no caso da família
Olympio, do Togo. O patriarca do clã é Francisco Olympio,
nascido no Rio de Janeiro em 1833. Alforriado, ele transferiu-se
para a África por volta de 1850, na fronteira do Togo com
Benin. Prosperou plantando dendê e teve 21 filhos. Um de seus
descendentes, Sylvanus Olympio, foi o primeiro presidente do Togo,
que acabou derrubado e assassinado em 1963 pelo sargento Gnassingbe
Eyadema, que governa o país há quase quarenta anos.
Em razão do golpe sangrento, os Olympio fugiram para Benin,
onde Fonseca conseguiu fotografar o irmão caçula do
ex-presidente, Georges Olympio.
Carlos Fonseca
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NO
CLUBE DO BRASIL
Rafiu Cardoso é bisneto de um escravo brasileiro. Ele
vive no centro histórico de Lagos, na Nigéria,
onde costuma freqüentar o Brazilian Social Club |
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O aposentado Nestor Olayemi Carrena, hoje com 90 anos, é
um caso de descendente de ex-escravos brasileiros que fez o trajeto
inverso de seus antepassados pelo menos por alguns dias.
Aposentado de uma empresa ferroviária da Nigéria,
Carrena resolveu vir para o Brasil em 1978. Conheceu o Carnaval
no Rio de Janeiro e visitou Salvador e Brasília, mas não
chegou a ir a Porto Alegre, de onde seus antepassados saíram
para voltar à África. As grandes e as pequenas histórias,
as glórias e as tragédias dessas famílias,
se depender do projeto de Carlos Fonseca, seguirão se cruzando.
O historiador e diplomata, que hoje serve na embaixada brasileira
em Washington, reuniu todo o material, fotos e cartas, num site
na internet (www.cartasdafrica.org)
e, agora, planeja voltar ao continente africano levando mensagens
do Brasil à África. "Virei um pombo-correio", brinca.
Carlos Fonseca
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COM
SANGUE PRESIDENCIAL
Georges Olympio (o primeiro da dir. para a esq.), que
vive refugiado em Benin, e sua mensagem à família
no Brasil: irmão caçula de um ex-presidente |
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