Edição 1832 . 10 de dezembro de 2003

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Fotografia
Pelas lentes da história


Alexandre Oltramari



Carlos Fonseca
OITAVO CHEFE DO CLÃ
No Benin, Honoré de Souza, oitavo chefe do clã fundado por um mulato brasileiro no século XVIII (cuja imagem está no quadro maior), exibe mensagem enviada ao Brasil

Galeria de fotos

O baiano Francisco Félix de Souza nasceu em 1771. Filho de um português com uma escrava, aquela transgressora união que tanto incendiou as carnes por estes trópicos, o mulato acabou alforriado e, aos 17 anos, tomou a decisão que moldaria a vida de várias gerações seguintes: mudar-se para a terra de seus antepassados, a África. Assim, em 1788, Francisco Félix de Souza desembarcou em Benin e, por ironia do destino, tornou-se um próspero traficante de escravos. Morreu aos 94 anos, teve 53 mulheres, oitenta filhos e 12 000 escravos, deixando aos herdeiros um fabuloso império de 120 milhões de dólares, em dinheiro de hoje.


Carlos Fonseca
MANDIOCA, SIM
Em Uidá, em Benin, uma descendente de escravos brasileiros mostra o sorriso largo e o prato cheio de bolos de mandioca, na festa do Senhor do Bonfim: a culinária brasileira também legou aos retornados o pirão, a feijoada, a moqueca e a canjica

Ao se mudar para a África, Francisco Félix de Souza virou um dos protagonistas de um fenômeno muito estudado nas universidades, embora pouco conhecido pela maioria dos brasileiros: a saga dos milhares de africanos e descendentes que, alforriados no Brasil, enfrentaram o Oceano Atlântico para fazer a viagem de volta à mãe África. Estima-se que, somente no século XIX, auge do fenômeno, cerca de 10.000 ex-escravos tenham retornado ao continente africano.


Carlos Fonseca
A BAHIA EM BENIN
As festas populares brasileiras são celebradas com freqüência na África dos retornados. Em Porto Novo, em Benin, a mais conhecida é a bourian. É a tradicional festa da burrinha, surgida na Bahia, no fim do século XVIII. Com o tempo, a festa sofreu alterações. É feita em datas diferentes e ganhou personagens locais

Foi essa trajetória que despertou o interesse do historiador e diplomata Carlos Fonseca, autor das fotografias que ilustram esta reportagem. Entre 1999 e 2001, Fonseca muniu-se de três máquinas fotográficas, cinco lentes e 120 rolos de filme para retratar os descendentes de ex-escravos em quatro países – Benin, Nigéria, Gana e Togo. Acionou o botão de suas câmeras mais de 4.300 vezes e capturou o universo de cinqüenta famílias de retornados, como são chamados os que empreenderam a viagem de volta à África. São clãs de Silvas, Souzas, Pereiras, Monteiros, Rochas, Machados. Além de fotografar, Fonseca entrevistou as famílias, para conhecer sua história, e pediu que escrevessem uma carta, um bilhete, uma mensagem qualquer aos parentes que permanecem até hoje no Brasil. A maioria das cartas foi endereçada a famílias que moram na Bahia. Uma delas foi escrita por Honoré Feliciano Julião de Souza, o oitavo chefe do clã iniciado pelo mulato baiano Francisco Félix de Souza – clã que, hoje, tem descendentes espalhados por Benin e Togo, pequenos países do oeste da África.


Carlos Fonseca
EM SOLO AFRICANO
O fotógrafo Carlos Fonseca, com duas crianças no colo, na Nigéria: viagem por quatro países, 120 rolos de filme e mais de 4 300 fotos para retratar a rotina dos descendentes de retornados. Agora, ele quer levar cartas do Brasil à África

As imagens produzidas por Fonseca exibem um misto de altivez, dignidade e austeridade, como se os personagens estivessem querendo sublinhar, serenamente e sem alarde, a vitoriosa trajetória de vida da qual são herdeiros. Pela lente de Fonseca, percebe-se que os descendentes de retornados sentem orgulho de suas origens em terras brasileiras, ainda que seus antepassados tenham chegado aqui arrastando grilhões e a bordo de galés fétidas e tenham partido depois de consumir os músculos em trabalhos forçados e emprestado o lombo às chibatadas. "Fui muito bem recebido. Eles têm consciência e orgulho de sua ascendência", diz Fonseca. Em Lagos, na Nigéria, onde se falam vários idiomas e o oficial é o inglês, há o bairro Brazilian Quarter, repleto de casarios em estilo colonial, construídos por ex-escravos que trabalharam como pedreiros e carpinteiros no Brasil. Em Uidá, em Benin, nas festas consome-se mandioca, iguaria brasileiríssima de herança indígena. Em Porto Novo, também em Benin, a "dança da burrinha", variação do bumba-meu-boi originado no Nordeste brasileiro, é atração turística.


Carlos Fonseca
O DESCENDENTE DE SULISTAS
Ao lado do piano que aprendeu a tocar com a mãe, Nestor Carrena, 90 anos, nascido em Lagos, na Nigéria, exibe uma carta que mandou para seus antepassados, que viveram em Porto Alegre

Nas casas dos retornados, falava-se português, mas, com o tempo, o idioma foi deixando de passar de geração para geração. Em Benin, porém, a língua mais popular, o fon, incorporou palavras como "mesa", "cadeira" e "moyo", possível corruptela de "molho". "A maior parte das famílias guarda poucas memórias de suas origens no Brasil", diz Fonseca. Mas, quando preservam sua história, surgem detalhes interessantes, como acontece no caso da família Olympio, do Togo. O patriarca do clã é Francisco Olympio, nascido no Rio de Janeiro em 1833. Alforriado, ele transferiu-se para a África por volta de 1850, na fronteira do Togo com Benin. Prosperou plantando dendê e teve 21 filhos. Um de seus descendentes, Sylvanus Olympio, foi o primeiro presidente do Togo, que acabou derrubado e assassinado em 1963 pelo sargento Gnassingbe Eyadema, que governa o país há quase quarenta anos. Em razão do golpe sangrento, os Olympio fugiram para Benin, onde Fonseca conseguiu fotografar o irmão caçula do ex-presidente, Georges Olympio.


Carlos Fonseca
NO CLUBE DO BRASIL
Rafiu Cardoso é bisneto de um escravo brasileiro. Ele vive no centro histórico de Lagos, na Nigéria, onde costuma freqüentar o Brazilian Social Club

O aposentado Nestor Olayemi Carrena, hoje com 90 anos, é um caso de descendente de ex-escravos brasileiros que fez o trajeto inverso de seus antepassados – pelo menos por alguns dias. Aposentado de uma empresa ferroviária da Nigéria, Carrena resolveu vir para o Brasil em 1978. Conheceu o Carnaval no Rio de Janeiro e visitou Salvador e Brasília, mas não chegou a ir a Porto Alegre, de onde seus antepassados saíram para voltar à África. As grandes e as pequenas histórias, as glórias e as tragédias dessas famílias, se depender do projeto de Carlos Fonseca, seguirão se cruzando. O historiador e diplomata, que hoje serve na embaixada brasileira em Washington, reuniu todo o material, fotos e cartas, num site na internet (www.cartasdafrica.org) e, agora, planeja voltar ao continente africano levando mensagens do Brasil à África. "Virei um pombo-correio", brinca.


Carlos Fonseca
COM SANGUE PRESIDENCIAL
Georges Olympio (o primeiro da dir. para a esq.), que vive refugiado em Benin, e sua mensagem à família no Brasil: irmão caçula de um ex-presidente

 
 
 
 
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