Edição 1832 . 10 de dezembro de 2003

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Justiça
O canibal alemão

Eles se conheceram pela internet, e
a vítima aceitou ser morta e devorada


Reuters
AFP
Juergen, a vítima (à esq.), e Meiwes (à dir.): 30 quilos de carne no congelador e ossos enterrados no jardim

Crimes que envolvem canibalismo sempre são chocantes. Este caso é especial não apenas pelos detalhes sórdidos, narrados sem pudor pelo canibal, mas principalmente porque a vítima consentiu com a atrocidade. Na semana passada, durante o início de seu julgamento na Alemanha, o técnico de computação Armin Meiwes, de 42 anos, descreveu minuciosamente como devorou o engenheiro Bernd Juergen, de 43 anos. O crime aconteceu em março de 2001, poucas semanas depois de os dois se conhecerem via internet. Meiwes contou ao júri que participava de grupos de discussão on-line e todos eles eram formados por, digamos, simpatizantes do canibalismo. "Existem centenas de pessoas que participam desses fóruns com o objetivo de comer outros humanos ou de ser devorados", disse ele. Meiwes colocou um anúncio em um desses grupos com os dizeres: "Venha para mim e eu comerei sua deliciosa carne". Em menos de um ano, o técnico recebeu 430 mensagens de interessados em conhecê-lo. Um deles era Juergen. "Eu achei que ele levava as coisas mais a sério que os outros", contou Meiwes.

Os dois começaram a se comunicar por e-mail, trocaram fotos e marcaram um encontro. O engenheiro, que morava em Berlim, foi de trem até Rotenburg, cidade de Meiwes, para conhecê-lo pessoalmente. "Fui buscá-lo na estação e lá mesmo combinamos o que iríamos fazer quando chegássemos em casa", disse. Meiwes e Juergen fizeram sexo e, depois, o engenheiro tomou dez analgésicos. "Ele me pediu que cortasse seu pênis para comermos juntos, mas me fez prometer que eu só o mataria quando ele estivesse inconsciente", contou. O técnico arrancou o pênis do engenheiro com uma faca de cozinha, cortou ao meio e fritou em óleo. Depois, serviu com vinho. Não comeram tudo porque a carne ficou rígida, intragável. Nesse momento, Juergen desmaiou. Foi então que o canibal decidiu esquartejá-lo.

Meiwes pegou uma filmadora para registrar o que aconteceria, colocou um avental e arrastou Juergen até a cozinha. "Dei um beijo nele e comecei a rezar", disse. A seguir, pendurou-o pela cabeça em um gancho na parede e abriu seu peito com uma faca. Primeiro, tirou os órgãos internos. Separou 30 quilos de carne e colocou no congelador. O resto – cabeça, ossos e vísceras – foi enterrado no quintal. O crime só foi descoberto em dezembro de 2002, porque Meiwes colocou outro anúncio semelhante na internet, em busca de uma nova vítima. No tribunal, o réu contou que tinha fixação pelo canibalismo desde a infância. Aos 12 anos de idade, imaginava-se comendo os colegas de escola de quem mais gostava. Na adolescência, criou um "irmão imaginário" e sonhava devorá-lo. "No fim, consegui realizar minha fantasia", disse ele.

O caso de Meiwes é único. Muitos crimes de canibalismo são bem conhecidos – um dos mais célebres é o do homossexual americano Jeffrey Dahmer, que devorou dezessete de seus parceiros –, mas não há notícias de vítimas que tenham consentido com tamanha barbaridade. Segundo a defesa de Meiwes, o engenheiro devorado deixou um testamento admitindo ter se submetido voluntariamente ao ritual macabro. Se o tribunal aceitar o argumento, talvez o crime possa ser considerado apenas um tipo de eutanásia ilegal, que prevê no máximo cinco anos de cadeia. Meiwes não tem antecedentes criminais e nos exames psiquiátricos não foi constatado nenhum problema grave. O veredicto deve sair em fevereiro.

 
 
 
 
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