Edição 1832 . 10 de dezembro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Crime
O xerife francês

Um filho de imigrantes húngaros é o
ministro mais popular da França com
a política de tolerância zero contra o crime


Antônio Ribeiro, de Paris

A nova estrela da cena política francesa é um xerife. O filme começa em 1975 durante a convenção do maior partido de direita do país. Junto à escada que conduz ao palanque, o presidente da França, Jacques Chirac, na época primeiro-ministro, determinava o tempo dos discursos de seus correligionários. Um mocinho de 20 anos aproximou-se e parou diante do cacique político. Chirac espetou-lhe o peito com o dedo indicador: "Você é Nicolas Sarkozy? Suba, tem só cinco minutos para falar". O pequeno Nicolas, filho de imigrantes húngaros, desobedeceu, falou vinte minutos. Arrebatou a platéia. Hoje, o rapaz de barba rala é homem feito, político popular e todo-poderoso. Sarkozy ocupa o Ministério do Interior, que na França equivale à cadeira de "tira número 1" da polícia. Em recente aparição na televisão, o ministro admitiu a mais de 6 milhões de telespectadores que, ao barbear-se, "vê no espelho a imagem do próximo presidente da República".

Metade dos franceses, mostram as pesquisas, acredita que Sarkozy é mesmo o político mais capaz de mudar a França depois das eleições presidenciais de 2007. O desempenho de Sarkozy como ministro do Interior recebeu aprovação de 64% da população. E o que ele fez? Em dezoito meses, a exemplo de Rudolph Giuliani, ex-prefeito de Nova York, dedicou ao crime tolerância zero. Baixou de forma drástica os índices de delinqüência juvenil e, com vigilância eletrônica, fez despencar o número de acidentes mortais nas estradas. Numa ação que os detratores de Sarkozy percebem como estratégia deliberada para demolir a iniciativa do líder de extrema direita Jean-Marie Le Pen, o ministro tem sido feroz no combate à imigração ilegal, a ponto de relançar os vôos que deportam os imigrantes clandestinos para seu país de origem. A popularidade de Sarkozy explodiu com a captura do foragido mais procurado da França, um independentista da Córsega acusado de metralhar o chefe da polícia. O impacto foi equivalente à prisão do traficante carioca Fernando Beira-Mar. Sarkozy ainda está na ofensiva. Guarda na gaveta um projeto de lei que dobra a pena máxima para os criminosos reincidentes.

Sarkozy enfrentou com realismo a questão das mulheres islâmicas que queriam usar véu na escola – contrariando a tradição laica da educação na França. "Registramos 1.256 casos de meninas muçulmanas com véu. Vinte desses casos foram difíceis de resolver, mas, no final, quatro foram expulsas." A diversidade étnica, racial e religiosa está mudando a face da França. Sarkozy é vigoroso defensor da "discriminação positiva", para facilitar que as minorias étnicas dos subúrbios pobres se integrem na sociedade, e até prometeu nomear um chefe de polícia muçulmano. As críticas não demoraram. "O critério deve ser a competência, pertencer a uma religião não merece discriminação positiva ou negativa", disse a VEJA Alain Juppé, ex-primeiro-ministro. Sarkozy não se intimida e bate à esquerda, à direita, abaixo e acima. "Quando se sabe que os dias estão contados, tem-se pressa em realizar, mas quando o mandato é ilimitado o desejo é só ficar", afirmou, numa crítica direta a seu chefe, Jacques Chirac, que se arma para disputar o terceiro mandato presidencial consecutivo.

 
 
 
 
topo voltar