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Mato
Grosso
O
trator no Governo
Símbolo
do triunfo da soja e da ousadia dos
migrantes, Blairo Maggi administra o Estado
como se controlasse suas empresas

José Edward
Cristiano Mariz
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governador no cenário de que mais gosta: com ele, a turma da
botina chega enfim ao poder |
O
governador de Mato Grosso, Blairo Borges Maggi, de 47 anos, pagou
para se eleger e continua pagando para exercer o mandato. Dos 10,4
milhões de reais declaradamente despejados em sua campanha
para o governo, 70% saíram do bolso dele ou da família.
Outro milhão de reais ele gastou para financiar deputados.
Para ajudá-lo no governo, Blairo chamou alguns funcionários
que o acompanham há anos em empreendimentos privados, além
de sua esposa, Terezinha, secretária do Trabalho, Emprego
e Cidadania, e de produtores rurais. Pelo menos dois auxiliares,
segundo o governador já contou, têm o salário
complementado pelas empresas da família. Um é o secretário
de Transportes, Luiz Antônio Pagot, que recebe cerca de 8.000
reais mensais dos cofres públicos e continua remunerado pela
companhia de navegação Hermasa, da qual era diretor.
Blairo, cuja impulsividade por vezes assusta até os assessores,
diz que o rendimento extra em torno de 15.000 reais por mês
se refere à participação nos lucros
da empresa. "Não há nada ilegal nisso", afirma. "Eu
mesmo acumulo os vencimentos do cargo com dividendos dos meus negócios."
O jurista José Leovegildo Morais diz que a prática
pode configurar improbidade administrativa, porque gera conflito
de interesses. A pequena oposição que resiste ao estilo
trator de Blairo até já denuncia um caso de mistura
de interesses públicos e privados, gritando contra a lei
que reduziu à metade o ICMS cobrado de alguns derivados de
soja decreto cujo texto foi preparado pelo secretário
da Fazenda, Waldir Júlio Teis, diretor licenciado do grupo
de empresas do governador e outro caso de dupla remuneração.
Como se sabe, Blairo Maggi é o maior produtor individual
de soja do mundo, e o Grupo Amaggi fechará o ano com um total
de 2,2 milhões de toneladas de soja comercializadas, cerca
de 5% da produção nacional. "A mão que dá
é a mesma que tira", reclama o senador Antero Paes de Barros,
do PSDB, que foi surrado nas urnas por Blairo, do PPS, logo no primeiro
turno da disputa pelo governo. O governador gosta de responder lembrando
a inoperância de antecessores. Diz que desonerou as vendas
para o mercado interno e lembra que 95% do faturamento de suas empresas
vem da exportação. Mas admite a hipótese de
se beneficiar da medida no futuro. "Então, se o Antônio
Ermírio de Moraes fosse eleito governador de São Paulo,
não poderia estimular a construção civil só
porque tem fábricas de cimento?", pergunta.
Fotos divulgação
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Colheita
de soja em Mato Grosso: avanço na borda da mata preocupa
ambientalistas
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Com
quase um ano de mandato, Blairo é candidato a campeão
de originalidade na safra de governadores. Governa do mesmo modo
como dirige suas empresas e se diverte mais falando de investimentos
e obras do que discutindo a agenda política. Há alguns
meses, ao notar uma fila imensa de cirurgias no serviço de
saúde do Estado, deu ordem para que todas as operações
fossem realizadas até o fim deste ano. Para apurar a razão
do problema, criou uma delegacia de polícia dentro da secretaria
estadual da área. Com calculadora e planilhas de custo, confere
cada centavo gasto pelo Estado e atende fornecedores e prestadores
de serviço. Já usou esses instrumentos para demonstrar
a um garçom o desperdício de servir água mineral
em copos grandes. Quando não encontra recursos no orçamento
estadual, inventa um jeito de obtê-los. Para pavimentar rodovias,
criou consórcios nas regiões ricas, arrecadando 40%
dos custos entre produtores rurais. Eles pagarão sua parte
em sacos de soja e recuperarão o investimento com a redução
de gastos no escoamento da produção e com a valorização
de terras. Como estão pagando, responsabilizam-se pela fiscalização
e dificultam possíveis casos de corrupção.
Para construir casas populares, Blairo recorreu a um fundo patrocinado
por agricultores e pecuaristas que arrecada 200 milhões de
reais por ano. Cada uma das 5.000 casas já entregues saiu
por 10.000 reais, metade do que as construtoras pretendiam cobrar
inicialmente. "O Blairo age como um gerentão", compara o
empresário José Carlos Dias, presidente da recém-criada
companhia estadual de gás.
A história do governador ajuda a entender seus métodos.
Exigente na cobrança de metas aos auxiliares, ele é
o exemplar mais bem-sucedido dos desbravadores que fizeram do cerrado
a nova fronteira agrícola do país os chamados
"paus-rodados", numa alusão a toras de madeira transportadas
pelas corredeiras dos rios. Natural de São Miguel do Iguaçu,
no oeste do Paraná, Blairo mudou-se com a família
em 1979 para a cidade mato-grossense de Rondonópolis. Seu
pai começou com uma lavoura de 2.400 hectares. A família
ergueu um império que soma 140.000 hectares e armazéns,
além da empresa de navegação, de duas fábricas
de processamento de soja e de uma trading. Enquanto construíam
suas vidas, esses empreendedores não exerceram papel decisivo
na política local. Só no ano passado um pau-rodado
chegou ao governo estadual, por nove meses, na figura do paranaense
Rogério Salles, vice que assumiu um mandato-tampão.
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Blairo
visita uma reserva: oposição aberta à
concessão de mais terras para os índios
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"É
com Blairo Maggi que a turma da botina chega de verdade ao poder",
diz o historiador Alfredo da Mota Menezes, da Universidade Federal
do Mato Grosso. Riquíssimo, o governador controla também
os próprios gastos. Ternos, compra dos mais baratos, mas
dez de uma vez, para poder variar. Não sai para almoçar
com grandes comitivas. Manda comprar comida na churrascaria da esquina.
Pai de um rapaz e duas moças, diz que se candidatou devido
a uma promessa. Em 2000, uma de suas duas filhas teve um câncer
e ele, pedindo sua recuperação, prometeu a Nossa Senhora
Aparecida empenhar-se na solução dos problemas sociais.
Até então, tinha passado pouco mais de três
meses ocupando uma cadeira no Senado, como suplente. A filha curou-se,
Mato Grosso ganhou um novo governador e as terças-feiras
no Palácio Paiaguás passaram a ser abertas com um
culto ecumênico público no gabinete do chefe. "Só
não vale ir lá para pedir audiência depois",
avisa Blairo.
Beneficiado pelos primeiros sucessos administrativos, ele pulverizou
a oposição. Praticamente só tem nos calcanhares
ambientalistas que desgostam do avanço da soja na Amazônia
Legal. No ano passado, Blairo comprou uma gleba de 83.000 hectares
no município de Querência, perto do Parque Nacional
do Xingu. Seu argumento é que a soja se implanta em áreas
já desmatadas, de pastagens degradadas. Adversários
respondem que a agricultura valoriza a terra e leva os pecuaristas
a desmatar mais adiante. Noutra frente, Blairo se opõe à
concessão de mais terras aos índios, que já
têm 17% do território estadual. E foi dizer isso pessoalmente,
dentro de uma reserva. "Sou tão amigo dos índios que
em Sapezal, cidade fundada pelo meu pai, tem um indiozinho chamado
Blairo", conta.
| O
estilo dele
Foi o candidato a governador que mais gastou do próprio
bolso na última eleição
Reduziu
a bancada de oposição na Assembléia
Legislativa para apenas dois deputados
Impôs um contrato de gestão ao secretariado.
Quem não cumprir metas perde o cargo
Implantou consórcios com os produtores rurais,
que pagam 40% da pavimentação das estradas
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