Edição 1832 . 10 de dezembro de 2003

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Esporte
Triatlo é coisa de mulher

Em busca de medalhas ou só de um
corpo enxuto, elas aderem à mais
exigente das modalidades esportivas


Gabriela Carelli


Heudes Régis
A modelo Daniela Cicarelli pedala, corre e nada 145 quilômetros por semana: "É um vício"


O Brasil quebrou um recorde na semana passada: enviou dez mulheres na equipe de 29 atletas que desembarcou em Queenstown, na Nova Zelândia, para disputar o Campeonato Mundial de Triatlo. No ano passado, a delegação levou apenas quatro garotas entre quase duas dezenas de marmanjos. O aumento da participação feminina na competição, a mais importante desse esporte e que vale uma vaga nas Olimpíadas de Atenas em 2004, reflete um fenômeno atual: cresce em impressionante velocidade o número de brasileiras dispostas a desafiar os limites do corpo no triatlo. Esse esporte reúne numa mesma prova três modalidades esportivas – natação, ciclismo e corrida – e sempre carregou o estigma de ser uma prática destinada a homens, por causa do altíssimo esforço físico exigido. Há duas décadas, quando o triatlo chegou ao Brasil, seus adeptos praticamente formavam um clube do Bolinha. De lá para cá, deixou de assustar as mulheres. Em 2000, havia somente 26 atletas filiadas à Confederação Brasileira de Triathlon. Hoje já são 236. O Troféu Brasil de 2003, em Santos, teve 137 mulheres inscritas, 46% mais que no anterior. Nada menos que 95 mulheres concorreram neste ano ao Ironman Brasil, a prova mais puxada da categoria. Há dois anos, foram apenas 48.

Por não computarem a multidão de mulheres que praticam o triatlo amadoristicamente, apenas como forma rápida e eficiente de obter um corpo enxuto e definido, os números oficiais dão uma idéia pálida da onda rosa que vem colorindo o esporte dos "homens de ferro". Há também o contingente de executivas, estudantes e modelos que suam no triatlo indoor, a versão mais suave praticada entre quatro paredes nas academias de ginástica. Nas três principais redes de academia de São Paulo, Rio e Brasília, mais da metade dos alunos inscritos no triatlo indoor são mulheres. O programa dessas aulas é dividido em vinte minutos de natação, 25 de bicicleta e quinze de corrida. O triatlo como modalidade esportiva é mais pesado. Na versão mais compacta, chamada de short, o atleta corre 5 quilômetros, pedala outros 20 e nada 750 metros. Esses percursos dobram no triatlo olímpico. O Ironman, a versão mais pesada e também a mais conhecida do público, é assustador: 3,8 quilômetros de natação, 180 de bicicleta e 42 de corrida.

Foi nessa categoria que se destacou a pioneira Fernanda Keller, seis vezes medalha de bronze no Ironman do Havaí entre 1994 e 2000. O sucesso de Keller, hoje com 40 anos, mais assustava do que atraía as mulheres para a modalidade. "Ela conquistou resultados tão excepcionais que colocou o esporte como algo inatingível", diz Marcos Paulo Reis, técnico da Seleção Brasileira de Triatlo nas Olimpíadas de Sydney. "Todas queriam ser lindas e poderosas como Fernanda, mas muitas achavam que se tratava de algo impossível por causa de sua performance." Mariana Ohata, Carla Moreno e Sandra Soldan, os maiores nomes do triatlo brasileiro no momento, disputam as versões olímpica e short. "Somos respeitadas no circuito mundial e servimos para mostrar que não se trata de um esporte masculino", observa Mariana. Essa brasiliense de 25 anos, 1,57 metro de altura e 51 quilos, foi eleita a melhor triatleta do Brasil em 2003 e virou musa da categoria. Seu exemplo atrai novas praticantes. "Ela tem um corpaço, é saudável. É o modelo de atleta que eu admiro. Corria, mas não tinha o corpo de hoje nem estava tão realizada", diz a paulistana Ana Paula Aires, gerente de banco que pratica triatlo amadoristicamente há um ano.

A modelo Daniela Cicarelli, do alto de seu 1,79 metro e com 59 quilos muito bem distribuídos, não é profissional, mas tornou-se uma das garotas-propaganda da atividade. Corredora há dois anos, dedica-se ao triatlo desde janeiro. Está se preparando para sua primeira competição com uma rotina puxada de treino: pedala 100 quilômetros, corre 40 e nada 5 por semana. "É um esporte completo, que define o corpo, mantém você magra e proporciona tanto bem-estar que vicia", diz Daniela. Para quem só quer um corpo enxuto e bom condicionamento físico, o triatlo é uma boa escolha. Um triatleta consome em média 30% mais calorias do que gastaria praticando natação, corrida ou ciclismo isoladamente. Numa aula de triatlo indoor perdem-se entre 850 e 1 000 calorias. É bem mais do que o gasto energético de uma hora de spinning (entre 500 e 700 calorias) ou de corrida (entre 400 e 600 calorias). "Mesclar exercícios de força com exercícios de longa distância proporciona um ganho maior de tônus muscular", afirma o paulista Marcelo Butenas, um dos mais requisitados treinadores de atletas profissionais e amadores. O teste para os candidatos ao triatlo esportivo é simples: pode iniciar-se no esporte quem tiver condicionamento físico suficiente para praticar por uma hora seguida uma das três modalidades envolvidas, natação, corrida ou ciclismo. O resto, como em qualquer esporte, é uma questão de força de vontade.

 
O Ultraman brasileiro
Virginia Isbell
Ribeiro: 515 quilômetros até a vitória


Nadar, correr e pedalar horas seguidas é a rotina de todo triatleta. Mas Alexandre Ribeiro, um curitibano de 38 anos radicado no Rio de Janeiro, foi muito além. Na semana passada, Ribeiro embarcou em uma aventura que durou três dias, com direito a fortes ventos, umidade e temperaturas variando entre 12 e 40 graus. No fim, após percorrer 515 quilômetros, distância maior que a que separa o Rio de São Paulo, havia conquistado o primeiro lugar no Ultraman, uma competição de triatlo com nome de seriado japonês, realizada em uma das ilhas do Havaí. O Ultraman é um teste de resistência que beira a insanidade. Anualmente, apenas 35 triatletas são selecionados para cumprir um percurso que inclui 10 quilômetros de natação, 421 de ciclismo e 84 de maratona, mais que o dobro do Ironman, a principal prova de triatlo no mundo, também realizada no Havaí. O feito do esportista torna-se ainda mais surpreendente porque, até então, sua performance nas competições mundiais da modalidade tinha sido apenas regular. Em dez anos de Ironman, a melhor colocação de Ribeiro havia sido um vigésimo lugar.

Entre os triatletas, o Ultraman é considerado uma prova para os verdadeiramente loucos pelo esporte. Não paga um centavo em prêmios – o Ironman chega a oferecer 100.000 dólares ao primeiro colocado – e dá a seu vencedor uma projeção bem menor que a de outras competições. É uma batalha para profissionais com alma de amador. Ribeiro, um dos precursores do triatlo brasileiro, teve de superar todo tipo de obstáculo para alcançar o lugar mais alto no pódio, após pouco mais de 22 horas de prova, com intervalos diários para sono e descanso. Na competição de natação, foi traído pela inexperiência de um acompanhante ao caiaque e acabou em alto-mar, mas conseguiu se recuperar e terminou a etapa em terceiro lugar. Na prova de ciclismo, teve dois pneus furados e quase sofreu um sério acidente. Durante a maratona, a sola do tênis descolou e, nos últimos 24 quilômetros, correu com bolhas de sangue nos pés. Nada disso, porém, lhe tirou o fôlego. "Eu sou apaixonado por provas de longa distância. Aos 13 anos, corri minha primeira meia maratona. Aos 15, já tinha participado de duas maratonas", lembra o triatleta.

A preparação para o Ultraman também incluiu sessões de exercícios capazes de levar um atleta à exaustão. Ribeiro corria até sete horas consecutivas e pedalava outras dez. Em um dos treinos com a bicicleta, após setes horas de sobe-e-desce nas serras do interior do Rio, parou para fazer uma refeição. O único prato disponível no bar de beira de estrada era feijoada. Encarou duas porções e seguiu adiante, parando só três horas e meia depois. Para viver do esporte, o triatleta conta com um salário de 6 000 reais mensais, pagos por seu principal patrocinador, e complementa a renda como professor em uma academia de ginástica. Há cinco anos corre com a mesma bicicleta, enquanto outros competidores a cada ano investem 6 000 dólares apenas em novos equipamentos. Nada que impeça o Ultraman brasileiro de seguir em frente.

 

Marcelo Carneiro

 

 

Fotos divulgação, Darcio Tutak e Xico Buny
 
 
 
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