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Esporte
Triatlo
é coisa de mulher
Em
busca de medalhas ou só de um
corpo enxuto, elas aderem à mais
exigente das modalidades esportivas

Gabriela Carelli
Heudes Régis
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| A
modelo Daniela Cicarelli pedala, corre e nada 145 quilômetros
por semana: "É um vício" |
O Brasil quebrou um recorde na semana passada: enviou dez mulheres
na equipe de 29 atletas que desembarcou em Queenstown, na Nova Zelândia,
para disputar o Campeonato Mundial de Triatlo. No ano passado, a
delegação levou apenas quatro garotas entre quase
duas dezenas de marmanjos. O aumento da participação
feminina na competição, a mais importante desse esporte
e que vale uma vaga nas Olimpíadas de Atenas em 2004, reflete
um fenômeno atual: cresce em impressionante velocidade o número
de brasileiras dispostas a desafiar os limites do corpo no triatlo.
Esse esporte reúne numa mesma prova três modalidades
esportivas natação, ciclismo e corrida
e sempre carregou o estigma de ser uma prática destinada
a homens, por causa do altíssimo esforço físico
exigido. Há duas décadas, quando o triatlo chegou
ao Brasil, seus adeptos praticamente formavam um clube do Bolinha.
De lá para cá, deixou de assustar as mulheres. Em
2000, havia somente 26 atletas filiadas à Confederação
Brasileira de Triathlon. Hoje já são 236. O Troféu
Brasil de 2003, em Santos, teve 137 mulheres inscritas, 46% mais
que no anterior. Nada menos que 95 mulheres concorreram neste ano
ao Ironman Brasil, a prova mais puxada da categoria. Há dois
anos, foram apenas 48.
Por não computarem a multidão de mulheres que praticam
o triatlo amadoristicamente, apenas como forma rápida e eficiente
de obter um corpo enxuto e definido, os números oficiais
dão uma idéia pálida da onda rosa que vem colorindo
o esporte dos "homens de ferro". Há também o contingente
de executivas, estudantes e modelos que suam no triatlo indoor,
a versão mais suave praticada entre quatro paredes nas academias
de ginástica. Nas três principais redes de academia
de São Paulo, Rio e Brasília, mais da metade dos alunos
inscritos no triatlo indoor são mulheres. O programa dessas
aulas é dividido em vinte minutos de natação,
25 de bicicleta e quinze de corrida. O triatlo como modalidade esportiva
é mais pesado. Na versão mais compacta, chamada de
short, o atleta corre 5 quilômetros, pedala outros 20 e nada
750 metros. Esses percursos dobram no triatlo olímpico. O
Ironman, a versão mais pesada e também a mais conhecida
do público, é assustador: 3,8 quilômetros de
natação, 180 de bicicleta e 42 de corrida.
Foi nessa categoria que se destacou a pioneira Fernanda Keller,
seis vezes medalha de bronze no Ironman do Havaí entre 1994
e 2000. O sucesso de Keller, hoje com 40 anos, mais assustava do
que atraía as mulheres para a modalidade. "Ela conquistou
resultados tão excepcionais que colocou o esporte como algo
inatingível", diz Marcos Paulo Reis, técnico da Seleção
Brasileira de Triatlo nas Olimpíadas de Sydney. "Todas queriam
ser lindas e poderosas como Fernanda, mas muitas achavam que se
tratava de algo impossível por causa de sua performance."
Mariana Ohata, Carla Moreno e Sandra Soldan, os maiores nomes do
triatlo brasileiro no momento, disputam as versões olímpica
e short. "Somos respeitadas no circuito mundial e servimos para
mostrar que não se trata de um esporte masculino", observa
Mariana. Essa brasiliense de 25 anos, 1,57 metro de altura e 51
quilos, foi eleita a melhor triatleta do Brasil em 2003 e virou
musa da categoria. Seu exemplo atrai novas praticantes. "Ela tem
um corpaço, é saudável. É o modelo de
atleta que eu admiro. Corria, mas não tinha o corpo de hoje
nem estava tão realizada", diz a paulistana Ana Paula Aires,
gerente de banco que pratica triatlo amadoristicamente há
um ano.
A modelo Daniela Cicarelli, do alto de seu 1,79 metro e com 59 quilos
muito bem distribuídos, não é profissional,
mas tornou-se uma das garotas-propaganda da atividade. Corredora
há dois anos, dedica-se ao triatlo desde janeiro. Está
se preparando para sua primeira competição com uma
rotina puxada de treino: pedala 100 quilômetros, corre 40
e nada 5 por semana. "É um esporte completo, que define o
corpo, mantém você magra e proporciona tanto bem-estar
que vicia", diz Daniela. Para quem só quer um corpo enxuto
e bom condicionamento físico, o triatlo é uma boa
escolha. Um triatleta consome em média 30% mais calorias
do que gastaria praticando natação, corrida ou ciclismo
isoladamente. Numa aula de triatlo indoor perdem-se entre 850 e
1 000 calorias. É bem mais do que o gasto energético
de uma hora de spinning (entre 500 e 700 calorias) ou de corrida
(entre 400 e 600 calorias). "Mesclar exercícios de força
com exercícios de longa distância proporciona um ganho
maior de tônus muscular", afirma o paulista Marcelo Butenas,
um dos mais requisitados treinadores de atletas profissionais e
amadores. O teste para os candidatos ao triatlo esportivo é
simples: pode iniciar-se no esporte quem tiver condicionamento físico
suficiente para praticar por uma hora seguida uma das três
modalidades envolvidas, natação, corrida ou ciclismo.
O resto, como em qualquer esporte, é uma questão de
força de vontade.
| O
Ultraman brasileiro |
Virginia Isbell
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| Ribeiro:
515 quilômetros até a vitória
|
Nadar, correr e pedalar horas seguidas é a rotina
de todo triatleta. Mas Alexandre Ribeiro, um curitibano
de 38 anos radicado no Rio de Janeiro, foi muito além.
Na semana passada, Ribeiro embarcou em uma aventura
que durou três dias, com direito a fortes ventos,
umidade e temperaturas variando entre 12 e 40 graus.
No fim, após percorrer 515 quilômetros,
distância maior que a que separa o Rio de São
Paulo, havia conquistado o primeiro lugar no Ultraman,
uma competição de triatlo com nome de
seriado japonês, realizada em uma das ilhas do
Havaí. O Ultraman é um teste de resistência
que beira a insanidade. Anualmente, apenas 35 triatletas
são selecionados para cumprir um percurso que
inclui 10 quilômetros de natação,
421 de ciclismo e 84 de maratona, mais que o dobro do
Ironman, a principal prova de triatlo no mundo, também
realizada no Havaí. O feito do esportista torna-se
ainda mais surpreendente porque, até então,
sua performance nas competições mundiais
da modalidade tinha sido apenas regular. Em dez anos
de Ironman, a melhor colocação de Ribeiro
havia sido um vigésimo lugar.
Entre os triatletas, o Ultraman é considerado
uma prova para os verdadeiramente loucos pelo esporte.
Não paga um centavo em prêmios o
Ironman chega a oferecer 100.000 dólares ao primeiro
colocado e dá a seu vencedor uma projeção
bem menor que a de outras competições.
É uma batalha para profissionais com alma de
amador. Ribeiro, um dos precursores do triatlo brasileiro,
teve de superar todo tipo de obstáculo para alcançar
o lugar mais alto no pódio, após pouco
mais de 22 horas de prova, com intervalos diários
para sono e descanso. Na competição de
natação, foi traído pela inexperiência
de um acompanhante ao caiaque e acabou em alto-mar,
mas conseguiu se recuperar e terminou a etapa em terceiro
lugar. Na prova de ciclismo, teve dois pneus furados
e quase sofreu um sério acidente. Durante a maratona,
a sola do tênis descolou e, nos últimos
24 quilômetros, correu com bolhas de sangue nos
pés. Nada disso, porém, lhe tirou o fôlego.
"Eu sou apaixonado por provas de longa distância.
Aos 13 anos, corri minha primeira meia maratona. Aos
15, já tinha participado de duas maratonas",
lembra o triatleta.
A preparação para o Ultraman também
incluiu sessões de exercícios capazes
de levar um atleta à exaustão. Ribeiro
corria até sete horas consecutivas e pedalava
outras dez. Em um dos treinos com a bicicleta, após
setes horas de sobe-e-desce nas serras do interior do
Rio, parou para fazer uma refeição. O
único prato disponível no bar de beira
de estrada era feijoada. Encarou duas porções
e seguiu adiante, parando só três horas
e meia depois. Para viver do esporte, o triatleta conta
com um salário de 6 000 reais mensais, pagos
por seu principal patrocinador, e complementa a renda
como professor em uma academia de ginástica.
Há cinco anos corre com a mesma bicicleta, enquanto
outros competidores a cada ano investem 6 000 dólares
apenas em novos equipamentos. Nada que impeça
o Ultraman brasileiro de seguir em frente.
Marcelo
Carneiro
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