Edição 1832 . 10 de dezembro de 2003

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Trânsito
Direção mais civilizada

O segredo europeu para reduzir as mortes
em acidentes: linha dura com motoristas


Diogo Schelp

Os dez países com trânsito mais seguro

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com sede em Paris, divulgou o ranking dos países com os menores índices de morte no trânsito. A lista, que não inclui o Brasil, chama a atenção por dois motivos: primeiro, o fato de os Estados Unidos terem, em trinta anos, caído do primeiro para o nono lugar. Segundo, o predomínio das nações nórdicas entre as mais seguras, como Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca, além da campeã Inglaterra. Essa reviravolta nos índices contém uma lição útil para o trânsito caótico do Brasil: os países que tiveram maior sucesso na diminuição do número de vítimas fatais foram aqueles que combinaram regras rígidas para o comportamento dos motoristas, investimento em estradas e ruas mais sinalizadas e bem conservadas e preocupação crescente com o aumento da segurança dos veículos. Os Estados Unidos não melhoraram em igual ritmo. A explicação, sugerem os especialistas, deve ser buscada no fato de os americanos terem dado prioridade à tecnologia de segurança no trânsito e pouca ênfase na mudança de comportamento do motorista.

A proporção de pessoas que usam cinto de segurança nos Estados Unidos não chega a 80%. No Canadá e na Austrália, a taxa de adesão ao acessório é de cerca de 95%. Nesses países, os policiais podem mandar parar um automóvel se os ocupantes não estiverem usando cinto. As estatísticas mostram que a tecnologia dos veículos ajuda a tornar os acidentes menos letais, mas na maioria dos casos não os evita. Isso porque a falha humana é responsável por 90% dos acidentes fatais. Entre esses fatores humanos, 30% estão relacionados ao uso de álcool pelo motorista e outros 30% ao excesso de velocidade. O problema do álcool é dos mais sérios, porque esbarra em costumes muito arraigados. Na França, o governo resolveu apertar o cerco aos motoristas bêbados e acabou provocando protestos dos tradicionais produtores de vinho.

Nos Estados Unidos, o Departamento de Transporte informa que a quantidade de vítimas de acidentes provocados por motoristas alcoolizados caiu mais de um terço desde 1982. O número mostra uma redução efetiva de mortes, mas, em todos os anos, a mistura de álcool com volante mata 13.500 pessoas, na maioria jovens e adolescentes. Como teoricamente todos esses óbitos poderiam ser evitados com a obediência absoluta às leis que proíbem dirigir depois de beber, está-se diante de uma calamidade. Mesmo com dados tão chocantes, a indústria de bebidas americana ainda mantém a ofensiva e tem obtido vitórias. No Estado da Louisiana, o lobby dos fabricantes de bebida conseguiu evitar a aprovação de leis para disciplinar o consumo. Menores podem beber legalmente em bares, e os postos de gasolina nas estradas vendem cerveja gelada. A Louisiana divide com a Carolina do Sul e Montana, onde as leis sobre consumo de bebida são moderadas, o título de Estado em que mais se mata e se morre por causa do uso de álcool ao volante.

Na Inglaterra, o país com o menor índice de mortes no trânsito, as autoridades atacam as principais causas de acidentes. A fiscalização é intensa. Em quinze anos, os testes com bafômetro nas estradas inglesas aumentaram de 240.000 para 780.000 por ano. É o que distancia o Brasil dos países que estão na linha de frente no combate aos acidentes. "O código de trânsito brasileiro é maravilhoso na teoria, mas falta a aplicação efetiva da lei", diz José Costa Montal, vice-presidente da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego. A experiência brasileira mostrou que, quando há cobrança, o hábito pega. O melhor exemplo é o cinto de segurança, que tem adesão de 90% das pessoas, mas só nos bancos da frente. A fiscalização sempre ignorou os passageiros do banco de trás e, como resultado, apenas 2% usam o cinto. De acordo com dados oficiais, o índice de mortes no trânsito brasileiro é de 11,6 por grupo de 100.000 habitantes. Na Inglaterra, são seis mortes para cada grupo de 100.000 pessoas. A diferença real deve ser ainda maior. No Brasil, só se contam os mortos no local do acidente. Na Inglaterra, somam-se também as vítimas que morrem até trinta dias depois em decorrência dos ferimentos. Ou seja, o número de mortes no Brasil é muito mais alto.






 
 
 
 
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