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Trânsito
Direção
mais civilizada
O
segredo europeu para reduzir as mortes
em acidentes: linha dura com motoristas

Diogo
Schelp
A Organização
para Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE), com sede em Paris, divulgou o ranking dos países
com os menores índices de morte no trânsito. A lista,
que não inclui o Brasil, chama a atenção por
dois motivos: primeiro, o fato de os Estados Unidos terem, em trinta
anos, caído do primeiro para o nono lugar. Segundo, o predomínio
das nações nórdicas entre as mais seguras,
como Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca, além
da campeã Inglaterra. Essa reviravolta nos índices
contém uma lição útil para o trânsito
caótico do Brasil: os países que tiveram maior sucesso
na diminuição do número de vítimas fatais
foram aqueles que combinaram regras rígidas para o comportamento
dos motoristas, investimento em estradas e ruas mais sinalizadas
e bem conservadas e preocupação crescente com o aumento
da segurança dos veículos. Os Estados Unidos não
melhoraram em igual ritmo. A explicação, sugerem os
especialistas, deve ser buscada no fato de os americanos terem dado
prioridade à tecnologia de segurança no trânsito
e pouca ênfase na mudança de comportamento do motorista.
A
proporção de pessoas que usam cinto de segurança
nos Estados Unidos não chega a 80%. No Canadá e na
Austrália, a taxa de adesão ao acessório é
de cerca de 95%. Nesses países, os policiais podem mandar
parar um automóvel se os ocupantes não estiverem usando
cinto. As estatísticas mostram que a tecnologia dos veículos
ajuda a tornar os acidentes menos letais, mas na maioria dos casos
não os evita. Isso porque a falha humana é responsável
por 90% dos acidentes fatais. Entre esses fatores humanos, 30% estão
relacionados ao uso de álcool pelo motorista e outros 30%
ao excesso de velocidade. O problema do álcool é dos
mais sérios, porque esbarra em costumes muito arraigados.
Na França, o governo resolveu apertar o cerco aos motoristas
bêbados e acabou provocando protestos dos tradicionais produtores
de vinho.
Nos
Estados Unidos, o Departamento de Transporte informa que a quantidade
de vítimas de acidentes provocados por motoristas alcoolizados
caiu mais de um terço desde 1982. O número mostra
uma redução efetiva de mortes, mas, em todos os anos,
a mistura de álcool com volante mata 13.500
pessoas, na maioria jovens e adolescentes. Como teoricamente todos
esses óbitos poderiam ser evitados com a obediência
absoluta às leis que proíbem dirigir depois de beber,
está-se diante de uma calamidade. Mesmo com dados tão
chocantes, a indústria de bebidas americana ainda mantém
a ofensiva e tem obtido vitórias. No Estado da Louisiana,
o lobby dos fabricantes de bebida conseguiu evitar a aprovação
de leis para disciplinar o consumo. Menores podem beber legalmente
em bares, e os postos de gasolina nas estradas vendem cerveja gelada.
A Louisiana divide com a Carolina do Sul e Montana, onde as leis
sobre consumo de bebida são moderadas, o título de
Estado em que mais se mata e se morre por causa do uso de álcool
ao volante.
Na
Inglaterra, o país com o menor índice de mortes no
trânsito, as autoridades atacam as principais causas de acidentes.
A fiscalização é intensa. Em quinze anos, os
testes com bafômetro nas estradas inglesas aumentaram de 240.000
para 780.000 por ano. É o que
distancia o Brasil dos países que estão na linha de
frente no combate aos acidentes. "O código de trânsito
brasileiro é maravilhoso na teoria, mas falta a aplicação
efetiva da lei", diz José Costa Montal, vice-presidente da
Associação Brasileira de Medicina de Tráfego.
A experiência brasileira mostrou que, quando há cobrança,
o hábito pega. O melhor exemplo é o cinto de segurança,
que tem adesão de 90% das pessoas, mas só nos bancos
da frente. A fiscalização sempre ignorou os passageiros
do banco de trás e, como resultado, apenas 2% usam o cinto.
De acordo com dados oficiais, o índice de mortes no trânsito
brasileiro é de 11,6 por grupo de 100.000
habitantes. Na Inglaterra, são seis mortes para cada grupo
de 100.000 pessoas. A diferença
real deve ser ainda maior. No Brasil, só se contam os mortos
no local do acidente. Na Inglaterra, somam-se também as vítimas
que morrem até trinta dias depois em decorrência dos
ferimentos. Ou seja, o número de mortes no Brasil é
muito mais alto.


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