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Sociedade
O
problema deles:
nasceram bilionários
Documentário do herdeiro
da Johnson & Johnson mostra
as dúvidas dos jovens podres
de ricos e o que eles pensam

José
Eduardo Barella
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Fotos AP

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CONSELHO
INÚTIL
James
Johnson, de 23 anos, bisneto do fundador da Johnson &
Johnson, diz que os milionários não gostam
de falar do próprio dinheiro, e por isso decidiu
fazer um documentário. Nesta cena de Born Rich,
ele cobra do pai, James Loring Johnson, por que a família
jamais discutiu o assunto e pede conselhos sobre a profissão
que deveria seguir. Hesitante, o pai, que nunca trabalhou,
sugere a Johnson colecionar documentos e mapas históricos.
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Entre
as vantagens de nascer numa família de bilionários,
a que mais causa inveja é a chance de viver livre das preocupações
que atormentam a maioria dos mortais como a obrigação
de trabalhar para pagar as contas ou planejar o futuro. Pelo menos
essa é a impressão que se tem dessa turma do cifrão.
A possibilidade de fazer o que der na telha e gastar à vontade
sempre alimentou a curiosidade em torno dos hábitos dos endinheirados.
Mas é sabido que os multimilionários têm ojeriza
a expor detalhes de sua intimidade. Uma rara oportunidade de espiar
a vida real dos nascidos em berço de ouro está em
Born Rich (Rico de Nascença, em tradução
livre), documentário idealizado e dirigido pelo americano
Jamie Johnson, de 23 anos. Ele é bisneto do fundador da Johnson
& Johnson e, portanto, um desses ricaços. O filme
consiste basicamente em entrevistas com dez jovens herdeiros de
fortunas superiores a 1 bilhão de dólares nos Estados
Unidos. Por estranho que pareça, a maior dificuldade do diretor
foi superar o temor que os ricos têm de falar do próprio
dinheiro. Johnson quebra esse tabu ao explicar didaticamente a escandalosa
disputa judicial pela herança da própria família.
Antes de morrer, há vinte anos, seu avô alterou o testamento,
deserdou os seis filhos e transferiu seus 500 milhões de
dólares para a terceira mulher uma ex-cozinheira.
No fim, um acordo na Justiça redistribuiu a dinheirama.
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RIQUEZA
DE MAIS INCOMODA
Ivanka
Trump, filha do empreendedor imobiliário Donald
Trump, diz que às vezes se sente incomodada por
ser muito rica. O pai acumula uma fortuna de 2,5 bilhões
de dólares. "As pessoas são mais exigentes
comigo, ficam esperando que eu cometa algum deslize",
comenta Ivanka. Modelo bissexta, ela cursa administração
na conceituada Wharton School e pretende trabalhar com
o pai no futuro.
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Johnson revela que só percebeu que era milionário
aos 10 anos de idade, quando um colega de classe viu seu sobrenome
incluído na lista das 400 famílias mais ricas dos
Estados Unidos. A explicação meio descabida para tanta
ingenuidade é a seguinte: como só vivia entre ricaços,
achava que o normal é ser endinheirado. Outro problema recorrente
nas grandes fortunas parece ser o de auto-afirmação
diante do enorme poder do patriarca. Georgina Bloomberg, 20 anos,
diz que seu sobrenome "fede" uma indelicadeza para quem vai
herdar 4,9 bilhões de dólares do pai, o empresário
Michael Bloomberg, prefeito de Nova York. Já Ivanka Trump,
filha do empreendedor Donald Trump (fortuna de 2,5 bilhões
de dólares), faz elogios ao "heroísmo e perseverança"
do pai. Mas não consegue evitar a demagogia barata ao compará-lo
aos sem-teto que dormem nas calçadas dos prédios erguidos
por papai Donald: "Pelo menos eles não devem bilhões
de dólares a credores". Os sem-teto certamente ficariam felizes
com a troca.
Para os que acham que a vida dessa turma é só festa
e gastança, saibam que nascer em berço de ouro, em
alguns casos, apenas reforça a obrigação de
alcançar sucesso pessoal uma das marcas do capitalismo
americano. Ou seja: não basta ser herdeiro, é preciso
fazer por merecer a herança. "Minha família tem 20
bilhões de dólares, mas, se você não
erguer nada com esforço próprio, não recebe
um tostão", garante Samuel Irving Newhouse IV, 23 anos, herdeiro
do império de comunicação Condé Nast.
Há também o outro lado da moeda os que buscam
fazer algo produtivo mesmo que a família nada cobre deles.
Josiah Hornblower, descendente de duas das mais tradicionais famílias
americanas (Vanderbilt e Whitney), revela que sua maior experiência
de vida ocorreu quando, por conta própria, interrompeu os
estudos por dois anos para fazer trabalhos braçais em campos
de petróleo no Texas. Na prática, os jovens herdeiros
demonstram as mesmas angústias e dúvidas em relação
ao futuro que qualquer pessoa de sua idade. A diferença é
o saldo bancário.
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REVELAÇÃO
INDISCRETA
Samuel
Irving Newhouse IV, de 23 anos, é herdeiro do
império de comunicações Condé
Nast, que inclui as revistas Vanity Fair, New Yorker
e GQ. "Não tenho dedos suficientes nas
mãos para contar o número de publicações
da família", diz. No filme, ele revela um segredo
doméstico: que a fortuna dos Newhouse é
estimada "por baixo" em 20 bilhões de dólares,
valor acima do que se imaginava. Depois, arrependeu-se
do que disse. "Causei constrangimentos a minha família",
desculpou-se.
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O
caso do próprio Johnson é ilustrativo. Por determinação
do fundador do império do clã, nenhum dos herdeiros
pode atuar nas empresas da família. O pai dele, James Loring
Johnson, nunca trabalhou na vida e é mostrado como uma pessoa
alienada, que passa o dia pintando quadros. No documentário,
Loring trava uma discussão surrealista com o filho sobre
a profissão que este deveria seguir o diretor é
estudante de história medieval na Universidade de Nova York.
Sem muita convicção, o pai sugere que Johnson poderia
colecionar documentos e mapas históricos. "As escolas de
elite deveriam ensinar as pessoas ricas a ser produtivas", ironiza
o diretor.
Para alívio dos curiosos, o filme não deixa de retratar
o lado glamoroso e repleto de cifrões no qual os jovens bilionários
vivem. As tomadas feitas nas festas regadas a champanhe em clubes
privés do litoral chique dos Hamptons, perto de Nova York,
servem para que os entrevistados revelem algumas de suas excentricidades
apesar do esforço visível de falar do dinheiro
como se fosse algo normal. Assim, Stephanie Ercklentz, de uma família
de banqueiros nova-iorquinos, admite sem pudores que tem compulsão
ao consumo. Por isso, nunca namorou ninguém fora de seu círculo
social. "Não suportaria que um namorado qualquer me criticasse
por pagar 600 dólares por uma bolsa Gucci", explica. Há
os que não conseguem esconder a arrogância. Luke Weil,
herdeiro do império de jogos Autotote, conta como costumava
humilhar colegas de escola que vinham do interior. "Minha família
pode comprar a sua", recorda, às gargalhadas. Em seguida,
revela que recebia tratamento diferenciado na universidade só
pelo fato de ser rico. "Fazia o que queria, nunca estudei para passar
e o diretor só me bajulava."
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FORTUNA
DESCONHECIDA
Josiah
Hornblower, de 23 anos, é descendente das famílias
Vanderbilt e Whitney. Os Vanderbilt ergueram um império
ferroviário no século passado. Os Whitney
dão nome a vários museus. Josiah, porém,
teve uma infância modesta e só descobriu
que era rico aos 9 anos de idade quando um tio
o levou para um passeio por Nova York. Ao entrar no
saguão da Grande Estação Central,
uma construção grandiosa erguida pelo
clã Vanderbilt, o tio avisou: "Tudo isto é
seu".
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Como
era previsível, Born Rich rendeu elogios da crítica
e a fúria das famílias citadas, por expor alguns de
seus segredos cuidadosamente guardados. Weil tentou inutilmente
barrar na Justiça a estréia do filme, no Festival
Sundance, no começo do ano. Newhouse, amigo de longa data
do diretor, admitiu que se arrependeu de ter participado do documentário.
Johnson, por sua vez, chegou a ser ameaçado de agressão
depois da estréia por um bando de mauricinhos com quem esbarrou
num clube exclusivo de Nova York. Born Rich foi ao ar em
outubro pela TV a cabo americana e ainda não está
prevista sua exibição no Brasil. Pelo jeito, a moda
pegou. Dois reality shows protagonizados por herdeiros milionários
estrearam recentemente na TV americana. Um deles, Rich Girls
(Garotas Ricas), é estrelado por Ally Hilfiger, 18 anos
filha do estilista Tommy Hilfiger, dono de uma fortuna de
meio bilhão de dólares. A cabecinha oca Ally passa
o dia torrando o dinheiro do pai em compras e destilando ironias
ao lado de uma amiga. O outro, The Simple Life, tem como
destaque a celebridade emergente Paris Hilton, 22 anos, herdeira
de 3,8 bilhões de dólares e da rede de hotéis
da família. Patricinha de carteirinha, a bela Paris vive
no seriado as agruras de trocar o shopping pela vida do campo no
interior do Arkansas. Os dois reality shows apenas exaltam a imagem
de futilidade e alienação que cerca esses jovens biliardários
para que os telespectadores possam rir deles.
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