Edição 1832 . 10 de dezembro de 2003

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Venezuela
A caneta contra Chávez

Oposição colhe assinaturas para
convocar um plebiscito para tirar
o presidente da Venezuela


Diogo Schelp

Reuters
Chávez em ação: discurso antiimperialista e negócios com os Estados Unidos


O presidente venezuelano Hugo Chávez é o tipo de líder que com freqüência surge em sociedades marcadas pela miséria, por décadas de corrupção e pela falta de esperança nos políticos tradicionais – o autoproclamado salvador da pátria. Líderes como ele falam do povo como se fosse uma entidade mística que concentra toda a virtude. Elegem como inimigo do povo as "oligarquias" (e nessa categoria incluem todos os seus desafetos), fazem promessas messiânicas e, quando as coisas não correm conforme o planejado, buscam a sobrevivência apelando para o carisma pessoal. Chávez é a mais recente dessas manifestações populistas, e está na fase da busca pela sobrevivência: na semana passada, durante quatro dias, a oposição recolheu assinaturas para convocar um referendo que pode tirá-lo do governo antes de terminar o mandato, em 2007. A oposição diz que conseguiu 3,6 milhões de assinaturas, bem acima dos 2,4 milhões requeridos pela Constituição. Um conselho eleitoral deve levar um mês para conferir uma por uma. Se confirmado, o referendo poderá acontecer em abril.

A questão é se Chávez vai aceitar a convocação de um referendo que, de acordo com as pesquisas, irá podar pela metade seu mandato. Uma semana antes de a oposição coletar apoio nas ruas, o presidente organizou sua própria campanha de recolhimento de assinaturas, com o objetivo de fazer um referendo para derrubar deputados de oposição. O total recolhido é um mistério. O presidente também distribuiu ameaças. "Creio que o melhor que a oposição pode fazer é não recolher as assinaturas, senão será pior para ela", disse, sem explicar o que faria se não lhe obedecessem. Mais tarde, aliados do presidente mandaram demitir funcionários públicos que apoiaram publicamente a coleta de assinaturas. Um gesto próprio do estilo autoritário e vingativo que marca os cinco anos de governo chavista.

AFP
Venezuelanos fazem fila para assinar: 3,6 milhões de assinaturas em quatro dias


Coronel pára-quedista, ele liderou duas tentativas frustradas de golpe militar em 1992. Na quartelada contra uma das mais duradouras democracias da América do Sul, vinte pessoas morreram. Ele ficou dois anos na cadeia, mas se tornou conhecido dos venezuelanos. Passou a representar, para muita gente, o militar moralista que se opõe à corrupção dos políticos civis. Depois que saiu da cadeia, começou a preparar um grupo que deveria levar a Venezuela à revolução armada, nos moldes da de Cuba. Mas se convenceu de que era mais fácil chegar ao poder pelas vias normais, valendo-se de sua popularidade. Elegeu-se presidente em 1998 com 56% dos votos e reescreveu como quis a Constituição, criando condições para cumprir seu projeto de governar pelo menos até 2013. Pegou um país em frangalhos.

Durante décadas, a Venezuela desperdiçou a chance de ser o país latino-americano mais desenvolvido. Com a sexta maior reserva de petróleo do mundo, foi, entre 1928 e 1970, o maior exportador mundial do produto. Até hoje o petróleo representa 25% do PIB. A elite venezuelana, conformada com a riqueza natural, não se empenhou em criar uma indústria diversificada. Segundo a organização Transparência Internacional, a Venezuela é um dos vinte países mais corruptos do mundo. Chávez assumiu uma nação com mais de 70% de pobres – e conseguiu deixar a situação ainda pior. Seu governo se caracterizou pelo uso leviano dos poderes e dinheiro públicos e, sobretudo, pela estratégia ilusionista dos programas assistencialistas, que não resolvem o problema crônico do desemprego. Abusando de recursos cênicos, conseguiu dividir os venezuelanos, jogando pobres contra ricos. Avesso a críticas, começou a perseguir as empresas de comunicação, cujos donos ele chama de "delinqüentes" em seu programa de TV dominical.


AFP
Posto de coleta de assinaturas a favor do referendo: governo ameaçou a oposição e a acusou de fraude

A postura de Chávez criou enorme instabilidade. Em abril do ano passado, militares e empresários promoveram um golpe que o tirou por 48 horas do poder. Os golpistas fracassaram por falta de organização e apoio popular. Entre dezembro e janeiro, uma greve geral paralisou o país, abalando o poder do presidente. Nada disso demoveu Chávez do delírio de liderar o que denomina "revolução bolivariana". Nomeada assim em homenagem a Simón Bolívar, herói da independência venezuelana, prega a união antiimperialista dos países sul-americanos – ou algo assim. Os analistas políticos têm dúvidas sobre até que ponto Chávez seria capaz de tentar algo mais ambicioso fora da Venezuela. O fato é que ele chegou a criar uma certa Internacional Bolivariana, cuja sede fica em Buenos Aires. Suspeita-se, também, que ele tenha organizado uma milícia armada em seu país, com a ajuda de cubanos. E, no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, disse que, se não permitirem que leve adiante seu projeto revolucionário de maneira pacífica, terá de recorrer às armas.


AFP
Chavistas: apesar da crise econômica, o coronel tem o apoio de um terço da população

Antes das eleições de 1998, o então embaixador dos Estados Unidos na Venezuela, John Maisto, dizia que Chávez era só mais um populista, incapaz de levar adiante qualquer revolução. "Chávez tenta se destacar como um líder da esquerda revolucionária, mas seu discurso é contraditório: ao mesmo tempo que critica o imperialismo americano, vende petróleo em condições privilegiadas aos Estados Unidos", disse a VEJA a cientista política Socorro Ramírez, do Instituto de Estudos Políticos e Relações Internacionais da Universidade Nacional da Colômbia. Os Estados Unidos são os maiores importadores de petróleo da Venezuela. Se convocado o referendo para decidir o destino de Hugo Chávez, a Venezuela terá uma campanha eleitoral acirrada nos próximos quatro meses. A oposição ainda não tem um candidato para disputar o cargo. Quem quer que assuma o governo terá de levar em consideração dois fatos: o primeiro é que Chávez – que tem apoio de um terço da população – não estará politicamente morto e será necessário selar acordos com seu grupo para poder governar em paz. O segundo é que as elites do país não podem mais ignorar a grande parcela de pobres e miseráveis da Venezuela e sua responsabilidade na solução desse problema. Sob risco de Chávez voltar ou surgir alguém pior.

 


 

 
 
 
 
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