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Venezuela
A
caneta contra Chávez
Oposição
colhe assinaturas para
convocar um plebiscito para tirar
o presidente da Venezuela

Diogo
Schelp
Reuters
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| Chávez
em ação: discurso antiimperialista e negócios com os Estados
Unidos |
O presidente venezuelano Hugo Chávez é o tipo de líder
que com freqüência surge em sociedades marcadas pela
miséria, por décadas de corrupção e
pela falta de esperança nos políticos tradicionais
o autoproclamado salvador da pátria. Líderes
como ele falam do povo como se fosse uma entidade mística
que concentra toda a virtude. Elegem como inimigo do povo as "oligarquias"
(e nessa categoria incluem todos os seus desafetos), fazem promessas
messiânicas e, quando as coisas não correm conforme
o planejado, buscam a sobrevivência apelando para o carisma
pessoal. Chávez é a mais recente dessas manifestações
populistas, e está na fase da busca pela sobrevivência:
na semana passada, durante quatro dias, a oposição
recolheu assinaturas para convocar um referendo que pode tirá-lo
do governo antes de terminar o mandato, em 2007. A oposição
diz que conseguiu 3,6 milhões de assinaturas, bem acima dos
2,4 milhões requeridos pela Constituição. Um
conselho eleitoral deve levar um mês para conferir uma por
uma. Se confirmado, o referendo poderá acontecer em abril.
A
questão é se Chávez vai aceitar a convocação
de um referendo que, de acordo com as pesquisas, irá podar
pela metade seu mandato. Uma semana antes de a oposição
coletar apoio nas ruas, o presidente organizou sua própria
campanha de recolhimento de assinaturas, com o objetivo de fazer
um referendo para derrubar deputados de oposição.
O total recolhido é um mistério. O presidente também
distribuiu ameaças. "Creio que o melhor que a oposição
pode fazer é não recolher as assinaturas, senão
será pior para ela", disse, sem explicar o que faria se não
lhe obedecessem. Mais tarde, aliados do presidente mandaram demitir
funcionários públicos que apoiaram publicamente a
coleta de assinaturas. Um gesto próprio do estilo autoritário
e vingativo que marca os cinco anos de governo chavista.
AFP
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| Venezuelanos
fazem fila para assinar: 3,6 milhões de assinaturas em quatro
dias |
Coronel pára-quedista, ele liderou duas tentativas frustradas
de golpe militar em 1992. Na quartelada contra uma das mais duradouras
democracias da América do Sul, vinte pessoas morreram. Ele
ficou dois anos na cadeia, mas se tornou conhecido dos venezuelanos.
Passou a representar, para muita gente, o militar moralista que
se opõe à corrupção dos políticos
civis. Depois que saiu da cadeia, começou a preparar um grupo
que deveria levar a Venezuela à revolução armada,
nos moldes da de Cuba. Mas se convenceu de que era mais fácil
chegar ao poder pelas vias normais, valendo-se de sua popularidade.
Elegeu-se presidente em 1998 com 56% dos votos e reescreveu como
quis a Constituição, criando condições
para cumprir seu projeto de governar pelo menos até 2013.
Pegou um país em frangalhos.
Durante
décadas, a Venezuela desperdiçou a chance de ser o
país latino-americano mais desenvolvido. Com a sexta maior
reserva de petróleo do mundo, foi, entre 1928 e 1970, o maior
exportador mundial do produto. Até hoje o petróleo
representa 25% do PIB. A elite venezuelana, conformada com a riqueza
natural, não se empenhou em criar uma indústria diversificada.
Segundo a organização Transparência Internacional,
a Venezuela é um dos vinte países mais corruptos do
mundo. Chávez assumiu uma nação com mais de
70% de pobres e conseguiu deixar a situação
ainda pior. Seu governo se caracterizou pelo uso leviano dos poderes
e dinheiro públicos e, sobretudo, pela estratégia
ilusionista dos programas assistencialistas, que não resolvem
o problema crônico do desemprego. Abusando de recursos cênicos,
conseguiu dividir os venezuelanos, jogando pobres contra ricos.
Avesso a críticas, começou a perseguir as empresas
de comunicação, cujos donos ele chama de "delinqüentes"
em seu programa de TV dominical.
AFP
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| Posto
de coleta de assinaturas a favor do referendo: governo ameaçou
a oposição e a acusou de fraude |
A postura
de Chávez criou enorme instabilidade. Em abril do ano passado,
militares e empresários promoveram um golpe que o tirou por
48 horas do poder. Os golpistas fracassaram por falta de organização
e apoio popular. Entre dezembro e janeiro, uma greve geral paralisou
o país, abalando o poder do presidente. Nada disso demoveu
Chávez do delírio de liderar o que denomina "revolução
bolivariana". Nomeada assim em homenagem a Simón Bolívar,
herói da independência venezuelana, prega a união
antiimperialista dos países sul-americanos ou algo
assim. Os analistas políticos têm dúvidas sobre
até que ponto Chávez seria capaz de tentar algo mais
ambicioso fora da Venezuela. O fato é que ele chegou a criar
uma certa Internacional Bolivariana, cuja sede fica em Buenos Aires.
Suspeita-se, também, que ele tenha organizado uma milícia
armada em seu país, com a ajuda de cubanos. E, no Fórum
Social Mundial, em Porto Alegre, disse que, se não permitirem
que leve adiante seu projeto revolucionário de maneira pacífica,
terá de recorrer às armas.
AFP
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| Chavistas:
apesar da crise econômica, o coronel tem o apoio de um terço
da população |
Antes
das eleições de 1998, o então embaixador dos
Estados Unidos na Venezuela, John Maisto, dizia que Chávez
era só mais um populista, incapaz de levar adiante qualquer
revolução. "Chávez tenta se destacar como um
líder da esquerda revolucionária, mas seu discurso
é contraditório: ao mesmo tempo que critica o imperialismo
americano, vende petróleo em condições privilegiadas
aos Estados Unidos", disse a VEJA a cientista política Socorro
Ramírez, do Instituto de Estudos Políticos e Relações
Internacionais da Universidade Nacional da Colômbia. Os Estados
Unidos são os maiores importadores de petróleo da
Venezuela. Se convocado o referendo para decidir o destino de Hugo
Chávez, a Venezuela terá uma campanha eleitoral acirrada
nos próximos quatro meses. A oposição ainda
não tem um candidato para disputar o cargo. Quem quer que
assuma o governo terá de levar em consideração
dois fatos: o primeiro é que Chávez que tem
apoio de um terço da população não
estará politicamente morto e será necessário
selar acordos com seu grupo para poder governar em paz. O segundo
é que as elites do país não podem mais ignorar
a grande parcela de pobres e miseráveis da Venezuela e sua
responsabilidade na solução desse problema. Sob risco
de Chávez voltar ou surgir alguém pior.
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