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Japão
O
último desafio
do Enola Gay
Avião
que lançou a bomba atômica sobre
Hiroshima, em 1945, é reconstruído e vira
alvo de protestos de sobreviventes
AFP
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| Enola
Gay exposto em Washington: peças recuperadas com
colecionadores |
O velho
bombardeiro B-29 prateado da Força Aérea americana
está de volta e, com ele, a polêmica que o acompanha
desde o dia 6 de agosto de 1945. O avião que transportou
e do qual foi lançada a bomba atômica que arrasou a
cidade japonesa de Hiroshima na II Guerra deverá ser a maior
atração da nova ala do Museu Nacional Aeroespacial
Smithsonian, em Washington, que abrirá ao público
na semana que vem. Será um retorno em grande estilo. O Enola
Gay, nome dado ao bombardeiro pelo comandante da missão
para homenagear a mãe, foi inteiramente restaurado. O trabalho
durou quase vinte anos e incluiu o garimpo de peças originais
com colecionadores. O reaparecimento do avião, como era de
esperar, irritou grupos pacifistas americanos e japoneses. Eles
não exigem o cancelamento da exposição, mas
querem a inclusão de fotos de vítimas da bomba atômica
de Hiroshima ao lado da ficha de apresentação com
os dados técnicos do bombardeiro no museu. Há oito
anos, quando partes do avião foram exibidas no Smithsonian
pela primeira vez, houve polêmica semelhante que não
deu em nada. A direção do museu já avisou que
não vai atender aos pedidos.
Os
sentimentos amargos são inevitáveis. A bomba atômica
de Hiroshima aniquilou 140.000 pessoas.
Três dias depois, foi a vez de Nagasaki ser arrasada pela
segunda e última bomba atômica até hoje detonada
numa guerra, deixando mais 70.000 mortos.
Os testemunhos dos sobreviventes são assustadores: a onda
de calor e o deslocamento do ar causados pela explosão formaram
uma bola de fogo que avançou 740 metros em apenas um segundo,
mais de duas vezes a velocidade do som. Quem estava próximo
do epicentro da explosão, onde a temperatura atingiu 4.000
graus, simplesmente evaporou, deixando manchas no solo escurecido.
Prédios ruíram, soterrando famílias inteiras.
Havia, por fim, a radiação veneno mortal, mas
não imediato, que penetra na medula óssea e nas glândulas
linfáticas destruindo os glóbulos brancos do sangue.
Há casos de leucemia e câncer desenvolvidos décadas
após a exposição à radiação.
Ainda
se discute se, do ponto de vista militar, os ataques atômicos
ao Japão foram realmente necessários para pôr
fim à guerra. Os Estados Unidos estimam que se não
tivessem feito isso teriam perdido 1 milhão de soldados na
invasão do arquipélago nipônico. O certo é
que a devastação vista em Hiroshima e Nagasaki serve
até hoje para inibir o uso de armas nucleares. Sobretudo
porque desde 1945 se ampliou a capacidade tecnológica de
exterminar seres humanos. A bomba de Hiroshima pesava 4 toneladas,
tinha poder de explosão de 17 quilotons, o equivalente a
17.000 toneladas de TNT, e exigia um
avião bombardeiro de grande porte para transportá-la.
Hoje, a maioria das armas nucleares do arsenal americano pesa menos
de 45 quilos e tem potência média de 1 megaton, ou
1 milhão de toneladas de TNT. É colocada na ponta
de um foguete e pode ser lançada de avião, navio ou
submarino, viajar 1.600 quilômetros
guiada por satélite e acertar o alvo com uma margem de erro
de 6 metros. Estima-se que haja mais de 35.000
ogivas nucleares em poder de Estados Unidos, Rússia, Inglaterra,
França, China, Paquistão, Índia, Israel e Coréia
do Norte o suficiente para destruir o mundo mais de trinta
vezes e transformar o pesadelo de Hiroshima num pálido testemunho
da insensatez humana.
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