Edição 1832 . 10 de dezembro de 2003

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Japão
O último desafio
do Enola Gay

Avião que lançou a bomba atômica sobre
Hiroshima, em 1945, é reconstruído e vira
alvo de protestos de sobreviventes


AFP
Enola Gay exposto em Washington: peças recuperadas com colecionadores


NESTA EDIÇÃO
Um flash de luz seguido
de um estrondo

O velho bombardeiro B-29 prateado da Força Aérea americana está de volta – e, com ele, a polêmica que o acompanha desde o dia 6 de agosto de 1945. O avião que transportou e do qual foi lançada a bomba atômica que arrasou a cidade japonesa de Hiroshima na II Guerra deverá ser a maior atração da nova ala do Museu Nacional Aeroespacial Smithsonian, em Washington, que abrirá ao público na semana que vem. Será um retorno em grande estilo. O Enola Gay, nome dado ao bombardeiro pelo comandante da missão para homenagear a mãe, foi inteiramente restaurado. O trabalho durou quase vinte anos e incluiu o garimpo de peças originais com colecionadores. O reaparecimento do avião, como era de esperar, irritou grupos pacifistas americanos e japoneses. Eles não exigem o cancelamento da exposição, mas querem a inclusão de fotos de vítimas da bomba atômica de Hiroshima ao lado da ficha de apresentação com os dados técnicos do bombardeiro no museu. Há oito anos, quando partes do avião foram exibidas no Smithsonian pela primeira vez, houve polêmica semelhante que não deu em nada. A direção do museu já avisou que não vai atender aos pedidos.

Os sentimentos amargos são inevitáveis. A bomba atômica de Hiroshima aniquilou 140.000 pessoas. Três dias depois, foi a vez de Nagasaki ser arrasada pela segunda e última bomba atômica até hoje detonada numa guerra, deixando mais 70.000 mortos. Os testemunhos dos sobreviventes são assustadores: a onda de calor e o deslocamento do ar causados pela explosão formaram uma bola de fogo que avançou 740 metros em apenas um segundo, mais de duas vezes a velocidade do som. Quem estava próximo do epicentro da explosão, onde a temperatura atingiu 4.000 graus, simplesmente evaporou, deixando manchas no solo escurecido. Prédios ruíram, soterrando famílias inteiras. Havia, por fim, a radiação – veneno mortal, mas não imediato, que penetra na medula óssea e nas glândulas linfáticas destruindo os glóbulos brancos do sangue. Há casos de leucemia e câncer desenvolvidos décadas após a exposição à radiação.

Ainda se discute se, do ponto de vista militar, os ataques atômicos ao Japão foram realmente necessários para pôr fim à guerra. Os Estados Unidos estimam que se não tivessem feito isso teriam perdido 1 milhão de soldados na invasão do arquipélago nipônico. O certo é que a devastação vista em Hiroshima e Nagasaki serve até hoje para inibir o uso de armas nucleares. Sobretudo porque desde 1945 se ampliou a capacidade tecnológica de exterminar seres humanos. A bomba de Hiroshima pesava 4 toneladas, tinha poder de explosão de 17 quilotons, o equivalente a 17.000 toneladas de TNT, e exigia um avião bombardeiro de grande porte para transportá-la. Hoje, a maioria das armas nucleares do arsenal americano pesa menos de 45 quilos e tem potência média de 1 megaton, ou 1 milhão de toneladas de TNT. É colocada na ponta de um foguete e pode ser lançada de avião, navio ou submarino, viajar 1.600 quilômetros guiada por satélite e acertar o alvo com uma margem de erro de 6 metros. Estima-se que haja mais de 35.000 ogivas nucleares em poder de Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, França, China, Paquistão, Índia, Israel e Coréia do Norte – o suficiente para destruir o mundo mais de trinta vezes e transformar o pesadelo de Hiroshima num pálido testemunho da insensatez humana.

 
 
 
 
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