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Partidos
É
por isso que o PT
não é o PMDB
O
partido acerta ao planejar a
expulsão dos radicais não porque
são radicais, mas indisciplinados

Malu Gaspar
Joedson Alves/AE
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| Protesto
contra a expulsão da senadora Heloísa Helena do PT: o partido
amarga a acusação de ser incoerente porque mudou mas esqueceu-se
de fazer a autocrítica do passado |
No
próximo fim de semana, a cúpula do PT deve encerrar
uma polêmica que se arrastou pelo ano inteiro a expulsão
dos parlamentares radicais que têm contrariado as orientações
do partido nas votações no Congresso Nacional. Há
duas semanas, a expulsão da senadora Heloísa Helena,
de Alagoas, tornou-se inevitável em função
de seu voto contrário à reforma da Previdência
Social. Desde então, Heloísa Helena tem recebido homenagens
e manifestações de desagravo, organizadas por amigos
e aliados. São atos em que se conjugam o protesto contra
o suposto autoritarismo da cúpula do PT e o repúdio
à expulsão da senadora e de três deputados federais,
cujos votos também têm violado determinações
do partido. Já saiu até manifesto internacional, com
cerca de 900 assinaturas de personalidades da esquerda mundial,
entre elas o badalado lingüista americano Noam Chomsky, em
que se apela à direção petista para que reconsidere
o assunto. É difícil que o PT volte atrás,
sobretudo porque está absolutamente certo ao expulsar os
parlamentares.
O
barulho em torno de Heloísa Helena promove uma confusão
entre duas questões distintas. No plano da disciplina partidária,
o PT tem toda a razão em punir a senadora e os três
deputados, que, afinal, estão contrariando as orientações
do partido. É por isso, por prezar a disciplina de militantes
e parlamentares, que o PT cresceu como uma legenda respeitável,
ficando a anos-luz de distância de agremiações
invertebradas como o PMDB. A expulsão, diferentemente do
que fazem crer aliados dos parlamentares radicais, também
não significa uma traição à tradição
democrática do PT. Significa, de novo, apenas compromisso
com a disciplina partidária. Em 1985, o PT também
expulsou de suas fileiras os deputados que participaram da votação
no colégio eleitoral que escolheu Tancredo Neves como presidente
da República. Na época, a direção do
PT orientou sua bancada a boicotar o colégio eleitoral, cuja
existência suprimia o voto popular, e, em nome da disciplina
partidária, expulsou os parlamentares que desobedeceram à
ordem.
Agora,
está fazendo a mesma coisa. Além de punir os desobedientes,
usa a expulsão como uma forma de homenagear os obedientes.
Afinal, muitos parlamentares petistas, entre deputados e senadores,
fizeram sacrifícios para votar a favor da reforma da Previdência
Social negaram posições tradicionais, enfrentaram
a revolta de suas bases eleitorais e lidaram com dramas de consciência.
A senadora Serys Slhessarenko, de Mato Grosso, subiu à tribuna,
chorou durante seu discurso, mas anunciou voto favorável
à reforma. "Vivo um conflito. O que vamos fazer aqui é
uma violentação", disse, aos prantos, acrescentando
em seguida que, apesar de tudo, votaria a favor do projeto: "Acato
a decisão do partido", resumiu. O senador Paulo Paim, do
Rio Grande do Sul, chegou a dizer que planejava votar contra a reforma
e, em seguida, faria um discurso despedindo-se do PT, pois suas
bases gaúchas eram, unanimemente, contra a mudança.
Não fez nem uma coisa nem outra. Disciplinadamente, Paim
foi para o sacrifício e acabou votando a favor da reforma.
A
outra questão, com a qual se tem feito confusão, é
ideológica. Nesse terreno, o PT cometeu um grave erro de
método, pelo qual está pagando agora um preço
correspondente. Mesmo antes de assumir o governo federal, ainda
na campanha presidencial, os petistas perceberam que só teriam
chances de ganhar a eleição e, mais que isso,
de administrar o país caso fizessem concessões
em relação a suas tradicionais posições
esquerdistas. O erro foi adotar a nova postura, mais moderna e mais
responsável, apenas na prática política. Não
houve discussão formal no partido nem autocrítica
em relação aos devaneios de outrora. Resumindo: diferentemente
de muitos partidos europeus que romperam oficialmente com o passado
de esquerda radical, o PT não produziu um documento partidário,
fruto de um debate interno, renunciando expressamente às
antigas posições. Tivesse feito isso, o partido até
poderia ser acusado de revisionismo ou reformismo mas jamais
de incoerência ou contradição, como fazem os
radicais. Tivesse feito isso, a senadora Heloísa Helena,
sendo ideologicamente honesta consigo mesma, teria deixado o PT
por sua própria iniciativa, e ninguém estaria agora
falando em expulsão.
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