Edição 1832 . 10 de dezembro de 2003

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Partidos
É por isso que o PT
não é o PMDB

O partido acerta ao planejar a
expulsão dos radicais – não porque
são radicais, mas indisciplinados


Malu Gaspar



Joedson Alves/AE
Protesto contra a expulsão da senadora Heloísa Helena do PT: o partido amarga a acusação de ser incoerente porque mudou mas esqueceu-se de fazer a autocrítica do passado

No próximo fim de semana, a cúpula do PT deve encerrar uma polêmica que se arrastou pelo ano inteiro – a expulsão dos parlamentares radicais que têm contrariado as orientações do partido nas votações no Congresso Nacional. Há duas semanas, a expulsão da senadora Heloísa Helena, de Alagoas, tornou-se inevitável em função de seu voto contrário à reforma da Previdência Social. Desde então, Heloísa Helena tem recebido homenagens e manifestações de desagravo, organizadas por amigos e aliados. São atos em que se conjugam o protesto contra o suposto autoritarismo da cúpula do PT e o repúdio à expulsão da senadora e de três deputados federais, cujos votos também têm violado determinações do partido. Já saiu até manifesto internacional, com cerca de 900 assinaturas de personalidades da esquerda mundial, entre elas o badalado lingüista americano Noam Chomsky, em que se apela à direção petista para que reconsidere o assunto. É difícil que o PT volte atrás, sobretudo porque está absolutamente certo ao expulsar os parlamentares.

O barulho em torno de Heloísa Helena promove uma confusão entre duas questões distintas. No plano da disciplina partidária, o PT tem toda a razão em punir a senadora e os três deputados, que, afinal, estão contrariando as orientações do partido. É por isso, por prezar a disciplina de militantes e parlamentares, que o PT cresceu como uma legenda respeitável, ficando a anos-luz de distância de agremiações invertebradas como o PMDB. A expulsão, diferentemente do que fazem crer aliados dos parlamentares radicais, também não significa uma traição à tradição democrática do PT. Significa, de novo, apenas compromisso com a disciplina partidária. Em 1985, o PT também expulsou de suas fileiras os deputados que participaram da votação no colégio eleitoral que escolheu Tancredo Neves como presidente da República. Na época, a direção do PT orientou sua bancada a boicotar o colégio eleitoral, cuja existência suprimia o voto popular, e, em nome da disciplina partidária, expulsou os parlamentares que desobedeceram à ordem.

Agora, está fazendo a mesma coisa. Além de punir os desobedientes, usa a expulsão como uma forma de homenagear os obedientes. Afinal, muitos parlamentares petistas, entre deputados e senadores, fizeram sacrifícios para votar a favor da reforma da Previdência Social – negaram posições tradicionais, enfrentaram a revolta de suas bases eleitorais e lidaram com dramas de consciência. A senadora Serys Slhessarenko, de Mato Grosso, subiu à tribuna, chorou durante seu discurso, mas anunciou voto favorável à reforma. "Vivo um conflito. O que vamos fazer aqui é uma violentação", disse, aos prantos, acrescentando em seguida que, apesar de tudo, votaria a favor do projeto: "Acato a decisão do partido", resumiu. O senador Paulo Paim, do Rio Grande do Sul, chegou a dizer que planejava votar contra a reforma e, em seguida, faria um discurso despedindo-se do PT, pois suas bases gaúchas eram, unanimemente, contra a mudança. Não fez nem uma coisa nem outra. Disciplinadamente, Paim foi para o sacrifício e acabou votando a favor da reforma.

A outra questão, com a qual se tem feito confusão, é ideológica. Nesse terreno, o PT cometeu um grave erro de método, pelo qual está pagando agora um preço correspondente. Mesmo antes de assumir o governo federal, ainda na campanha presidencial, os petistas perceberam que só teriam chances de ganhar a eleição – e, mais que isso, de administrar o país – caso fizessem concessões em relação a suas tradicionais posições esquerdistas. O erro foi adotar a nova postura, mais moderna e mais responsável, apenas na prática política. Não houve discussão formal no partido nem autocrítica em relação aos devaneios de outrora. Resumindo: diferentemente de muitos partidos europeus que romperam oficialmente com o passado de esquerda radical, o PT não produziu um documento partidário, fruto de um debate interno, renunciando expressamente às antigas posições. Tivesse feito isso, o partido até poderia ser acusado de revisionismo ou reformismo – mas jamais de incoerência ou contradição, como fazem os radicais. Tivesse feito isso, a senadora Heloísa Helena, sendo ideologicamente honesta consigo mesma, teria deixado o PT por sua própria iniciativa, e ninguém estaria agora falando em expulsão.

 
 
 
 
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