Edição 1832 . 10 de dezembro de 2003

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Relações Exteriores
Política externa rodopiante

Na viagem aos países árabes Lula se rende aos
sonhos terceiro-mundistas de seus assessores


Eurípedes Alcântara

 
Dida Sampaio/AE
Antonio Milena/ABR
Lula assiste aos "dervixes rodopiantes" e posa com Marisa, ao lado do presidente sírio Bashar Assad e de sua mulher, Asma

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Fazer um giro pelos países do Oriente Médio e norte da África e deixar de fora Israel e Arábia Saudita equivale a excursionar pelo Mercosul sem passar por Brasília e Buenos Aires. A insignificância, no entanto, não foi a faceta mais marcante da viagem de Luiz Inácio Lula da Silva na semana passada. O presidente brasileiro talvez não tenha sido alertado para isso, mas sua política externa está muito parecida, pela exuberante coreografia, falta de substância e estado de transe de seus diplomatas, com o ritual dos dervixes rodopiantes a que a comitiva assistiu em mesquita de Damasco, capital da Síria, primeira escala da viagem. Com uma desvantagem. Pelo menos os dervixes rodopiantes não ficam tontos. Os dervixes são uma espécie de ala das baianas da ordem islâmica mística Mevlevi, uma tradição nascida na Turquia em 1273. O giro de Lula será lembrado por ele ter protestado, na Síria, contra a invasão de terras palestinas por Israel, esquecendo-se de que o país anfitrião, a Síria, é ele próprio um invasor, do vizinho Líbano. Outro detalhe inesquecível foi a inclusão no roteiro de uma visita ao coronel Muamar Kadafi, da Líbia, financiador de um dos mais sangrentos ataques terroristas da história, a explosão em pleno ar, em 1988, de um jato comercial com 259 passageiros de doze nacionalidades. Kadafi entregou seus agentes terroristas a um tribunal internacional, aceitou pagar indenizações à família das vítimas, mas, pela gravidade do crime, os EUA e a Inglaterra não suspenderam as sanções contra a Líbia, e seu ditador perpétuo continua sendo considerado um pária.

A política externa atual do Itamaraty se baseia em uma tradição não tão antiga mas quase tão mística quanto a dos dançarinos sírios. Ela é uma versão requentada da política externa do governo militar, em especial da adotada por Ernesto Geisel, penúltimo presidente do ciclo dos generais. Baseava-se em espezinhar veladamente os Estados Unidos, hostilizar Israel e estabelecer o Brasil como líder do Terceiro Mundo e grande concentrador do comércio "sul-sul", ou seja, entre nações pobres. Adotado por Lula, o conceito voltou à moda no Brasil. O objetivo de ser "o primeiro país do Terceiro Mundo, e não o último do Primeiro", sonhado pelos generais e revivido por Lula, deu muito prazer pessoal a diplomatas e militares nacionalistas, mas não é uma boa senda para o Brasil.

No tempo dos militares, estatais brasileiras e empresas patrocinadas pelos militares, como a Avibrás e a Engesa, venderam pasta de urânio, tecnologia de mísseis e foguetes de artilharia ao Iraque. Montaram fábricas de armas, ao cabo de custosas operações clandestinas, no deserto da Líbia. Economicamente essas investidas faziam sentido. O Brasil precisava do fornecimento de petróleo dos árabes, que naquele período era caro e raro. Agora, caminhando para a auto-suficiência em 2007, repetir a fantasia comercial das Arábias não parece uma escolha sensata. "Há pouco a ganhar na aproximação comercial com os árabes e muito a perder, se o gesto brasileiro levar ao esfriamento das relações com os Estados Unidos", diz Marcos Jank, respeitado especialista brasileiro em comércio exterior.

Juntos, os cinco países do roteiro de Lula têm uma população de cerca de 100 milhões de pessoas e um PIB total de cerca de 200 bilhões, que é equivalente ao da Polônia. Uma pobreza só, como se vê. O Brasil vende para a região, anualmente, 2,3 bilhões de dólares em mercadorias e serviços, menos de 4% do total de suas exportações. Quem ouviu os discursos de Lula na Síria tem todo o direito de suspeitar que, no que diz respeito ao comércio, o Itamaraty trocou as pastas e deu-lhe para ler documentos que deveriam ser expostos nas negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), com seus 34 países, 800 milhões de habitantes e 12 trilhões de dólares de PIB. Lula falou em juntar forças com os países árabes para "mudar em nosso favor a geografia comercial do mundo". A frase é sonora, mas oca. O Brasil detém apenas a fatia ridícula de 0,89% do comércio mundial, atrás de países como Tailândia e Rússia. O Brasil não pode assim "mudar a geografia comercial do mundo". Isso equivale a uma fanfarronice nada diplomática. O país de Lula só pode e só deve tentar participar com mais afinco da geografia comercial em vigor. Não cabe ao Brasil reinventar nada nesse terreno. O desafio real é simplesmente participar de verdade da rede mundial de comércio, na qual o Brasil já teve presença porcentual maior que a de hoje.

 
 
 
 
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