|
|
Relações
Exteriores
Política externa rodopiante
Na
viagem aos países árabes Lula se rende
aos
sonhos terceiro-mundistas de seus assessores

Eurípedes
Alcântara
Dida Sampaio/AE
 |
Antonio Milena/ABR
 |
| Lula
assiste aos "dervixes rodopiantes" e posa com Marisa, ao lado
do presidente sírio Bashar Assad e de sua mulher, Asma |
Fazer
um giro pelos países do Oriente Médio e norte da África
e deixar de fora Israel e Arábia Saudita equivale a excursionar
pelo Mercosul sem passar por Brasília e Buenos Aires. A insignificância,
no entanto, não foi a faceta mais marcante da viagem de Luiz
Inácio Lula da Silva na semana passada. O presidente brasileiro
talvez não tenha sido alertado para isso, mas sua política
externa está muito parecida, pela exuberante coreografia,
falta de substância e estado de transe de seus diplomatas,
com o ritual dos dervixes rodopiantes a que a comitiva assistiu
em mesquita de Damasco, capital da Síria, primeira escala
da viagem. Com uma desvantagem. Pelo menos os dervixes rodopiantes
não ficam tontos. Os dervixes são uma espécie
de ala das baianas da ordem islâmica mística Mevlevi,
uma tradição nascida na Turquia em 1273. O giro de
Lula será lembrado por ele ter protestado, na Síria,
contra a invasão de terras palestinas por Israel, esquecendo-se
de que o país anfitrião, a Síria, é
ele próprio um invasor, do vizinho Líbano. Outro detalhe
inesquecível foi a inclusão no roteiro de uma visita
ao coronel Muamar Kadafi, da Líbia, financiador de um dos
mais sangrentos ataques terroristas da história, a explosão
em pleno ar, em 1988, de um jato comercial com 259 passageiros de
doze nacionalidades. Kadafi entregou seus agentes terroristas a
um tribunal internacional, aceitou pagar indenizações
à família das vítimas, mas, pela gravidade
do crime, os EUA e a Inglaterra não suspenderam as sanções
contra a Líbia, e seu ditador perpétuo continua sendo
considerado um pária.
A política externa atual do Itamaraty se baseia em uma tradição
não tão antiga mas quase tão mística
quanto a dos dançarinos sírios. Ela é uma versão
requentada da política externa do governo militar, em especial
da adotada por Ernesto Geisel, penúltimo presidente do ciclo
dos generais. Baseava-se em espezinhar veladamente os Estados Unidos,
hostilizar Israel e estabelecer o Brasil como líder do Terceiro
Mundo e grande concentrador do comércio "sul-sul", ou seja,
entre nações pobres. Adotado por Lula, o conceito
voltou à moda no Brasil. O objetivo de ser "o primeiro país
do Terceiro Mundo, e não o último do Primeiro", sonhado
pelos generais e revivido por Lula, deu muito prazer pessoal a diplomatas
e militares nacionalistas, mas não é uma boa senda
para o Brasil.
No tempo dos militares, estatais brasileiras e empresas patrocinadas
pelos militares, como a Avibrás e a Engesa, venderam pasta
de urânio, tecnologia de mísseis e foguetes de artilharia
ao Iraque. Montaram fábricas de armas, ao cabo de custosas
operações clandestinas, no deserto da Líbia.
Economicamente essas investidas faziam sentido. O Brasil precisava
do fornecimento de petróleo dos árabes, que naquele
período era caro e raro. Agora, caminhando para a auto-suficiência
em 2007, repetir a fantasia comercial das Arábias não
parece uma escolha sensata. "Há pouco a ganhar na aproximação
comercial com os árabes e muito a perder, se o gesto brasileiro
levar ao esfriamento das relações com os Estados Unidos",
diz Marcos Jank, respeitado especialista brasileiro em comércio
exterior.
Juntos, os cinco países do roteiro de Lula têm uma
população de cerca de 100 milhões de pessoas
e um PIB total de cerca de 200 bilhões, que é equivalente
ao da Polônia. Uma pobreza só, como se vê. O
Brasil vende para a região, anualmente, 2,3 bilhões
de dólares em mercadorias e serviços, menos de 4%
do total de suas exportações. Quem ouviu os discursos
de Lula na Síria tem todo o direito de suspeitar que, no
que diz respeito ao comércio, o Itamaraty trocou as pastas
e deu-lhe para ler documentos que deveriam ser expostos nas negociações
da Área de Livre Comércio das Américas (Alca),
com seus 34 países, 800 milhões de habitantes e 12
trilhões de dólares de PIB. Lula falou em juntar forças
com os países árabes para "mudar em nosso favor a
geografia comercial do mundo". A frase é sonora, mas oca.
O Brasil detém apenas a fatia ridícula de 0,89% do
comércio mundial, atrás de países como Tailândia
e Rússia. O Brasil não pode assim "mudar a geografia
comercial do mundo". Isso equivale a uma fanfarronice nada diplomática.
O país de Lula só pode e só deve tentar participar
com mais afinco da geografia comercial em vigor. Não cabe
ao Brasil reinventar nada nesse terreno. O desafio real é
simplesmente participar de verdade da rede mundial de comércio,
na qual o Brasil já teve presença porcentual maior
que a de hoje.
|